Pelo ar

Em meio à principal estrada do vale de Colchagua, a Viña Estampa dá um toque de modernidade com sua bodega de aço, cimento e teto curvo

Arnaldo Grizzo em 13 de Outubro de 2009 às 08:21

Um milagre de uma "estampa" (conhecida no Brasil como santinho - aquele papelzinho com a imagem de um santo e uma oração no verso) voadora, fato ocorrido em Santiago do Chile no século XVIII, foi a razão do nome da Viña Estampa - localizada no km 45 da principal estrada do vale de Colchagua, a "Carretera del Vino" (Rodovia do vinho).

Reza a lenda que um caixeiro viajante estava oferecendo santinhos para os passantes na Plaza de Armas, na capital do país. De repente, ele percebeu que uma "estampa" com Nossa Senhora de Carmen estava voando milagrosamente sobre sua cabeça.

Depois de meia hora de vôo diante de uma grande multidão aturdida, a imagem foi de uma lado para o outro da praça, atravessando o rio Mapocho, até pousar aos pés de uma mulher que lecionava o catecismo a seus filhos. No local, foi erguida uma igreja chamada de "La Estampa Voladora de Nuestra Señora del Carmen" em homenagem ao milagre.

Pouco depois, Don Manuel González Dieguez, imigrante espanhol, comprou um moinho de trigo - para fabricar farinha - que ficava próximo à igreja, batizando- o de "Molino La Estampa". Assim começou a história da família González, hoje González-Ortiz, cuja experiência com os moinhos se transplantou para outras áreas de tecnologia de alimentos e alcançou o vinho mais recentemente.

Fotos: Divulgação

Modernidade

Assim, eles construíram a Viña Estampa, dita como sendo a primeira bodega dedicada à produção de vinhos de assemblagem no Chile.

O projeto vanguardista começou a ser feito em 1999, a pedido da família, que já possuía, desde 1995, as vinhas de 200 hectares na região.

Os González-Ortiz queriam criar uma imagem forte para a empresa, algo que ficasse marcado na mente das pessoas, que serviria também para ficar gravado no rótulo de seus vinhos.

Foi aí que os arquitetos Claudio Blanco e Lorena Andrade (marido e mulher, donos de um escritório de arquitetura) - que já haviam ajudado a desenvolver o projeto da belíssima bodega de Haras de Pirque (cujo edifício é em forma de ferradura, retratado na Enoarquitetura da edição 19 de ADEGA), no vale do Maipo - assumiram o desafio de criar algo moderno e funcional.

Para isso, eles tiveram que trabalhar junto com o enólogo, que os aconselhou sobre como tratar a parte tecnológica da vinificação. O resultado espetacular - com um desenho do teto ondulado e uma claridade sem igual - viu-se em 2001, quando a obra ficou pronta.

Os arquitetos, influenciados pelas novas tendências da "indústria" (ou seja, neste caso o processo de fabricação do vinho), queriam que tudo ficasse à mostra dos visitantes. Esta é a tendência atual em todos os lugares: mostrar, não esconder

#Q#

Parreira inspiradora

Com o intuito de desvendar os mistérios do vinho para os visitantes, a fachada é trabalhada com o conceito de cheio e vazio. Através de grades translúcidas de fibras de cimento, aparecem as cubas de aço inoxidável.

Para projetar o edifício, a inspiração dos arquitetos foi simples: a planta da parreira. Segundo eles, a videira leva a fruta (uva) para a parte superior, em busca do sol, e deixa a inferior livre. Por esse motivo, o teto fica suspenso sobre todo o processo de vinificação.

No entanto, esse fato não tem apenas uma finalidade arquitetônica estética, mas funcional, pois da fermentação se desprendem gases que podem ser tóxicos.

Além disso, os muros ficam afastados da parte coberta, o que não só alivia a sensação de volume - eliminando a imagem de ser apenas um galpão de produção de vinhos e ajudando a deixar livre a ventilação, já que o ar passa pelas grades de fibra de cimento.

Materiais

Em toda a estrutura se utilizou basicamente três materiais distintos. Nos pilares e no teto, usaram aço; depois, uma fibra de cimento que imita madera; e dois volumes de concreto nas extremidades. Num deles, na direção do poente, fica a administração e a recepção da bodega.

No outro, a produção e a cozinha. Eles se conectam por uma ponte, de onde se pode observar as cubas de aço (de 5 a 50 metros) - que acabam se integrando com o projeto arquitetônico, e estão dispostas linearmente

Curvas premiadas

O formato do teto tem duas razões de ser. A primeira é estética, obviamente. A segunda, para facilitar a ampliação da bodega - projeto que já está em curso. Na parte mais baixa do teto, há 8 metros de altura. A mais alta tem 11.

Assim, as novas partes da Viña Estampa serão contínuas, rumo ao norte, sem prejuízo à arquitetura ou à funcionalidade. A Estampa recebe visitantes, que podem fazer seu próprio assemblagem, aprendendo as técnicas, e mais do que isso, reconhecendo os vários tipos de uva, já que existe um jardim logo diante da fachada, onde estão plantadas diversas variedades que formam os tradicionais blends da bodega.

As formas vanguardistas do lugar, como era de se esperar, já lhe renderam diversos prêmios de arquitetura no Chile. E a beleza do vale de Colchagua certamente casa com o estilo futurista do prédio, que ainda costuma abrigar algumas exposições de arte.

Por fim, a iluminação noturna (que preenche seus espaços vazios atingindo todos os cantos) deixa a vinícola ainda mais interessante, realçando-a no meio da paisagem do vale, tornandoa, certamente, inesquecível aos olhos dos visitantes, como queriam os donos


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 48 · Outubro/2009 · Vinho, ontem e hoje

Como ele evoluiu até os dias de hoje


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