“O vinho me disse o que ele é”

As impressões e lições da primeira degustação para deficientes visuais do Brasil

Por Christian Burgos em 7 de Setembro de 2013 às 00:00

O grupo de enófilos se perdeu a caminho da vinícola Pericó. Lá esperando ficaram Wandér Weege e a esposa de seu enólogo, Sandra Trucolo. Ela estava chateada. A escola para deficientes visuais de Bento Gonçalves seria fechada por problemas financeiros. Eram contas atrasadas de luz, água e outras despesas. Como ela sabia? Seu irmão, Rogério Trucolo é deficiente visual.

Wandér, conhecido pela filantropia, foi direto ao assunto: “De quanto precisam?” Ao saber que a dívida era de cerca de R$ 16 mil, sacou um talão e fez um cheque de 33 mil, “a idade de Cristo”, como ele conta. Outras maravilhas se seguiram. Naquele mesmo dia, um amigo de ambos, o italiano Roberto Rabachino ofereceu a Rogério uma bolsa para o curso de sommelier ministrado pela Federazione Italiana Sommelier Albergatori Ristoratori (FISAR).

No embalo, Wandér decidiu ligar para os amigos em ADEGA para nos perguntar o que pensávamos de uma degustação especial com deficientes visuais. Ali nascia algo muito especial e garantimos nosso total apoio à iniciativa. Surgiu assim, do atraso de turistas, a ideia da realização dessa inédita e singular degustação.

O poder da iniciativa entusiasmou nomes de peso como o presidente da Cooperativa Vinícola Aurora, Alem Guerra, que ofereceu a bela sala de provas da vinícola para o evento, bem como sua equipe para o impecável serviço do vinho, e em cuja cave aconteceu a cerimônia de entrega dos certificados de participação e o coquetel com as delícias preparadas pelos chefs da prestigiada Escola de Gastronomia UCS-ICIF de Flores da Cunha. A esses apoiadores uniram-se jornais, revistas e redes de televisão do Rio Grande do Sul e Santa Catarina que lotariam a sala de degustação.

Assim, a data da degustação e os vinhos a serem servidos começaram a ser definidos. Tudo organizado com esmero por Sandra. Nesse meio tempo, mais uma certeza de que estávamos na direção correta. Rogério Truculo foi o melhor aluno de sua turma no curso de sommelier da FISAR. E com a frase “o vinho me disse o que ele é”, tentou explicar sua habilidade.

Finalmente, no último sábado de julho, aconteceu a primeira degustação de vinhos para deficientes visuais do Brasil, com a participação da Associação dos Deficientes Visuais de Bento Gonçalves (ADVBG) e também da União Latino-americana de Cegos (ULAC).

Eram 20 degustadores, deficientes visuais de todo o Brasil e que exercem diversas atividades profissionais, indo dos escritórios às artes. Também eram diversos os graus de conhecimento sobre degustação de vinhos, contemplando sommeliers formados, pessoas que degustaram em visitas a vinícolas e indivíduos que já tomaram vinho, mas nunca participaram de uma prova técnica. “Foi um ótimo começo... Pelo menos não sou mais um ‘zero à esquerda’ e já poderia fazer algumas considerações e apreciar melhor um bom vinho”, contou Bernard Condorcet, um dos participantes.


“No ato de degustar, fiquei admirada em perceber que, com um pouco de disciplina e conhecimento, quantas informações podemos extrair ao ‘aspirar’, ‘tocar’, ‘ouvir’, ‘levar à boca’ o vinho com intencionalidade”, revelou Vera Lúcia Carneiro Fucks

O vinho, produto da natureza com indubitável papel na história da civilização, exercia também o papel de inclusão. O jornalista Irineu Guarnier Filho iniciou recitando o belo “Soneto do Vinho” do escritor argentino Jorge Luis Borges que, como os degustadores, perdeu a visão, mas nunca a energia para viver. “Esta experiência ficará gravada em minha memória e em meu coração”, afirmou Volmir Raimondi, presidente da ABDVBG e da ULAC.

Macetes para a degustação

Roberto Rabachino, presidente da FISAR e da IWTO (Organização Internacional de Degustadores de Vinho), veio da Itália especialmente para conduzir a degustação e, à medida que degustávamos, foi explicando técnicas específicas para os degustadores com deficiência visual, mas que são extremamente úteis para quem enxerga. “Nunca me senti tão bem num curso. Aprendi muito e percebi o quanto tenho que aprender ainda”, disse Bruno Begotto, participante da prova.

Com sua grande habilidade de comunicação, Rabachino contagiava os presentes, rompia a barreira idiomática e começou salientado aos degustadores que “normalmente nas aulas e degustações, o protagonista é o vinho, mas hoje os protagonistas são vocês” – a quem classificou não como deficientes, mas como “diversamente hábeis”. Ele disse que, numa degustação de vinhos tranquilos, a avaliação visual corresponde apenas a 15% e o aroma e sabor a 85% e isso beneficia aqueles com capacidades superiores no olfato e paladar.

A sensibilidade mais apurada do olfato aconselha menos tempo de taça ao nariz para evitar a fadiga olfativa. Para separar os brancos dos tintos pelo aroma, basta saber que, em 90% dos casos, aromas de flores, frutas amarelas ou brancas são de vinhos brancos. Em complemento, os que apresentam especiarias, tabaco, pimenta, fruta vermelha bem madura e chocolate são certamente vinhos tintos.


Roberto Rabachino e Rogério Trucolo, o melhor aluno de sua turma no curso de sommelier

“SONETO DO VINHO”
Jorge Luis Borges

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular ideia de inventar a alegria?
Com outonos de ouro a inventaram.
O vinho flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões.
Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto
Outrora a cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história
Como se esta já fora cinza na memória.

A passagem em barrica pode mascarar um pouco os aromas, mas um branco com madeira ressaltará o aroma de baunilha, ao passo que o tinto trará aromas de tostado e especiarias, normalmente com uma ponta amendoada.

Uma dica “marota” está relacionada à temperatura, se a taça estiver fria é normalmente um vinho branco; caso contrário, é tinto. Para o caso dos espumantes, o segredo é o gás carbônico que “pinica” o nariz, dos quais, pela probabilidade matemática, 93% são brancos, 5,5% são rosados e pouquíssimos são tintos.

Uma das participantes mais entusiasmadas com a prova era Vera Lúcia Carneiro Fucks. “Participar de uma degustação de vinhos era um desejo meu e de meu marido já há algum tempo. Gostamos de tomar vinho, é algo que fazemos em casa pelo menos uma vez na semana. Além de comprar o vinho de toda a semana “que cabe no bolso”, temos o costume de comprar vinhos para conhecer. E pelo fato de gostar de beber, temos esse desejo de conhecer mais sobre esse alimento. No ato de degustar, fiquei admirada em perceber que, com um pouco de disciplina e conhecimento, quantas informações podemos extrair ao ‘aspirar’, ‘tocar’, ‘ouvir’, ‘levar à boca’ o vinho com intencionalidade”, revelou.

Voltando às dicas de degustação, saindo do olfato e seguindo para o paladar, o primeiro revelador é a acidez, facilmente detectável, pois a boca reage ao “perigo” da acidez produzindo saliva, que é alcalina. Se colocamos um produto ácido na boca, o organismo reage salivando, e quanto mais acidez, mais saliva. E a acidez brilha nos brancos mais do que nos rosados e nos tintos. Além disso, a boca se sente “limpa” pelo efeito da acidez/salivação. Nesse ponto, soma-se à acidez o segundo revelador, os taninos, que secam a boca e são a assinatura dos vinhos tintos. Assim como os sabores de frutas vermelhas e negras.

Além de comprovar a sensibilidade dos deficientes visuais para a degustação de vinhos, comprovamos mais uma vez que vinho bom não precisa de um expert para ser identificado.

“Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Sempre tomei vinho, mas agora vou tomar de forma diferente”, afirmou Egídio Bez, outro participante. No decorrer da palestra e da degustação, podíamos perceber na face dos degustadores um ar de revelação e imersão em um novo mundo. Um mundo cuja magia nos encanta diariamente, e cujo espetáculo queremos ver sempre, e mais.


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Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 95 · Setembro/2013 · Espanha de A a Z

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