Paz na guerra dos mundos

O resultado da guerra entre 'Novo Mundo' e 'Velho Mundo' dos vinhos parece ser dos melhores: enquanto vinhos modernos abaixam empolgação e se rendem algumas tradições, clássicos aderem novas tecnologias e paladares. O consumidor ganha dos dois lados....

Marcelo Copello em 16 de Março de 2006 às 14:00

Os marcianos invadem a terra. O fim parece inevitável. A raça humana e seus milênios de história e civilização estão na iminência do fim. Nada parece deter o avanço das forças alienígenas, até que... O enredo de 'A Guerra dos Mundos' (The War of the Worlds), clássico de H.G Wells, escrito em 1898, parece se encaixar como uma luva quando pensamos na transformação que o mercado do vinho viveu nas últimas décadas. A virtual guerra entre o emergente 'Novo Mundo' e o establishment do 'Velho Mundo'.

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O livro (que virou programa de rádio com Orson Welles em 1938 e filme duas vezes - em 1953 e 2005) combina sátira política e crítica ao colonialismo, com advertência aos perigos do progresso científico. Numa analogia, é fácil imaginarmos aquele pequeno produtor europeu, que fazia vinho como seu tataravô, sendo exterminado pelas grandes corporações 'marcianas' do Novo Mundo. Ou ainda, em uma degustação às cegas, aquele delicioso Bourgogne sendo desintegrado por canhões australianos super-concentrados e blindados com carvalho. Para quem não entendeu a comparação explico:

Histórico
Nas últimas décadas o mundo viu uma verdadeira revolução em sua indústria. Até os anos 70, os vinhos de qualidade eram apenas os famosos e caros (quase todos franceses), só para os ricos. Os demais produtos eram inferiores e cumpriam a função de bebida nutritiva, principalmente para os camponeses e classes trabalhadoras. Desde então, a produção, a qualidade e o consumo do vinho se espalharam por todos os continentes e todas as classes. O comércio mundial da bebida teve um enorme crescimento, com uma peculiaridade - o eixo de produção e consumo lentamente se moveu para fora da Europa. Enquanto o resto do mundo descobriu o vinho, países tradicionais da Europa, como Itália e França, viram o consumo interno cair de mais 100 litros por pessoa ao ano, nos anos 60, para quase a metade desse volume hoje. Nos últimos 25 anos, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile e Argentina aumentaram juntos sua participação no mercado em cerca de 15 vezes (1.500%).


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fotos: Christian Burgos / Andre Lubbe/Stock.XchngConceito
Antes de continuar, é bom lembrar que a cultura do vinho é vasta, complexa e traz um grande número de exceções a qualquer generalização que se queira fazer. Assim, quando nos referimos a um vinho 'moderno', falamos de bebidas que, em primeiro lugar, agregaram em sua produção modernas técnicas de elaboração, como fermentação a frio, poda verde, redução de rendimentos, aumento de densidade de plantio, movimentação do mosto por gravidade, bombas peristálticas, criomaceração, pesquisa de novos clones de uvas, estudo do terreno e clima, tecnologia de ponta, amadurecimento em madeira nova etc. Mas, acima de tudo, o termo 'vinho moderno' sugere líquidos que seguem um padrão de gosto: mais frutados, concentrados, alcoólicos, macios, madeirados, com menor acidez, mais prontos para beber (sem necessidade de envelhecimento), tintos com cor muito escura. Esses são ótimos para serem consumidos puros, em degustações ou happy hours, mas, em refeições podem ser pesados e enjoativos. A maioria dos vinhos produzidos no Novo Mundo nas últimas duas décadas se enquadra, mais ou menos, nesse padrão.

O oposto seria o 'vinho clássico', com elaboração e gosto à moda antiga. Numa simplificação podemos dividir esses em 'jovens' e 'de guarda'. Os primeiros seriam leves ou com médio corpo, pouco concentrados, com boa acidez, pouca ou nenhuma madeira (geralmente barris usados), de teor alcoólico baixo; não envelhecem bem e estão prontos para beber. Esses são ótimos para acompanhar as refeições no dia-a-dia. Os vinhos tradicionais de guarda seriam concentrados, com teor alcoólico médio ou bom, com boa acidez, passagem prolongada por barris de carvalho, porém precisando de envelhecimento em garrafa pois são ásperos quando jovens. A maioria dos vinhos europeus produzidos até os anos 1980 se encaixa em uma dessas duas categorias.


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Hoje - a 'convergência'
Essas duas grandes escolas travaram uma verdadeira guerra que parece estar chegando ao fim, pois cada vez mais há uma convergência de gostos e estilos. Os produtores do Novo Mundo perceberam que o consumidor começa a cansar das bombas alcoólicas madeiradas e procuram agregar um pouco mais de equilíbrio e elegância em seus vinhos. Enquanto isso, as vinícolas do Velho Mundo perceberam que é preciso descomplicar seus produtos para atrair o novo consumidor, seja na simplificação de rótulos e leis, seja em seu paladar, fazendo vinhos mais fáceis de beber, sem perder o sotaque europeu.

Não por acaso, os vinhos mais interessantes surgidos no mercado nos últimos anos são justamente os vinhos frutos da convergência e equilíbrio de estilos. Os vinhos do Novo Mundo que trazem uma maior preocupação com equilíbrio, com menos álcool, menos madeira e maior acidez. E os vinhos europeus que agregaram toda a tecnologia a seu inigualável terroir para produzir vinhos imbatíveis.

Bordeaux Oxygene

A já discutida convergência finalmente chegou a um dos últimos redutos do enoclassicismo europeu: Bordeaux. Enquanto uma legião de consumidores formou seus paladares das últimas décadas com vinhos do Novo Mundo, uma nova geração de produtores bordaleses fazia seu dever de casa. Um grupo de 18 jovens, auto-denominados 'Bordeaux Oxygene', promete sacudir as perucas setecentistas da tradicional enologia da região. Descrevendo-se como uma gangue de amigos, que em sua maioria estudaram juntos na universidade de enologia de Bordeaux (e depois estudaram ou trabalharam nos EUA), eles têm como palavras de ordem: qualidade, dinamismo, convívio, e liberdade. O grupo representa Châteaux bem conhecidos, como Château Angélus, Ch. Smith Haut Lafitte, Ch. Beauséjour Bécot, Girolate, Ch. Brown e Ch. Le Bon Pasteur. Eles acreditam em seu terroir, e que grandes vinhos nascem no vinhedo; são adeptos da agricultura orgânica, da biodinâmica, dos baixos rendimentos, falam em alguns tabus como irrigação, em mudar leis e em colocar nomes de uvas nos rótulos. "Não temos a pretensão de prover curas miraculosas às dores de Bordeaux, mas pretendemos reverter tendências", informa a carta manifesto do grupo, que acrescenta: "Acreditamos que todo vinho é uma história que precisa ser contada e compartilhada". Será o início de uma abordagem 'Novo Mundo' generalizada nos vinhos de Bordeaux?

Veja aqui a lista completa dos integrantes do Bordeaux Oxygene e seus vinhos


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Provar para comprovar
Hoje, em uma degustação às cegas, é difícil identificar qual vinho pertence a qual 'mundo' - o 'novo' ou o 'velho'. Percebese, sim, sua qualidade e seu estilo. Pode-se esbarrar com ótimos vinhos do Novo Mundo elaborados com alta tecnologia, mas com estilo elegante e equilibrado, como Caro e Cheval des Andes (Argentina), Santa Rita Casa Real e Altair (Chile), e muitos outros de diversas origens. Podemos também encontrar vinhos do Novo Mundo elaborados à moda antiga, de estilo clássico, como o Château Montchenot (Bodegas Lopes) ou os Weinert (ambos da Argentina), com longo estágio em grandes tonéis de madeira velha, apenas para citar exemplos mais próximos.

O melhor fruto dessa guerra, porém, talvez seja a reação européia. Em todos os países produtores do velho continente começam a surgir vinhos que aliam a tradição secular, terroir e tudo o que a tecnologia pode proporcionar. Assim, podemos classificar muitos vinhos, como quase todos do Priorato (Espanha), do Alentejo (Portugal), muitos do Laguedoc (França), os ditos 'supertoscanos', todos os elaborados por enólogos consultores como Michel Rolland e Riccardo Cotarella, alguns novos vinhos do Douro (como os da Quinta do Crasto ou o Chryseia), da Ribera Del Duero (Aalto PS), da Rioja (Bodegas Roda-Cirsion)... Enfim, para quem ficou com água na boca é bom saber que a cada dia surgem novidades, tornando a lista longa, sempre incompleta e instigando muitos sonhos...

Wine evolution

Para onde está evoluindo o mercado de vinhos? Esse foi o tema do Wine Evolution 2006 (www.winevolution.com), evento que reuniu produtores, distribuidores e profissionais do mundo do vinho de todo o mundo, nos dias 30 e 31 de janeiro, em Paris. Além de mostrar o panorama dos que serão os grandes consumidores do século XXI - China, Japão e Índia - o evento ainda ressaltou a gradual polarização do mercado entre os segmentos de forte concorrência de preço e o de alta qualidade, uma tendência mundial que já é realidade nos mercados mais competitivos da Europa.

Vinhos para o dia-a-dia, com preços cada vez mais competitivos, enquanto os de alta qualidade ficam cada vez mais concorridos. Esse foi o cenário apresentado no Wine Evolution 2006, evento que nos dias 30 e 31 de janeiro reuniu em Paris produtores, distribuidores e profissionais do mundo vinho de todo o mundo.

O evento mostrou que os grandes distribuidores estão mudando o foco dos concorridos mercados tradicionais para o Oriente, onde a onda de crescimento econômico estimula também o crescimento do mercado de vinhos. Só como referência, nas duas maiores estrelas desse novo cenário - China e Índia - o crescimento é de 30% ao ano e deve se manter até 2010. Alguns profissionais estimam um crescimento ainda maior.

Na mesma onda entra o Brasil, onde essa não é uma tendência, mas um movimento em curso. Aqui já é possível observar a conseqüência da popularização do vinho: o aumento também da cultura sobre o vinho. O consumo em restaurantes é cada vez maior, o vinho é freqüentemente assunto na mídia e a procura de cursos sobre o assunto é cada vez maior.

E onde há esse maior conhecimento, não só no Brasil, mas principalmente na Europa e nos Estados Unidos, observou-se uma polarização da oferta de vinhos entre o segmento de alta concorrência nos itens para consumo no dia-a-dia, e a categoria dos diferenciados, para ocasiões especiais ou para quem procura algo mais no vinho.

Essa gradual polarização acontece por dois motivos: por um lado a entrada do Novo Mundo oferecendo produtos de boa qualidade a preço reduzido e, por outro lado, há um número crescente de consumidores para uma oferta restrita de vinhos de alto prestígio, que faz com que o preço aumente.

Aqui essa mudança ainda está em curso. No Wine Evolution ficou claro que, embora vários países olhem com interesse para o Brasil, e que a variedade de vinhos do mundo todo disponíveis aqui seja imensa, o Brasil só é realmente foco para exportadores da Argentina, Chile, Portugal e Uruguai, até o momento. Resta esperar que, com a expansão do mercado consumidor brasileiro, atraia a atenção de outros importantes players, como a França ou Espanha, que pouco investem aqui.


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