O vinho é Pop

O que leva celebridades das mais diversas áreas como música, cinema e esportes a criar seus próprios vinhos?

Alexandre Lalas em 18 de Fevereiro de 2013 às 12:31

Ao contrário de outras celebridades que muitas vezes apenas emprestam o nome ao vinho ou, no máximo, dão um palpite aqui e outro ali na hora de definir o corte, Sam Neill trabalha com afinco em todas as etapas da produção, inclusive na colheita. "Ele não tem nenhum problema em ficar com as mãos sujas", elogia Alastair Maling, porta-voz do Pinot Noir NZ 2013. No discurso, o dublê de ator e produtor destilou bom humor. Com frases como "nós, neozelandeses, somos os bastardos da Pinot Noir", "um sujeito que decide plantar Pinot Noir deve, imediatamente, procurar ajuda médica" e "caso você resolva mesmo produzir vinho, irá precisar de um fígado revestido de titânio para aguentar o monte de jantares, degustações e apresentações incrivelmente chatas que será obrigado a frequentar, exatamente como essa", Neill arrebatou a plateia e terminou o discurso debaixo de uma chuva de aplausos.O ator Sam Neill foi a grande estrela da abertura da Pinot NZ 2013, feira trienal sobre a uva que acontece na Nova Zelândia, encerrada no dia 31 de janeiro. O neozelandês - estrela de filmes como "O Piano", "Caçada ao Outubro Vermelho" e "Parque dos Dinossauros" - é produtor de vinhos desde 1993, quando fundou a Two Paddocks, pequena vinícola em Central Otago, bem ao sul da Ilha Sul da Nova Zelândia.

Sam Neill

Sam Neil produz vinho desde 1993 na Nova Zelândia

Mas Sam Neill não é um caso isolado entre o mundo das celebridades e o do vinho. O casamento entre a bebida e a cultura pop anda mesmo a todo vapor. Essa relação entre famosos e o vinho, contudo, não é nova. Na verdade, ela sempre foi usada pelos produtores para atrair mercado para suas bebidas. Um caso clássico é o do Champagne. Logo cedo os fabricantes perceberam o valor "midiático" que era ter seus vinhos nas mesas de pessoas famosas e, nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, as principais celebridades eram os reis e rainhas. Naquela época e até pouco tempo atrás, esse tipo de celebridade não se envolvia diretamente no mundo do vinho, em sua fabricação, mas já dava seus pitacos. A criação da Champagne Cristal, por exemplo, foi supervisionada minuciosamente pelo Czar Alexandre II. Muitos anos mais tarde, a casa Pol Roger quis homenagear outro notório, Winston Churchill, escolhendo o nome dele para batizar seu principal vinho. 

Hoje, no entanto, a relação entre o vinho e os famosos é muito mais direta. Há os que montam a própria vinícola e, assim como o neozelandês, não se furtam a colocar a mão na massa, casos do ator Gerard Depardieu, do cineasta Francis Ford Coppola e do cantor Boz Scaggs, por exemplo. Há os que compram a terra, mas deixam a produção efetivamente dita nas mãos de terceiros, como o cantor Andrea Bocelli, o ator Antonio Banderas, a atriz Drew Barrymore e a cantora Fergie. Há ainda artistas que apenas emprestam o nome a uma empresa já estabelecida para a produção com uma marca própria, caso do músico Dave Stewart (ex-Eurythmics) e das bandas AC/DC, Kiss, Motörhead e Train. E mesmo atletas, como o craque espanhol Iniesta, o ex-tenista austríaco Thomas Muster e o chinês Yao Min, ex-jogador de basquete, lançaram vinhos recentemente. E a lista ainda pode aumentar caso sejam confirmadas as intenções da cantora Lady Gaga e do popstar Bono Vox. A primeira, fã declarada da bebida, estaria interessada em comprar alguma propriedade no Condado de Sonoma, na Califórnia, Estados Unidos, e teria até chegado a visitar alguns lugares. Já o irlandês, vocalista da banda U2, teria visitado algumas propriedades e conversado com corretores em Mendoza, quando esteve recentemente na Argentina, em turnê com o grupo. No Brasil, o locutor Galvão Bueno é o nome mais conhecido a lançar vinhos com o próprio sobrenome, em parceria com a Miolo (veja entrevista exclusiva com o narrador nesta edição).

Outro veterano na produção de vinhos é Francis Ford Coppola. Em 1975, com o dinheiro conseguido graças ao sucesso dos dois primeiros filmes da série "O Poderoso Chefão", o diretor comprou uma propriedade histórica no Vale do Napa, a Inglenook. E passou boa parte das últimas décadas lutando para devolver ao local os dias de glória que já viveu. Para tanto, não mediu esforços. Em 2011, abriu o cofre e contratou Philippe Bascaules, diretor de enologia do Château Margaux. No mesmo ano, conseguiu finalmente comprar os direitos sobre o nome Inglenook, que passou a batizar a propriedade, em substituição a Rubicon Estate, que Coppola usava desde que comprou o lugar. "Há uma tese que defende que o dono de uma vinícola faz parte do terroir. Este é o espírito que me levou a gastar boa parte do meu tempo no ano passado trabalhando pelo futuro da Inglenook, incluindo a contratação de Philippe Bascaules, a recuperação das vinhas e o planejamento da nova adega", declarou Coppola na ocasião.

Coppola

Cinema

Assim como Sam Neill, Depardieu é um veterano na produção de vinhos. Em 1989, comprou o Château de Tigné, uma propriedade de 100 hectares no coração de Anjou. Lá, Depardieu manda. Valoriza a terra, buscando o mínimo possível de intervenção e evitando, o quanto consegue, o uso de tratamentos químicos. Mesmo assim, não pensa em surfar na onda biodinâmica. "Temos que parar com isso. É uma seita", desdenhou em entrevista concedida à revista Decanter. Na mesma matéria, o francês deu uma pista sobre o estilo dos vinhos que produz. "Gosto de vinhos nervosos, desde que não sejam agressivos. Agrada-me a acidez, a até um pouco de volatilidade. Não sou, definitivamente, fã de vinhos com muita extração ou supermaduros". Mas a experiência de Depardieu com vinhos não se limita ao Château de Tigné. Desde 2001, o ator já colocou o nome em 13 vinhos em parceria com o megaprodutor Bernard Magrez, em projetos na Itália, Argentina, Argélia e Marrocos. Muitas dessas bebidas foram feitas sob supervisão do incansável Michel Rolland e resultaram em vinhos sobremaduros e com baixa acidez - exatamente o oposto do que Depardieu diz gostar.

 

Música Nomes de peso

O cantor e guitarrista norte-americano de música country Boz Scaggs pode até andar meio desaparecido da mídia, pelo menos fora das fronteiras do gênero musical nos Estados Unidos. No entanto, o autor de hits setentistas como "We're all alone", embora não pense ainda em pendurar o microfone, cada vez mais tem se dedicado a outra atividade: a de produtor de vinhos. Dono de uma propriedade de 2,5 hectares ao longo de Mayacamas Ridge, ao norte do Monte Veeder, comprada em 1996, Scaggs e a esposa pensaram em plantar árvores frutíferas. Mas aí um amigo ligado ao vinho foi visitar o casal e sugeriu que eles plantassem umas mudas de Syrah, sobras de outro vinhedo, que carregava atrás da caminhonete. Na primavera seguinte, quando as mudas floresceram, criaram raízes profundas também no casal. E, fãs dos vinhos do sul do Rhône, compraram mudas de outras duas uvas da região: Mourvèdre e Grenache, cujos clones vinham do renomado Château de Beaucastel, em Châteauneuf-du-Pape. Era o nascimento da Scaggs Vineyard, cujo primeiro vinho foi lançado no ano 2000. Desde 2005, os vinhedos, os pomares e as oliveiras do cantor receberam o certificado de orgânico. No início, o casal nem pensava em comercializar os vinhos. Toda a produção era compartilhada com amigos. Mas os elogios de quem provava a bebida e a certeza de estarem fazendo vinhos de qualidade incentivou o casal a lançar os rótulos da Scaggs no mercado.

Embora de relações menos intensas, muitos outros nomes do show business mundial mantém os respectivos nomes ligados, de uma forma ou outra, ao vinho. Em 2009, o ator espanhol Antonio Banderas comprou 50% da vinícola Anta Bodegas, de Ribera del Duero. A partir daí, trocou o nome do vinho (para Anta Banderas). O projeto é dirigido pelos irmãos Federico e Teodoro Ortega, e consiste em 235 hectares de vinhas em Villalba Duero e Nava de Roa. Quando perguntado sobre a razão de fazer vinhos em Ribera del Duero, o espanhol não titubeou: "É uma região de grandes enólogos. Lá eles têm uma ideia bem romântica sobre a produção de vinhos. E essa paixão é muito importante para mim", garantiu.

Na Itália, o cantor Andrea Bocelli - o artista que mais discos de música clássica vendeu no mundo - mantém uma vinícola própria. Baseada em Lajatico, na Toscana, a Bocelli Family Wines é uma empresa familiar cujos donos atuais são os irmãos Andrea e Alberto Bocelli. O enólogo da casa é o renomado Paolo Caciorgna. Recentemente, o cantor lançou dois vinhos, um Sangiovese in purezza, feito com uvas colhidas à mão em Morellino di Scansano, e um Prosecco Extra Dry feito em conjunto com o produtor Trevisiol. A casa já produzia um Cabernet Sauvignon chamado In Canto, um corte de Sangiovese e Cabernet batizado de Alcide e um vinho feito com vinhas velhas de Sangiovese cujo nome é Terre di Sandro. Na mesma propriedade, a família Bocelli produz vinhos há 130 anos.

Bocelli

Quando não se tornam produtores, celebridades emprestam seus nomes para os rótulos

No ano passado, duas loiras platinadas decidiram invadir o mundo vinícola. A atriz Drew Barrymore, famosa pelo personagem que interpretou em "ET - o extraterrestre" e "As Panteras", juntou-se ao produtor Wilson Daniels e foi até o norte da Itália para encontrar um vinho "vivo, seco e frutado", feito com a uva Pinot Grigio. "O vinho é como uma jornada, onde o que vale é o caminho e a chance de descobrirmos novos lugares, pessoas e variedades de uva", filosofou a atriz, que revelou estar ansiosa para repartir a bebida com os amigos, a família, os fãs e os amantes de vinho de um modo geral.

Drew Barrymore

Já a popstar Fergie, vocalista do grupo Black Eyed Peas, não precisou ir tão longe para produzir vinhos. Também em 2012, a musa comprou uma vinícola em Santa Ynez Valley, em Santa Barbara, na Califórnia, batizada de Ferguson Crest em homenagem ao pai - que irá morar na propriedade além de cuidar das vinhas.

Apreciadores contumazes de vinho, os músicos da banda Train mantêm até um clube sobre a bebida no site oficial do grupo, com direito a rótulo do mês e outras bossas. Tamanha devoção motivou o lançamento de um vinho feito em parceria com a Concannon Vineyards, de Livermore, na Califórnia, e batizado de "Drops of Jupiter", nome de uma das canções de maior sucesso da banda.

 

Emprestando o prestígio

A forma mais comum de relacionamento, entretanto, entre artista e o vinho é a parceria. David Stewart, o lado masculino do Eurythmics, resolveu comemorar o lançamento do último disco que gravou fazendo um vinho em parceria com os enólogos australianos Sarah e Sparky Marquis. Batizado de "The Ringmaster General" (nome do álbum do músico), a bebida é um Shiraz do McLaren Valley, safra 2010.

Já a banda de rock norte-americana Goo Goo Dolls decidiu inovar. Não vai apenas lançar um vinho, como também pediu aos fãs que desenhem o rótulo da bebida, que será feita em parceria com a Noni Bacca Winery, vinícola butique de Wilmington, na Carolina do Norte, Estados Unidos. Será uma edição limitada e que não será vendida comercialmente. Algumas garrafas serão leiloadas para ajudar projetos de caridade. O resto fará parte da coleção privada da banda formada em 1986, cujo grande sucesso, a canção Iris, foi escrita para a trilha sonora do filme "Cidade dos Anjos", estrelado por Nicholas Cage e Meg Ryan, de 1998.

Iniesta

Após ter se aposentado, no começo de 2012, o chinês Yao Ming - que com 2,29 de altura era o mais alto atleta da liga de basquete profissional norte-americana (NBA) - montou uma vinícola no Napa Valley: a Yao Family Wines. E o primeiro rótulo da vinícola, o Yao Ming Napa Valley Cabernet Sauvignon 2009 foi lançado na China ainda ano passado, antes mesmo de chegar ao mercado norte-americano. A vinícola diz que as uvas para a produção desse vinho inaugural foram compradas de "prestigiados produtores da região, cuja reputação é de entregarem uma excelente fruta". O corte final foi feito após uma seleção nas barricas e o estágio foi de 18 meses em carvalho francês. "O basquete me deu a oportunidade de viver nos Estados Unidos e descobrir coisas maravilhosas naquele país. Agora, fico feliz de poder levar aos chineses um pouco dessas coisas, representadas em um vinho californiano", disse Ming na ocasião.Entre os atletas - em atividade ou aposentados - a vontade de ligar o nome à bebida também anda latente. Autor do gol que deu o título da última Copa do Mundo à seleção espanhola, Andrés Iniesta, craque do Barcelona, escolheu Fuentealbilla, na província de Albacete, cidade-natal do jogador, para produzir vinhos. Gastou cerca de 9 milhões de euros para lançar em 2010 os primeiros rótulos da Bodegas Iniesta.

O austríaco Thomas Muster, tenista aposentado e ganhador do torneio de Roland Garros em 1995, escolheu o país onde nasceu para fazer seus vinhos. O ex-atleta, que tem como parceiro o enólogo Manfred Tement, comprou, em 2004, um terreno perto de onde fora criado, o Hochkittenberg Estate, que pertencia a uma igreja local. "Quanto eu voltei para a Áustria estava procurando por um terreno. Cresci nessa área e sabia desses vinhedos e propriedades por aqui", atestou.

Para alguns, o vinho é apenas mais uma forma de marketing, para outros, no entanto, é uma verdadeira paixão

No ano passado, foi a vez do Kiss, banda famosa tanto pelo visual extravagante quanto por hits como "Shout It Out Loud", "Rock And Roll All Night" e "Beth", apostar em um vinho para chamar de seu. Em parceria com a distribuidora Rewine, lançou um tinto, da safra 2010, feito com a uva Zinfandel batizado de Kiss Zin Fire.

 

 

ACDC

Vinho do AC/DC

Rock and Roll
E mesmo entre os metaleiros, o vinho parece estar em alta. A banda Motörhead foi a precursora e já está na segunda versão de um Syrah com o nome do grupo, produzido na Suécia. A moda pegou e nos dois últimos anos outras duas bandas de rock pesado lançaram vinhos. Em 2011, o AC/DC, que já vendeu mais de 200 milhões de discos, fez um acordo com a Warburn Estate, vinícola australiana, e lançou uma linha com nomes de sucessos da carreira da banda. Entre os rótulos, Back in Black Shiraz, Highway to Hell Cabernet Sauvignon e You Shook Me All Night Long Moscato.

 

Além do vinho, a Rewine lançou uma cerveja do Kiss. "Não queríamos apenas colocar o nosso nome no rótulo. Nossa vontade é que tanto o vinho quanto a cerveja sejam únicos, e acho que conseguimos isso", disse, sem nenhuma modéstia, o guitarrista da banda, Paul Stanley. Outra banda, a Slayer, um dos monstros do thrash metal, também aproveitou o momento e lançou o Reign In Blood, em homenagem ao seu álbum mais famoso.Shiraz do grupo Motorhead

Mas, ao contrário do apreço autêntico que muitos dos produtores celebridades têm pelos vinhos que fazem, a bebida aqui é mera maquiagem, apenas um projeto de marketing, um produto para os fãs. Conclusão atestada pelas declarações de Lemmy Kilimister, vocalista e líder da banda Motörhead, quando a banda ainda discutia como seria a segunda versão do vinho do grupo: "Não importa a origem, a uva e nem mesmo o vinho, desde que seja um autêntico Motörhead". Pano rápido.

 


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