O mais caro do mundo

A garrafa de vinho mais cara do mundo é de um Château Lafite Rothschild. Como esta propriedade de Bordeaux se transformou em um ícone?

Arnaldo Grizzo em 8 de Fevereiro de 2010 às 13:32

fotos: divulgação

A década de 1980 foi o auge do frenesi nos leilões de vinho pelo mundo. Nessa época, uma garrafa de Lafitte (hoje conhecido como Château Lafite Rothschild), dita de 1787 e pertencente à coleção de Thomas Jefferson, foi arrematada pela quantia de US$ 160 mil (valor que significaria atualmente cerca de mais de 300 mil dólares) em 1985 pelo milionário Malcolm Forbes. Este é o maior valor já pago por uma garrafa de vinho na história de um leilão.

Normalmente, um Lafi- te de uma boa safra já passa facilmente dos 2 mil dólares. É o preço da história e da tradição. Junto com Margaux, Latour, Haut-Brion e Mouton Rothschild (que pertence a outro ramo da mesma família), Lafite faz parte dos cinco Premiers Grand Cru de Bordeaux, cinco vinhos míticos. Ultimamente, tem sido um dos vinhos de maior "retorno" para investidores.

Como todos os grandes châteaux de Médoc, uma pequena elevação marca a paisagem da propriedade e acabou por lhe dar o nome. Tido como a origem vindo de "la hire", que significaria "pequena colina", sua variação "La Fite" viria a dar nome de uma antiga família que habitava o local, cujas primeiras referências datam de 1234, com um abade chamado Gombaud de Lafite. Diz-se ainda que tal família viria a receber favores e ter relação com o antigo reino de Navarra.

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Contudo, foi com a família Ségur que se iniciou a verdadeira tradição vitivinícola da propriedade. Os primeiros vinhedos foram plantados com Jacques de Ségur, mas foi seu neto, Nicolas Alexandre, que realmente começou a fama de Lafite e de outros grandes châteaux de Bordeaux.

Conhecido como o "Príncipe dos Vinhos", Nicolas Alexandre era filho de Alexandre, que se casou com a herdeira de Latour. Na época, a família ainda era proprietária de Mouton - que só viria a se tornar um Premier Cru em 1973, com a pressão dos Rothschild sobre a classificação original de 1855. Foi com o marquês de Ségur que os vinhos de Lafite ganharam prestígio na corte francesa, em Versalhes - recebendo a alcunha de "Vinho do Rei" - e também internacionalmente.

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Fonte da juventude

Propriedade pertenceu ao "Príncipe dos Vinhos"

Diz-se que o marechal Richelieu, muito amigo do rei Luís XV, foi consultar um médico bordalês que lhe indicou beber Lafite, pois era "o mais fino e agradável de todos os tônicos". Ao retornar à corte, o rei questionou o amigo sobre sua aparência rejuvenescida. Richelieu teria dito: "Vossa majestade ainda não sabe que encontrei a fonte da juventude? Descobri que Château Lafite faz bebidas revigorantes: elas são tão deliciosas quanto a ambrósia dos deuses do Olimpo".

A corte francesa, em peso, apreciava este néctar dos deuses. As amantes oficiais de Luís XV, Madame de Pompadour e Madame Du Barry eram fervorosas por este vinho. Para afogar as mágoas de ter perdido a disputa com o Príncipe de Conti na compra das parcelas de Romanée, a Madame de Pompadour teria escolhido Lafite. A corte inglesa também se deliciava com este fermentado e o primeiro ministro britânico, Robert Walpole comprava um barril a cada três meses.

"Elas são tão deliciosas quanto a ambrósia dos deuses do Olimpo", teria dito o marechal Richelieu

A morte do marquês de Ségur levou à divisão das propriedades da família, pois ele não teve herdeiros homens. Lafite foi vendido em 1784, pouco antes da Revolução Francesa, que significou momentos turbulentos na história do château. Durante o período conhecido como "Terror", o proprietário foi executado e as terras vendidas em leilões populares. Uma sucessão de mercadores holandeses o adquiriram.

Barões do vinho

Em agosto de 1868, o barão James de Rothschild comprou a propriedade (alguns dizem por inveja Nathaniel Rothschild, que havia adquirido uma propriedade vizinha chamada Brane Mouton - que ele renomearia para Mouton Rothschild), mas morreu três meses depois. Seus três filhos assumiram Lafite e a safra daquele ano entrou para a história como a mais cara do século. No entanto, eles tiveram que atravessar tempos difíceis em seguida, com as pragas (filoxera e míldio), as guerras mundiais e as crises econômicas. Durante a II Guerra, as terras da família (incluindo Lafite e Mouton Rothschild) foram ocupadas por tropas alemãs e confiscadas.

Em 1945, com o fim da guerra, o barão Elie tomou a frente do negócio, reformulou toda a propriedade e foi atrás de novos mercados para seus vinhos. Nesta época, houve uma rivalidade com Mouton para ver quem tinha os melhores e mais caros vinhos. Depois, seu sobrinho, Éric de Rothschild, assumiu Lafite, renovou os processos da vinícola e adquiriu novas propriedades na França e no mundo.

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fotos: divulgação
O segundo vinho do Château, o Carruades de Lafite, também goza de grande reputação

Terroir

A área total de Lafite é de 178 hectares, com 107 de vinhas, e é dividida em três regiões: a primeira primeira perto das colinas que circundam o château, a segunda é um platô a oeste, dito Carruades, e a terceira, com 4,5 hectares fica na vizinha Saint Esthèpe. Lá se planta Cabernet Sauvignon (70%), Merlot (25%), Cabernet Franc (3%) e Petit Verdot (2%). A idade média das videiras é de 35 anos. As mais novas (com 10 anos somente) não são usadas para fazer o seu principal vinho. Ou seja, para o Château Lafite Rothschild são usadas apenas vinhas com mais de 45 anos. O lote mais antigo, chamado La Gravière, foi plantado em 1886.

Vinho

Seu principal vinho é tido como sendo o de maior regularidade dos Premier Cru. São conhecidos por sua finesse, potência e capacidade de envelhecimento formidável. Quando jovem, diz-se que é o menos sedutor dos Premier Cru, mas ganha enorme complexidade com o tempo.

Seu blend varia ano a ano com a Cabernet Sauvignon geralmente de 80 a 95%, a Merlot de 5 a 20%, a Cabernet Franc e a Petit Verdot até 5%. Algumas safras, contudo, podem ter apenas duas castas, como 1994 (99% Cabernet Sauvignon e 1% Petit Verdot) ou apenas Cabernet Sauvignon (como em 1961).

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Por ano, são produzidas de 15 a 20 mil caixas. Seu segundo vinho, o Carruades de Lafite, se diferencia pelo blend, pela idade das vinhas e pelas barricas usadas para envelhecer (que não são 100% novas neste caso). O Château Lafite possui uma textura particular de suavidade excepcional, com notas de torrefação, cacau e pequenas frutas vermelhas. As grandes safras recentes são: 2005, 2000, 1998, 1996, 1990, 1988, 1986, 1982, 1976, 1975, 1961, 1959, 1953, 1949, 1945, 1928 e 1927. Sendo que para degustar estas últimas grandes safras dos anos 2000, o ideal seria esperar, pelo menos, 20 anos.

O blend varia ano a ano com Cabernet Sauvignon (entre 80 e 95%), Merlot (de 5 a 20%), Cabernet Franc e Petit Verdot (até 5%). A produção vai de 15 a 20 mil caixas por ano

Por fim, o barão Éric gosta de mostrar a capacidade de envelhecimento dos vinhos de Lafite e uma história curiosa conta que durante um jantar com personalidades na propriedade, um dos convidados mais incautos perguntou a safra do vinho para o maître. "É de 87", respondeu educado. Após uma explicação de que 1987 não havia sido um bom ano, o convidado interpelou o barão: "Estou surpreso por ter gostado tanto de um vinho de 87... já que não foi uma boa safra". O maître, contudo, interpelou sorrindo: "O vinho que provamos é de 1887".


Grands Châteaux

Artigo publicado nesta revista


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