Revista Adega
O coquetel Pisco Sour popularizou o pisco ao redor do mundo, seja ele chileno ou peruano

O cenário é praticamente o de um faroeste americano da década de 1970: uma paisagem árida, batida pelo vento, não muito longe de algum vale verde. O local é cenário de disputa por um bem valioso entre dois grupos rivais, de ascendência comum. A briga é suja e prolongada, e como em quase todos os duelos, é quase impossível dizer quem tem mais razão. O objeto da disputa: petróleo, diamantes, terras? Nada disso. A discórdia se forma ao redor do Pisco, destilado de uvas típico da América do Sul e causador de uma celeuma centenária que rivaliza chilenos e peruanos.

Em um mundo com tão fácil acesso à informação (embora nem sempre de qualidade), ficamos acostumados a saber o que acontece nos confins da Terra com a mesma agilidade com que sabemos o resultado do jogo de nosso time. No entanto, pouca gente sabe que existe essa disputa entre Chile e Peru por conta de uma bebida. Ambos têm boas razões para se dizerem pais da criança, mas nesse caso o DNA da videira ainda não ajudou a resolver o enigma. As uvas, que chegaram ao restante da América Latina, com exceção do Brasil, pelas mãos dos espanhóis, estabeleceram-se nos dois países quase ao mesmo tempo e se transformaram na aguardente Pisco, muito consumida entre os rivais, além da Bolívia. A questão toma vulto ao lembrarmos que uma parte do que hoje é o Chile já foi território peruano na época em que a região era colônia da Espanha. Os países foram separados e a bebida ficou uma parte para cada lado. O Chile é um grande exportador – atividade na qual é mestre, embora tenha poucas (mas poderosas) destilarias de pisco. Já o Peru exporta pouco, mas tem centenas de pequenos produtores da bebida. Neste caso, vence o mercado: o Chile, com mais mercado e marketing, é reconhecido como berço da bebida.

Pro Chile/divulgação
Valle del Elquí

Luna GarciaO nome pisco tem mais de uma explicação. A versão mais aceita é que o nome deriva da palavra “pisku”, da língua quéchua (pré-hispânica), e significa pássaro. Desde 1936 existe, no norte do Chile, a cidade de Pisco Elquí, no Vale de Elquí, zona “pisquera” do país. Para complicar, também existe no Peru, desde o século XVII, um vale e um porto com o mesmo nome. Tudo isso além de uma tribo chamada Piskos, contemporânea dos Incas, que fazia ânforas de barro para transportar o antigo destilado. Também existem documentos dando conta de que, no começo do século XVII, os peruanos já faziam um destilado de uvas que viajava até a Espanha. Se essa informação for verdadeira, o Peru foi, provavelmente, o primeiro país latino-americano a fazer uma bebida destilada.

#Q#

Disputas à parte, o pisco é um produto que, nos dois países que o fabricam, segue regras rígidas de preparo. No Peru, a região costeira ao sul do país é a única que abriga as zonas produtoras da bebida. No Chile, a região do Norte Chico (acima da capital Santiago e abaixo da entrada do deserto do Atacama) é uma das maiores produtoras.

A base da bebida é o vinho das uvas Moscatel (o mais popular), Torrontel, Pedro Ximenez (a uva do Jerez espanhol) ou Quebranta (uva tinta típica do Peru). O vinho pode ser destilado sozinho ou em assemblage, com a adição da puríssima água dos Andes. Poucos piscos são envelhecidos em barricas, e quando isso acontece é por períodos curtos, dando uma ligeira coloração amarelo pálida à bebida. Diferentemente das tequilas mexicanas, as classificações dos piscos não seguem os padrões de envelhecimento ou de pureza. E até nisso Chile e Peru não concordam. Para os chilenos, os piscos são classificados de acordo com sua graduação alcoólica, variando do Tradicional (com mais ou menos 38% de álcool), Especial, Reservado e Gran Pisco, sendo este último o mais forte e puro deles. Já no Peru, a classificação é de acordo com as uvas. O Pisco Acholado é preparado com uma combinação de uvas diferentes, o Pisco Mosto Verde é aquele no qual as uvas não foram completamente fermentadas, o Pisco Aromático é o preparado com os vinhos de uvas como a Moscatel ou a Itália e o Pisco Puro é o mais tradicional no país, preparado com o vinho da uva Quebranta, uma variedade não aromática, mas de bastante corpo.

Para se beber o Pisco puro, talvez o pré-requisito seja ter nascido em algum dos países de colonização hispânica – ou talvez isso seja mero preconceito de bebedores de cachaça. A bebida, embora aromática quando feita com o vinho das uvas da família moscatel, é forte, seca e, não raro, apreciada na temperatura ambiente, em pequenos copos sem pé. Sua popularização ao redor do mundo deve-se a um coquetel muito tradicional, o Pisco Sour. A linha de coquetéis chamados sour tem como base o suco de limão e o açúcar, além de uma generosa quantidade de destilado. Para se diferenciar de nossa caipirinha, os sour não são mexidos, e sim batidos energicamente na coqueteleira. A receita que aparece aqui é uma das muitas que existem, com pequenas variações entre elas, principalmente na quantidade de açúcar. Disputas à parte, uma coisa os dois países têm em comum: o Pisco Sour é o coquetel mais servido no Chile e no Peru e é resistente à moda das outras bebidas. Uma trégua na rusga para um gole refrescante.

Pisco Sour

Ingredientes
• 3 doses de Pisco; l
• 1 dose de suco de limão; l
• 1/2 clara de ovo passada na peneira
• 2 colheres de chá de açúcar; l
• 4 pedras de gelo
• Algumas gotas de angostura (opcional).

Modo de Preparo
Na coqueteleira, coloque todos os ingredientes, menos a angostura, e misture com vigor por alguns segundos. Coe para uma taça flute (para espumante), ou sirva em um copo de uísque. Se for usar a angostura, pingue as gotas na taça já servida. Você pode deixar a clara de ovo de lado, uma vez que ela não interfere no sabor, mas a cremosidade de seu coquetel ficará comprometida.


Artigo publicado nesta revista

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