O súbito encanto dos neozelandeses

Produção em larga escala na Nova Zelândia só começou na década de 1970, mas logo seus vinhos (especialmente os brancos) ganharam prestígio mundial

Aguinaldo Záckia Albert em 5 de Março de 2009 às 11:46

As altas temperaturas de nosso verão despertam nos enófilos o desejo de beber vinhos frutados e de boa acidez, de preferência brancos, para refrescar e acompanhar pratos mais leves. Nessas circunstâncias, os vinhos neozelandeses são um dos primeiros a serem lembrados.

A Nova Zelândia é a região produtora mais isolada do planeta, um conjunto de ilhas a cerca de 1600 km da já distante Austrália. Embora sua produção não seja muito expressiva, a qualidade alcançada por seus vinhos em um curto espaço de tempo lhe valeu merecido destaque no cenário mundial.

Não existe região vinícola que produza vinhos num território tão austral quanto a Nova Zelândia. Sua zona produtora localiza-se entre os paralelos 35° e 44° de latitude sul, correspondendo, em termos europeus, ao sul da Espanha e à Côte-du-Rhône. Entretanto, seu clima é bem mais frio do que o destas regiões do Velho Mundo, pois, embora as latitudes sejam as mesmas, a falta de massa continental ao seu redor faz com que suas temperaturas sejam consideravelmente mais baixas, o que garante uma vocação bastante diversa quanto às castas de uvas ali plantadas e o estilo de seus vinhos.

Sua história vitivinícola é bem recente, pelo menos a de boa qualidade, uma vez que a elaboração de vinhos a partir da vitis vinifera em larga escala só se iniciou em 1970. Já nos anos 80, seus Sauvignon Blancs e Chardonnays começaram a ter reconhecimento internacional.

Os brancos desde o princípio

Os primeiros vinhedos foram plantados em 1840 em Kerikeri, Bay of Island, Ilha do Norte, pelo missionário anglicano Samuel Mardsen. Entretanto, os primeiros vinhos só começaram a ser produzidos 20 anos mais tarde, como confirma o depoimento do explorador francês Dumont d'Urville, que nos fala no livro "The Wines and Vineyards of New Zealand", de "uma latada (treliça) em que floresciam várias parreiras...com grande prazer pude provar o produto do vinhedo que acabara de ver. Fui servido de um leve vinho branco, muito espumante, e delicioso ao paladar, que apreciei imensamente." Como se vê, já se prenunciava a grande vocação da região para os refrescantes vinhos brancos.

Alguns fatos, no entanto, conspiraram para a que viticultura não prosperasse de forma desejável. Em primeiro lugar, a população de origem era predominantemente inglesa, mais voltada para o consumo da cerveja, embora a elite apreciasse o vinho. Mas, neste caso, o fermentado tinha que ser um Bordeaux, um Jerez ou um Porto europeu.

Depois, a fundação da New Zealand Temperance Society, em 1836, que pregava a proibição de toda bebida alcoólica, da mesma forma como viria ocorrer no século seguinte nos Estados Unidos. Seu poder foi muito grande entre os anos 1881 e 1918, vindo a frustrar os esforços do governador viticulturista Romeo Bragato, que muito fez pela melhoria da qualidade do vinho neozelandês entre os anos 1895 e 1909.

A isso tudo deve-se somar as sequelas da praga da filoxera, que também atingiu estas ilhas distantes por volta de 1895. As consequências foram desastrosas, pois, ao invés de seguirem o exemplo europeu de plantar espécies de vitis vinifera enxertadas em "cavalos" de espécies americanas, optaram por plantar pura e simplesmente castas americanas híbridas, resistentes à praga, mas que dão origem a vinhos de baixíssima qualidade. Assim, em 1960, a uva Isabella, conhecida na região por Albany Surprise, era a mais plantada no país.

Com altos e baixos, chega-se aos anos 70, o interesse pelo vinho cresce e tem início uma importante revolução de qualidade no país. O estilo dos Sauvignon Blancs, Chardonnays e Pinot Noir neozelandeses começam a marcar presença. Nos nossos dias, o prestígio do país como produtor de vinhos de alta qualidade já está consolidado.

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Influência australiana

A indústria vinícola desta região, que surpreendeu o mundo com sua rápida ascensão, sofreu forte influência de pesquisadores da Universidade de Adelaide, Austrália, onde se formou a maioria dos enólogos neozelandeses. Além disso, boa parte da mão-de-obra especializada também é de origem australiana. Vale lembrar que a Austrália tem tradição vitivinícola maior do que a Nova Zelândia, que recebeu também muitos enólogos de origem europeia.

Apenas uma grande vinícola produz metade do vinho do país, e outras duas, 40%. Entretanto, é nos 10% restantes que se encontram os melhores vinhos da região. Muitos dos proprietários destes pequenos vinhedos seguem o chamado "lifestyle winery".

Geralmente são aposentados ou jovens casais que buscam mais uma forma de vida alternativa, atraídos mais pelo bucolismo de seu ambiente de trabalho do que pelos objetivos comerciais.

As regiões

São 10 regiões produtoras distribuídas pelas duas ilhas, que seguem nomeadas no sentido norte/sul:

NORTHLAND - Os primeiros vinhedos do país foram aqui plantados no início do século XIX. Depois de abandonada, o interesse pela vitivinicultura ressurgiu nos últimos anos e agora se expande. É a região de clima mais quente, portanto, mais adequada à Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay, as três castas mais cultivadas. O solo varia do argiloso ao argilo-arenoso, passando por regiões de subsolo vulcânico.

AUCKLAND - Henderson, Kumeu e Huapai, situadas a noroeste da cidade de Auckland, são as mais tradicionais subrregiões desta zona. Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay são as uvas mais plantadas, embora também se encontre a Sauvignon Blanc e a Semillon. Os vinhos tintos são os de maior reputação.

WAIKATO/BAY OF PLENTY - Pequena região ao sul de Auckland que começa a despontar. Chardonnays, Sauvignon Blancs e Cabernet Sauvignons de boa qualidade.

GISBORNE - Situado no extremo leste da ilha, é o vinhedo mais oriental do planeta. Vinhas geralmente plantadas em planícies. Solos de calcárioargiloso sobre subsolo vulcânico ou arenoso. Tem 90% de uvas brancas, sendo metade de Chardonnay. Sem muita expressão em termos de qualidade.

HAWKES BAY - Perto da cidade de Napier, é uma das mais antigas regiões produtoras do país e também uma das de maior reputação, além de ser a segunda maior. A enorme variedade de solos propicia o plantio de várias cepas. Tem o maior número de horas/sol da Nova Zelândia graças a uma cadeia de montanhas que bloqueia as chuvas trazidas pelo vento. A Chardonnay predomina, embora o clima ensolarado atraia cepas tintas como a Pinot Noir e outras de amadurecimento mais tardio, como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Syrah.

WELLINGTON - Ocupa a região mais ao sul da Ilha do Norte. Martinborough e Wairarapa são seus distritos mais famosos. A região se notabiliza pelos seus esplêndidos Pinot Noir e Sauvignon Blancs. A produção é pequena, mas de alta qualidade. O estilo de seus vinhos é muito semelhante aos de Marlborough, Ilha do Sul.

NELSON - Já na Ilha do Sul. Área de grande beleza natural e pequena produção. Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling e Pinot Noir ocupam quase a totalidade da área plantada.

Fotos: divulgação Mistral
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MARLBOROUGH - Os primeiros vinhedos só foram plantados em 1973 e, no entanto, é hoje a região mais conhecida e de maior reputação do país. Seus Sauvignon Blancs são extraordinários, de grande riqueza e frescor. É também a maior produtora de espumantes elaborados a partir da Chardonnay e Pinot Noir, com as quais produz também vinhos tranquilos de altíssima qualidade. Vinhedos plantados em terraços planos às margens de rios. Solos pedregosos (os melhores) e argilosos.

CANTERBURY - Próxima à cidade de Christchurch, onde se plantaram os primeiros vinhedos nos anos 1970. Mais ao sul, fica a nova e promissora subrregião de Waipara. Verões longos e secos, com bastante insolação, e invernos rigorosos são a marca da região. Uvas mais plantadas em ordem decrescente: Chardonnay, Pinot Noir, Riesling e Sauvignon Blanc. É a quarta maior região do país.

CENTRAL OTAGO - Situada abaixo do paralelo 45, é a região produtora de vinho mais austral do mundo. Vinhedos plantados em altitude propiciam boa insolação e grande amplitude térmica. Muitos bons vinhos à base de Pinot Noir, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling.

Fotos: divulgação Mistral
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Principais uvas

SAUVIGNON BLANC - Aclamada por todos como a grande uva do país. Dá vinhos extremamente frutados (com aromas pungentes de maracujá, lima e mato cortado), de grande frescor e persistência. Rivalizam e, muitas vezes, suplantam os melhores franceses do vale do Loire. Seu plantio teve início em Auckland, mas se espalhou por todo o território. Atualmente, dois terços de sua produção encontram-se em Marlborough.

CHARDONNAY - É hoje a cepa mais plantada no país. A grande diversidade de solos e, principalmente, de climas, associada aos vários estilos de vinificação, propiciam uma ampla gama de vinhos elaborados com esta uva. No geral, eles são bastante complexos, frutados e frescos. Os de regiões mais quentes (como Auckland e Northland) tendem a ser mais encorpados, maduros e com grande amplitude de aromas, enquanto os da área de Marlborough são mais ácidos e refrescantes, com marcado aroma de pêssegos e frutas cítricas. Barricas de carvalho francês e americano são utilizadas em seu afinamento. Esta é a principal uva utilizada na produção dos sparkling wines.

PINOT NOIR - Esta aristocrática uva borgonhesa, que ama as baixas temperaturas e o clima seco, e que dificilmente se adapta a outras regiões, encontrou, na Nova Zelândia, um terroir ideal. Seus vinhos surpreendem pela tipicidade e elegância. É muito utilizada também nos espumantes com segunda fermentação na garrafa.

CABERNET SAUVIGNON - Produz seus melhores resultados nas regiões mais quentes e secas do norte. Vibrantes e elegantes, muitas vezes são cortados com a uva Merlot.

MERLOT - Outra uva de Bordeaux que aparece tanto vinificada isoladamente quanto cortada com sua "prima" Cabernet Sauvignon, e, como ela, prefere as regiões menos frias do norte.

SEMILLON, RIESLING, GEWÜRZTRAMINER e PINOT GRIS, três uvas aromáticas brancas de primeiro time, são também cultivadas com sucesso e ótimos resultados.


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