Parece business na Califórnia, mas é negócio no Brasil

A repercussão e as consequências da aquisição da Almadén pela Miolo Wine Group, o grande negócio do vinho no Brasil

Christian Burgos em 5 de Novembro de 2009 às 13:34

Quando a edição 48 de ADEGA estava prestes a entrar em máquina confirmamos a compra da Almadén da Pernod Ricard pela Miolo. Tivemos tempo apenas de dar a notícia, mesmo sem muitas informações em mãos. O tema, entretanto, se revelou tão importante e com tamanho impacto potencial em nosso mercado, que voltamos ao assunto, agora após apurarmos exaustivamente os bastidores deste que é o negócio do ano no Brasil. Guardadas as proporções é o equivalente à fusão Itaú-Unibanco no mercado do vinho.
Por quê? Porque com este movimento a Miolo Wine Group se torna o maior conglomerado nacional de vinhos finos. Porque inaugura a entrada da Miolo no seleto time que junto à Aurora e Salton, estão disputando palmo a palmo com os vinhos argentinos a atenção de uma das faixas de consumo mais ativas e promissoras do mercado brasileiro, a de vinhos finos por volta dos R$ 10. Porque significa a compra e reconstrução da Almadén, que até dois anos atrás liderava a categoria, e goza ainda de grande reconhecimento de marca junto ao consumidor.

Fabiano Mazzotti
Os empresários João Benedetti, Darcy Miolo, Raul Anselmo Randon e Bryan Fry celebram contrato

Os players
Uma negociação deste tamanho não acontece da noite para o dia. O processo iniciado em 2008, envolveu ao menos um outro grupo nacional (a Salton) e um internacional.
A própria Casa Valduga, outra empresa em forte expansão, revelou que não fosse a compra da infra-estrutura que veio dar origem à Domno, realizada no ano passado, também teria interesse na aquisição.
Para fazer frente ao negócio uniram-se alguns dos sócios da Miolo Wine Group, as vinícolas Miolo e Lovara, e o grupo Randon (que em parceria com a Miolo produz a linha RAR). Aliás, Raul Randon foi um dos grandes entusiastas do negócio. Com seu espírito empreendedor, Raul Randon dizia que era um negócio do tamanho que valia a pena participar, e comparava o momento atual do vinho ao de sua incursão na produção de maçã, onde de uma participação de 5% seu grupo se tornou modelo e maior player do mercado, além de exportador. Quando começou, diz ele, só se via no mercado maçãs importadas sobretudo da Argentina, mas com um trabalho sério o produto nacional conquistou o consumidor.

O que foi comprado
No princípio, especulava-se que a negociação ideal envolveria apenas a marca Almadén, a exemplo do que já acontecera com a venda da marca Forrestier. Entretanto, depois de muitas visitas à fazenda e profunda análise, os vinhedos se tornaram um importante e positivo fator na aquisição. É interessante lembrar que entre os 575 hectares de vinhedos da Almadén estão algumas das plantas mais antigas do Brasil, em espaldeira e com plantas certificadas - trazidas da Califórnia - com idades entre 25 e 33 anos. Existem obviamente vinhedos mais antigos, sobretudo de americanas, híbridas e algum Cabernet Franc na Serra Gaúcha, mas é importante lembrar que tais vinhedos estão plantados em latada e não foram plantados com plantas certificadas. As dúvidas sobre a qualidade dos vinhedos caíram quando o agrônomo chefe da Miolo, Ciro Pavan, ficou entusiasmado com a sanidade e instalação das vinhas - dos quais 250 hectares foram renovados recentemente. A equipe de ADEGA esteve no local, e verificou que os vinhedos têm melhorias a serem feitas, assim como a vinícola.

#Q#

Adriano Miolo ressalta que o potencial total dos vinhedos antigos não será alcançado de uma hora para outra, mas ações como poda verde e desbrote são melhorias que serão implementadas desde já, e devem trazer ganho de qualidade para os vinhos. O fato de trabalhar com vinhedos em espaldeira trará o grande diferencial de qualidade em relação aos seus concorrentes diretos.

A vinícola
As maiores mudanças e melhorias a serem feitas devem ocorrer na estrutura física da vinícola, em que os pontos positivos são a grande capacidade instalada de tanques em inox, alta potencialidade do sistema de refrigeração, a localização da vinícola dentro do vinhedo e três certificações ISO (9000, 18.000 e 15.000). O que será prioritariamente melhorado é o sistema de recepção de uvas por gravidade, o de engarrafamento e rotulagem e a prensagem pneumática - que segundo Adriano está sendo negociada imediatamente com fornecedores na França e Itália, já com vistas a garantir um diferencial de qualidade na próxima safra.

divulgação
Vinhedos da Almadén

O posicionamento
Perguntamos a Adriano se, com todas essas mudanças, o preço dos vinhos Almadén (na faixa dos R$ 10) será alterado. Segundo ele, o posicionamento de Almadén é ideal para o portifólio da Miolo, visto que entra numa faixa de preços onde não atuam, e não concorre diretamente nem com o projeto Terra Nova (no Vale do São Francisco) e muito menos com o Miolo Seleção, que completou 15 anos em 2009. As mudanças serão no sentido de atualizar o estilo do vinho. Segundo Adriano, pesquisas revelam que o consumidor se identifica com a marca Almadén e está pronto para um novo Almadén: "O consumidor não quer açúcar, quer um vinho agradável de tomar. Muitas vezes isto é confundido com gosto por açúcar, mas em verdade o que se busca é um vinho equilibrado, sem acidez em demasia ou taninos verdes. O pulo do gato é melhorar indiscutivelmente a qualidade do vinho sem que ele venha a custar mais". Para conseguir isto a atenção com o ponto de colheita será redobrada e o sistema de vinificação utilizará sistemas de maceração mais suaves e controle de temperatura de fermentação, para obter brancos bastante frutados e aromáticos e tintos frutados e leves. A Miolo deve manter os produtos do portifólio, que pode ser ampliado em sua linha standard com a introdução, entre outros, de um varietal Tannat.

Reprojetando o futuro
Muito embora a transferência completa de propriedade se dê apenas em 30 de novembro, as equipes da Miolo e Almadén já estão trabalhando juntas com o objetivo de implementar melhorias já para a safra 2010. A equipe da Almadém permanecerá na empresa, contando com o apoio de Ciro Pavan na agronomia e do enólogo Manuel Almeida - que hoje conduz a enologia no projeto Seival - na Campanha Gaúcha.
A Miolo é famosa no meio por seus planos quinquanuais e com a nova aquisição ultrapassa um de seus grandes objetivos, que era o de ter 1.000 hectares produtivos em 2012. "Com a incorporação devemos aumentar de 20 milhões para 25 milhões de litros, nosso objetivo de produção de vinho fino em 2018", explicou Adriano. Nada mal para um ano que ficará marcado como o da grande crise mundial na cabeça de alguns, mas das grandes oportunidades para outros.


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista

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