O Chile da Malbec!?

Diferentemente de alguns dos principais produtores do Chile, a Viu Manent não tem seu principal vinho feito com Carménère ou Cabernet Sauvignon, mas com Malbec

Arnaldo Grizzo em 14 de Outubro de 2009 às 06:37

Natalia Araujo

Diz-se que a juventude traz o ímpeto; e a idade, a experiência. A Viña Viu Manent, localizada no tradicional Vale de Colchagua - onde se encontram algumas das principais vinícolas chilenas -, tem jovens em sua direção, como o proprietário José Miguel Viu Bottini, de apenas 42 anos, e enólogos ainda mais jovens, Juan Pablo Lecaros, chileno, e Grand Phelps, neozelandês, ambos com 35 anos. Com ímpeto, mas com a sabedoria de ouvir a voz da experiência de seus consultores e seguir os conselhos dos mais velhos, eles tocam uma empresa tradicional, que busca espaço no cenário do vinho chileno e internacional. Ao contrário de boa parte dos principais produtores do país e até mesmo de seus vizinhos em Colchagua, a Viu Manent não tem seu vinho top baseado em Carménère ou Cabernet Sauvignon. Seu Viu 1 - o principal fermentado da casa, em homenagem a Miguel Viu Manent, que comprou a primeira bodega e os primeiros vinhedos da família - é feito basicamente com Malbec, uma casta mais difundida na Argentina.

No entanto, além da Malbec, os enólogos da Viu Manent gostam de testar outras cepas em seus vinhedos e dizem ainda estar buscando as que melhor se adaptam ao terroir de Colchagua. Nesta entrevista, Juan Pablo Lecaros conta como se deu o processo de transformar a vinícola da produção quantitativa para a qualitativa e qual o segredo de Colchagua para ter tantos produtores importantes lá instalados.

Como começa sua relação com o vinho e a Viu Manent?
Minha família está dedicada historicamente à agricultura. Meu pai foi viticultor e comecei a estudar agronomia no Chile. No fim, especializei-me em enologia. Saindo da universidade, fiz uma colheita na França, no Château Prieuré-Lichine. Voltei e comecei a trabalhar em Santa Carolina, em 2000. Fiquei cerca de sete meses e passei a enólogo assistente em Viu Manent. Estive no cargo até 2003, quando houve uma reestruturação na equipe que incorporou outro enólogo, Grand Phelps. Então assumi toda a enologia e produção de Viu Manent até hoje.

Os fundadores não eram produtores. Eles começaram como comerciantes?
A família Viu é de origem catalã. Como muitos catalães, eram comerciantes. Na década de 1930, chegaram ao Chile e começaram a comercializar vinho a granel. Compravam vinhos produzidos por pequenos produtores, engarrafavam e colocavam seu rótulo. Assim foi até a década de 60, quando compram sua primeira propriedade, o vinhedo San Carlos, parte da fazenda San Carlos - uma vinha muito antiga na zona de Colchagua. A partir daí, começa a produção de vinho. No entanto, nessa época, 100% da produção era para comercializar no Chile. Produziam com mais volume, vinhos mais macios, mais correntes. Ao final da década de 1990, quando assume a terceira geração da família Viu, a geração Viu Bottini (passaram os Viu Garcia, que são os fundadores; e os Viu Manent), começa a focar mais no mercado de exportações, muda a tecnologia, tenta estabelecer uma filosofia de vinhos de qualidade. Aí é onde também compete a entrada da equipe técnica de Viu Manent. Em 1995, a vinha começa a estruturar o tema dos vinhos finos e a sociedade de Aurelio Montes.

Foi no fim da década de 80 que o vinho chileno passou a focar na qualidade?
Diria que foi mais no começo de 1990. No Chile, houve um acontecimento fundamental, político, que foi a volta à democracia em 1989. Em 1990, com a abertura comercial, todas as vinhas começam a olhar o mercado de exportações como um boa alternativa. E as vinhas menores, que não estavam consolidadas, começam a se consolidar, sendo o ponto mais alto no fim da década de 1990.

E como foi este processo na Viu Manent?
Primeiro, foi um processo de convicção dos donos. Nesse momento, eles definem que queriam estar no conceito qualidade e não em quantidade. Começam a incorporar novas propriedades. Compram dois vinhedos novos. Aí começa essa sinergia na busca de vinhos finos. Nessa época, Viu Manent partiu de 40 mil caixas para 150 mil caixas hoje em dia. Segue sendo pouco para o Chile, mas uma quantidade importante para a vinha.

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Em 1988, vocês chamaram Aurelio Montes e Roberto Pizarro para dar consultoria. Como isso se refletiu?
Aurelio e Roberto eram amigos de longa data. Estudaram juntos na universidade. Um se dedicou mais ao lado vitícola, Pizarro, e Aurelio mais ao enológico. Quando Viu Manent decide se focar na produção de vinhos finos, chama Aurelio para assessorar. Ele estava saindo da Viña Undurraga, como enólogo, e estava começando seu projeto Montes, com outro sócio em paralelo à assessoria que fazia às diversas vinhas. A relação que tivemos foi fundamental, com a visão que ele imprimiu. Curiosamente, cronologicamente, o começo de Viña Montes e Viu Manent é muito similar. Obviamente o desenvolvimento que teve Montes foi diferente - um êxito tremendo nas vendas, com gênios na área de marketing. A diferença é que Montes é de vários sócios e Viu Manent segue sendo propriedade 100% da família Viu. Mas, sempre seguiu com a assessoria de todos os profissionais. Aurelio, quando começou a Viu Manent, assessorava mais de 10 vinhas no Chile, França, Califórnia. No Chile, hoje, trabalha basicamente em Montes e segue assessorando Viu Manent, mas em uma relação mais de amizade.

"O Chile tem que, mais do que concentrar forças em um variedade, mostrar que é capaz de ter uma grande oferta em torno do vinho"

Há um feito importante para o vinho chileno que foi a identificação e separação da Carménère. Como foi a participação da Viu Manent nesse processo?
Carménère esteve desde sempre no Chile. Foi uma cepa que trouxeram junto com outras francesas. No entanto, esteve por muito tempo confundida com Merlot. Alguns enólogos começaram a perceber que certos vinhedos não se comportavam como Merlot. Houve pioneiros neste sentido. Álvaro Espinoza, em Carmen, foi um dos principais, e houve outras pessoas que levantaram a Carménère como uma cepa emblemática no Chile - que não existia em outra parte do mundo. Em uma primeira etapa, muitas vinhas chilenas não acreditaram na Carménère, porque estavam focadas no mercado de exportação e não existia um nicho para o vinho Carménère. Em Viu Manent, pouco a pouco, começamos a fazer um trabalho de identificar nossos vinhedos e começamos a detectar que vários de nossos blocos de Merlot eram, na verdade, Carménère. E assim partimos com nosso primeiro Carménère em 2002, e fomos consolidando esta cepa. Ela é muito complexa de trabalhar, mas dá resultados excepcionais. Dentro de nossa linha, hoje, temos três Carménères que vêm de terroirs diferentes, com diferentes estilos.

O vínculo do Chile com a Carménère hoje é muito forte. Você acha que isso deve ser mantido?
Para Viu Manent, não. Acho que o Chile é um país privilegiado em amplitudes de variedades produzidas. Quando alguém se refere à Argentina, basicamente se limita a falar de Malbec, Bonarda, Torrontés. E não há muito mais. Quando fala de Nova Zelândia, fala de Sauvignon Blanc e Pinot Noir. No Uruguai é Tannat. No caso chileno, se você pergunta onde estão os melhores Sauvignon Blanc do mundo, provavelmente o Chile está no meio deles. Se pergunta onde estão os melhores Cabernet Sauvignon do mundo, o Chile está aí. Se pergunta pelo Carménère, sem dúvida, por quantidade e qualidade, o Chile encabeça essa lista. Ultimamente, os Syrah chilenos estão dando muitíssimo o que falar. Nesse sentido, parece um erro guiar a imagem do Chile para uma variedade somente. Sem dúvida que, em termos de marketing, vê-se isso como uma bandeira. Mas, no caso chileno, creio que a bandeira deve ser que temos uma grande oferta de variedades e, no caso particular de Viu Manent, talvez a variedade mais emblemática seja o Malbec. Temos que ir explorando não só os Malbec, em que já temos uma qualidade excepcional, mas outras variedades, como a Sauvignon Blanc, Carménère, sem dúvida. Particularmente no Vale de Colchagua, onde está Viu Manent, desenvolvem- se condições excepcionais para a produção de Syrah, Carménère, e estão aparecendo variedades de menor volume hoje, mas de qualidade muito boa, como Petit Verdot. Nesse sentido, o Chile tem que, mais do que concentrar forças em uma variedade, mostrar que é capaz de ter uma grande oferta em torno do vinho.

Como é ter um vinho top com Malbec, uma casta mais vinculada à Argentina?
É um situação curiosa, mas tem uma lógica dentro da história chilena. O Chile, por muito tempo, tinha Malbec em seus vinhedos mais antigos - mesclado com Cabernet e outras variedades. Malbec é uma variedade que os antigos enólogos chilenos usavam para melhorar mesclas, dar cor, mas nunca foi considerada uma variedade por si só, para um só vinho, como era Cabernet e Merlot. Quando o Chile começa a modernização de seus vinhedos, muitas vinhas começaram a arrancar seus vinhedos de Malbec. E, no caso de Viu Manent, houve um momento de apostar no Malbec - um dos vinhedos antigos que tínhamos, com mais de 80 anos, que dava, ano a ano, os melhores vinhos de nossa bodega. Fomos a primeira vinha chilena a etiquetar um vinho com Malbec, em 1992. Logo começamos a melhorar a qualidade e técnicas vitícolas e enológicas, até chegar à colheita 1999, nossa primeira edição de Viu 1 - que saiu com 90% de Malbec. Isso tem a ver com as condições que temos neste vinhedo em San Carlos.

Quais as particularidades deste vinhedo?
Antigamente os viticultores plantavam nas zonas mais férteis, porque se buscava produzir muito. Então, este vinhedo está plantando numa zona muito fértil, no centro de Colchagua. Um solo profundo, de textura franco-argilosa, água freática à 2 metros, com muita disponibilidade de água. São vinhas com raízes de mais de 4 metros de profundidade, portanto, praticamente não se regam. E plantado em alta densidade. Como antigamente os viticultores não utilizavam tratores, mas cavalos, as faixas entre as vinhas eram muito estreitas e permitiam colocar alta densidade. No caso desse vinhedo em particular, o quartel número 4, que origina o Viu 1, é um vinhedo que tem mais de 100 mil plantas por hectare, com mais de 80 anos. Estas condições fazem com que a produção seja muito moderada, uma uva muito concentrada, com muita cor, muita fruta, um toque especial. Um Malbec muito particular, que se comporta muito bem durante a vinificação - obtendo vinhos de grande corpo, mas corpo suave, sedoso, de muito bom potencial de guarda.

Natalia Araujo

Não se produz todos os anos?
O conceito deste vinho nasce como um pedido de Miguel Viu Manent à equipe técnica de então, que estava liderada por José Miguel Viu, Aurelio Montes. Ele os encarrega, ao final dos 90, de elaborar um vinho top da casa para consolidar este posicionamento da Viu Manent. No ano de 99 (uma colheita muito boa no Chile, caracterizada pela influência da corrente La Niña, ausência de chuva, baixa produção), o melhor vinho que a equipe técnica determina na vindima é um Malbec. Este vinho é levado à barrica de carvalho e começa a amadurecer e desenvolver um grande potencial. Nesse momento, havia uma grande expectativa na equipe. Era o ponto culminante de Miguel Viu Manent, de uma vida dedicada à viticultura. No entanto, no ano 2000, enquanto o vinho ainda estava em barrica, ele morre de câncer. Então, seus filhos decidem engarrafar esse vinho e batizá-lo como Viu, que era o nome que havia dado à vinícola. Aí começa esta relação do Viu 1 com o Malbec - como o melhor vinho da vinha. O conceito era fazer só nas safras excepcionais.

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Vocês estão próximos a Apalta, não?
Temos três vinhedos. Um em Cunaco, que está justo em frente a Apalta, próximo de Santa Cruz, no centro de Colchagua, na parte mais antiga. Chama-se San Carlos e tem cerca de 160 hectares. Depois, um vinhedo 25 km mais para a costa, La Capilla, está sobre um solo de essência vulcânica - de muito baixa fertilidade, mas para conseguir uvas com grande concentração. Depois, outro vinhedo em Peralillo, chama-se El Olivar, com solo granítico, baixa fertilidade, onde antigamente havia olivos. A Casa Lapostolle está 1 km à frente. Lá também está Montes, Ventisquero, Santa Rita.

"Creio que Petit Verdot vai ser um componente de vinhos de grande qualidade no Chile"

Como é estar ao lado de vizinhos premiados na mesma região?
O fato de estar circunscrito numa vizinhança com vizinhos de destaque como Lapostolle, Montes, sem dúvida que prestigia a origem. Neste caso, Colchagua. Tomara que todas as vinhas de Colchagua tivessem 98 pontos, porque isso prestigia muito a origem. Estamos convencidos que os prêmios que Lapostolle, Montes e mesmo Viu Manent receberam são reflexos de que o potencial de qualidade que há em Colchagua é muito bom.

Dizem que a Petit Verdot tem feito grande diferença nos vinhos chilenos. Qual a sua visão desta cepa?
Primeiro, vou contar uma história em torno da Petit Verdot. Lembro-me da colheita que fiz no Château Prieuré- Lichine. Um dia estava comendo na casa de um trabalhador, ele não era enólogo. Tomávamos vinho e falávamos dos vinhos do Medoc. Ele fez um comentário que me chamou muito a atenção. Pareceu algo exagerado, mas muito objetivo. Disse o seguinte: "Um vinho de Medoc pode ter qualquer composição - entre Cabernet Sauvignon, Merlot - mas o que não pode faltar, nem que seja 1%, é Petit Verdot. Para ser um vinho de Medoc, tem que ter Petit Verdot". Achei curioso naquele momento. E, em Colchagua, começamos com o trabalho de muitas variedades. Em nossos vinhedos, plantamos Grenache, Mourvèdre, Petit Verdot, Tempranillo, Tannat, Cabernet Franc, Sangiovese, com a idéia de ir vendo como elas se adaptam no terroir de Colchagua. Uma das variedades que mais nos surpreendeu foi, de longe, a Petit Verdot. Creio que ela encontrou um lugar preciso nas ladeiras das colinas no Chile, onde as condições são muito mais exigentes para os vinhedos. Petit Verdot é uma variedade de maduração tardia, portanto, em vales como Colchagua, funciona muito bem. Quando você o prova sozinho, é um vinho rústico, de muita cor, muita acidez, provavelmente muito linear, com pouca complexidade. Ao prová-lo com as distintas mesclas, demos conta que trazem complexidades diferentes. Para vinhos que têm grande estrutura em boca, ela traz uma acidez que o refresca. Diria que dá potência em sua boca de uma maneira muito agradável, não com taninos tão duros, mas com muito frescor. Dá muita cor, aromas de frutas negras maduras. Em porcentagem bastante pequenas faz uma grande diferença. Nós, na safra 2007 de Viu 1, incorporamos uma porcentagem de Petit Verdot pela primeira vez e estamos convencidos que isso vai marcar a diferença deste vinho. Nossos dois vinhos da linha Single Vineyard, de alta gama, que provêm de El Olivar, contêm uma porcentagem de Petit Verdot. Creio que Petit Verdot vai ser um componente de vinhos de grande qualidade no Chile.

Esta é a melhor região do Chile?
Já escutei de mais de uma pessoa dedicada à viticultura do Chile que as bodegas importantes do país têm vinhedos em vários vales. Mas, o único vale onde estão todas as bodegas importantes é Colchagua. É um vale onde se dão os melhores tintos - de grande corpo, robustos, potentes -, grandes Syrah, Carménère, Cabernet Sauvignon. O Chile está divido em vales. Tem os Andes e, antes do Oceano Pacífico, tem a cordilheira da costa. Além disso, entre os Andes e a cordilheira da costa, há cadeias transversais, que geram vales rodeados de colinas. No caso de Colchagua, está encaixotado pelos Andes, a cordilheira da costa e duas cadeias transversais. Na época do amadurecimento, há ausência de precipitação - o que permite variedades muito tardias. Tem dias de verão muito quentes, 35oC de média, e, no mesmo dia, a temperatura à noite baixa para 12o, 14oC. Essa diferença térmica de mais de 20 graus no dia ajuda a produção de polifenóis, taninos, e consegue vinhos de grande estrutura, grande potencial de guarda.


Entrevista

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 48 · Outubro/2009 · Vinho, ontem e hoje

Como ele evoluiu até os dias de hoje


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