Em busca da elegância

O que seria essa tão decantada "elegância dos vinhos" que está na moda e na boca de quase todos os enólogos do mundo?

Alexandre Lalas em 22 de Fevereiro de 2012 às 09:14

 

O Aurélio ensina que elegância é um substantivo feminino e significa "graça, distinção nas formas, nas maneiras, nos trajes: elegância de porte, de vestes; apresentar-se com elegância; arte de escolher as palavras: falar, escrever com elegância; elegância de estilo". A estilista Duda Braga, que durante anos foi o braço direito da consagrada Isabela Capeto e recentemente lançou grife própria, a Brir, adiciona outro substantivo à definição da palavra. "Para mim, a elegância é uma questão de simplicidade. Tem a ver com discrição e até com educação. A pessoa não resolve ficar elegante. Ela é ou não", ensina Duda.

No mundo do vinho, a palavra elegância está mais do que na moda. Experimente conversar com um enólogo, especialmente de países do Novo Mundo, sobre os vinhos que o sujeito produz e a resposta será repetida quase como um mantra: "minha meta é fazer vinhos elegantes", vai jurar o enólogo, seja ele australiano, chileno, sul-africano, ou o que for.

Após anos de domínio de vinhos superextraídos, concentrados, fortes, potentes, a coisa virou. No mundo do vinho, a busca pela elegância é o cálice sagrado almejado por 10 entre 10 enólogos mundo afora.

O que é elegância?
Mas, afinal de contas, o que diabos é essa tal elegância? Como defini-la, o que fazer para encontrá-la? Se há uma região onde a maior parte dos vinhos carrega no DNA a tão decantada elegância é a Borgonha, na França. Para Anne Moreau, da Domaine Louis Moreau, em Chablis, a questão não é fácil, e é até preciso usar a imaginação para definir o conceito do "ser elegante" nos vinhos. "Acho que na Borgonha fazemos vinhos mais finos e discretos do que, por exemplo, em Bordeaux, onde você pode encontrar mais fruta e até vinhos mais expressivos, mas que, no fundo, talvez sejam vinhos que queiram apenas 'se exibir'. Talvez dessa fineza e discrição nasça a elegância", sugere Anne. "Por outro lado, percebo que em Chablis outros dois fatores pesam muito na hora de determinar se o vinho será ou não elegante: a mineralidade e o frescor, combinados com a fruta e a expressão do terroir", acrescenta.

Em relação a essa suposta tendência do mercado, Anne crê que há duas correntes. Ela ainda enxerga uma diferença entre Novo e Velho Mundo no estilo de fazer vinhos, e acha que muitas diferenças vêm justamente do que o consumidor espera. "Acho que há duas vertentes na produção de vinho.

O consumidor mais novo, que está começando a aprender sobre a bebida, até prefere vinhos mais diretos, de estilo mais Novo Mundo. Enquanto aquele cara que já provou mais coisas e pode até ser chamado de 'connoisseur', esse sim, busca vinhos mais discretos, sutis, enfim, elegantes", conclui.

Foto: Luna Garcia


Existe elegância no Novo Mundo?

Para o australiano John Duval, que durante quase 30 anos foi o responsável pela produção do Penfolds Grange, um dos grandes ícones da Austrália, essa diferença entre estilos de Novo e Velho Mundo é uma "discussão estéril". "Nas décadas de 1970 e 80 até havia certa diferença entre o que se fazia na Europa e o que apresentavam países como Austrália e Estados Unidos. Hoje em dia não há mais isso. Basta dizer que é normal encontrar vinhas de mais de 100 anos na Austrália, coisa que não ocorre na França ou na Itália com a mesma frequência. Há vinhos feitos no Novo Mundo que são elegantes e austeros e outros feitos no Velho Mundo que são robustos, musculosos e superconcentrados. É tudo uma questão de solo, clima e desejo do enólogo", afirma.

No comando da John Duval Wines, o australiano dá a receita própria de um vinho elegante. "Eu gosto de fazer vinhos com menos extração. Trabalhando com baixo rendimento e em vinhas velhas (algumas até centenárias), consigo riqueza aromática e gustativa, além de taninos maduros, sem precisar de grandes níveis de açúcar nas uvas, e, consequentemente, faço vinhos menos alcoólicos", ensina. "Vinhos com menos extração e graduação alcoólica mais moderada, em minha opinião, refletem melhor o terroir de Barossa. E acho mesmo que podemos considerar essa uma tendência por aqui", completa Duval.

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A opinião dele é partilhada por outro enólogo da região. Kym Teusner, da Teusner Wines, concorda que as coisas estão mudando no vale do Barossa e, por conseguinte, em toda a Austrália. "Passamos por nossa infância enquanto produtores de vinhos com fruta massiva e carregados de madeira, e esse estilo nos fez famosos no mundo. Pessoalmente, acho esses vinhos chatos. Felizmente, passamos na última década por um amadurecimento, e estamos fazendo vinhos mais bebíveis, que acompanham bem a comida. Colhemos as uvas mais cedo, usamos menos madeira e entregamos vinhos com menos álcool", explica Teusner. "Acho que isso se deve também a uma mudança na maneira de o australiano comer. A cultura da comida por aqui também mudou, está mais sofisticada. E isso pede vinhos mais sutis, elegantes", conclui.


"Há vinhos feitos no Novo Mundo que são elegantes e austeros e outros feitos no Velho Mundo que são robustos, musculosos e concentrados. É tudo uma questão de solo, clima e desejo do enólogo,"
John Duval


A jornalista inglesa Sarah Ahmed, que edita o site "The Wine Detective", faz coro às ideias dos australianos. "Acho que essa busca pela elegância é, de fato, uma preocupação em tempo integral dos enólogos, especialmente os do Novo Mundo, mas não apenas para eles", inicia Sarah. "Acho que os vinhos com mais extração estão um pouco fora de moda mesmo, embora ainda haja muita gente que seja fã desse tipo de bebida. Talvez a fase antiga, de muita preocupação com concentração e maturação, tenha feito com que alguns produtores deixassem para trás o conceito de terroir, em busca do que se considerava então um vinho mais moderno. Essa reviravolta do mercado fez com que muitos desses produtores voltassem a prestar mais atenção na tipicidade da terra em que plantam", prossegue. "E muitos enólogos passaram a entender que, em um mercado competitivamente aquecido como o atual, a diferença pode ser um aliado na hora de vender um produto. E essa diferença não se consegue com foco em bombas de fruta e montes de madeira. Isso torna os vinhos iguais", aponta. "Outro fator de peso nessa transfor­mação da elegância em uma espécie de meta que todos querem atingir é a entrada em cena dos vinhos naturais. Embora o público consumidor desse tipo de vinho ainda seja pequeno, é uma minoria que faz barulho e antecipa tendências. E esses consumido­res querem o menos possível de manipulação nos vinhos que degustam, o que, naturalmente, acaba levando a vinhos elegantes", finaliza Sarah.

Uma elegância diferente?
Colega de Sarah, o também inglês e jornalista espe­cializado em vinhos Jamie Goode, que edita o site "Wine Anorak", concorda com o momento atual de busca por vinhos elegantes, mas ressalta que é difícil definir com exatidão o que é, de fato, a elegância. "Há um segmento cada vez maior do mercado que busca vinhos elegantes. É uma tendência. Conver­sando com enólogos mundo afora, é raro você en­contrar uma voz que admita buscar potência nos vinhos. Elegância é a palavra da moda. Mas o pro­blema é que não é fácil definir o que é essa elegância. Acho que é algo muito relativo. Não se tratam, em hipótese alguma, de vinhos diluídos, leves demais. Acho que tem mais a ver com vinhos complexos e que mostram um equilíbrio especial quando compa­rados com os seus pares", acredita Goode.

Também jornalista e crítica de vinhos, a portu­guesa Maria João de Almeida concorda que a ten­dência do mercado seja mesmo por vinhos elegan­tes. E, sem meias palavras, define o conceito: "Um vinho elegante tem obrigatoriamente de ter frescor, boa acidez, mineralidade, corpo e volume equilibrados e madeira sem exagero para não esconder as outras características do vinho", resume. "O mercado vive de tendências e modas. A dos vinhos muito frutados ou com madeira bem marcada já passou, embora ainda tenha adeptos. Agora a tendência é buscar vinhos mais elegantes e, por isso, mais equilibrados. Demasiada estrutura, concentração, volume tornam o vinho desequilibrado, já que algumas dessas características podem esconder outras e tornar de certa forma o vinho mais 'agressivo'", explica Maria. Em relação aos vinhos portugueses, a jornalista acha que muitos produtores já seguem esse caminho, mas ainda há muito que fazer. "Penso que os produtores daqui já se aperceberam da importância da elegância nos vinhos, mas ainda há muito caminho a percorrer. Um paladar mais exigente pode entender melhor essas diferenças, mas é o consumidor comum, nem sempre capaz de fazer esta distinção, quem dita as regras de negócio. Mesmo assim, já há uma grande quantidade de excelentes vinhos portugueses que andam por aí com esse perfil", completa Maria.

Responsável por fazer o Barca Velha, ícone do vinho português, até 2007, quando saiu da Casa Ferreirinha para montar a própria vinícola, o enólogo José Maria Soares Franco, da Duorum, afirma que o mercado está cansado das "bombas de fruta" e da "concentração exagerada". E aponta uma conjunção dos caminhos entre a vontade do produtor e o gosto do consumidor. "O mercado cansou de beber o mesmo vinho. E agora caminhamos para a era dos vinhos elegantes. Procura- se vinhos com caráter, nos quais se desejam corpo e volume, mas conjugados com elegância e fineza, de forma que o consumidor possa optar por bebê-los jovens e mais fáceis, ou mais complexos com a evolução", acredita.

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Elegância na origem
A produtora italiana Emanuela Stucchi Prinetti, da vinícola toscana Badia a Coltibuono, elegante que só ela, acredita que tudo se resolve na vinha.

"Para mim, a elegância já vem de berço. No caso dos vinhos, é no vinhedo que você a define. A uva tem que se adaptar ao terroir. O equilíbrio entre clima, insolação, água e solo faz com que ela atinja a maturação ideal. Depois, na cantina, é só fazer tudo direitinho e não estragar o que foi feito no vinhedo, e pronto: você tem um vinho elegante", simplifica. "De fato, o mercado parece estar caminhando nessa direção, o que nos deixa muito felizes", celebra.


Segundo diversos enólogos, o mercado cansou de beber o mesmo estilo de vinho potente e agora quer algo mais elegante

"Quanto mais 'educado' o enófilo, mais ele se aproxima dos vinhos elegantes. Podemos compará- lo com o melomano, que sempre precisa praticar o seu 'ouvido'", conta Jean Louis Trapet, do Domaine Trapet, na Borgonha, que segue a mesma linha de Emanuela no que ele chama de "ode ao toque sutil" dos vinhos. "Tomamos atitudes 'não agressivas', que abarcam as tradições. Dos primeiros brotos da primavera até a colheita, nossos frutos nunca são forçados. Isso se traduz em benefícios que acompanham os nossos vinhos, para entregar, no devido tempo, a fragrância elegante e as sutis harmonias dos aromas silenciosamente nutridos", aponta.



O exemplo francês
Um dos mais representativos países do Novo Mundo, onde muitas vezes críticos acusam (injustamente) os vinhos de serem para lá de parecidos, o Chile é outro lugar em que a elegância está na moda e pede passagem. "O consumidor instruído não quer mais saber de vinhos ultraconcentrados, consagrados por Parker, e buscam vinhos mais elegantes, mais fáceis de beber. Para mim, são vinhos sem arestas, que não perdem a riqueza e o encanto mesmo sem a mesma potência. A Borgonha é a campeã nesse quesito, temos o Piemonte também. Aqui no Chile ainda temos poucos exemplos de vinhos elegantes, destaco o Erasmo, da Viña Reserva de Caliboro, os vinhos da Gillmore e da Von Siebenthal também, mas estamos no caminho certo", aposta Felipe García Reyes, enólogo e proprietário da pequena Bravado Wines, que, modesto, não quis incluir os rótulos que produz no rol dos vinhos elegantes feitos no Chile.

"Vinhos de alta qualidade, com complexidade, taninos largos e maduros, para mim esses são os vinhos elegantes", resume o enólogo chileno Gonzalo Guzmán, da vinícola El Principal. "São vinhos especiais, ricos em aromas, extremamente equilibrados, e que, em sua maioria, têm uma grande ligação com o lugar onde é feito, algo que a terra transmite, como se fosse sua alma. Em minha opinião, os grandes vinhos do mundo são assim: elegantes, e não necessariamente potentes ou com grande concentração", completa. "E acho que, embora o mercado esteja de fato dando mais valor a vinhos elegantes, ainda há muito espaço para vinhos concentrados, maduros, com madeira bem marcada. Até porque não é toda vinícola que vai ter condições de fazer vinhos elegantes", finaliza Guzmán.


Na outra direção
Embora enólogos e formadores de opinião concordem que há uma tendência em favor da elegância e que esse é o norte a ser seguido, sempre há vozes discordantes. O norte-americano Russell Weis, da vinícola californiana Silverado, até prefere vinhos elegantes. Mas acha que a potência está longe de ser desbancada do alto do pódio da preferência dos consumidores. "O norte-americano tem uma cultura de consumir álcool, é criado à base de Bourbon e bebidas fortes. Para ele, o bom vinho tem que ter potência, concentração, extração", dispara, embora garanta que, pelo menos os vinhos que faz, são, sim, elegantes.


"Não faço vinhos de acordo com a moda. Faço os vinhos que gosto de beber. E eles não têm nada a ver com essa elegância que está aí. São musculosos, robustos, potentes, exuberantes"
Peter Barry

Outra voz dissonante é a do australiano Peter Barry, da Jim Barry Wines. "Não faço vinhos de acordo com a moda, ou pensando no mercado. Faço os vinhos que gosto de beber. E eles não têm nada a ver com essa elegância que está aí. São musculosos, robustos, potentes, exuberantes", desdenha Barry. Inegavelmente, são vinhos que refletem bem a personalidade do australiano. Mas há ali uma acidez presente que compensa tanta potência. O resultado: vinhos muito bem equilibrados. Mesmo sem serem exatamente "elegantes".


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