Templários alentejanos

Saiba o que faz e como é a cerimônia de entronização de uma das confrarias mais célebres e ativas de Portugal

Alexandre Lalas em 28 de Junho de 2011 às 12:07

fotos: divulgação

As confrarias nasceram na Idade Média, na Europa. Eram associações de leigos no catolicismo tradicional que se reuniam com o objetivo de cultuar um santo. Embora ainda exista uma penca de confrarias religiosas mundo afora, hoje o sentido é outro. Um conjunto de pessoas com os mesmos interesses define uma confraria. E tudo o quanto é atividade, tem uma. Há as de engenheiros, médicos, atores, jornalistas, chefs de cozinha, e por aí vai.

No caso do vinho, há inúmeras. São as confrarias báquicas. Vão desde aficionados por uma uva em especial até pequenos grupos de amigos cujo único objetivo é passarem agradáveis horas na companhia uns dos outros. Algumas transcendem o mero prazer de congregar e transformam-se em verdadeiras associações, quase oficiais, com regulamentos e regras de conduta e claros objetivos a atingir. A Confraria dos Enófilos do Alentejo é uma destas. Lá, o que era apenas um grupo de enófilos que se juntavam periodicamente para discutir assuntos ligados ao vinho e às vinhas, virou uma poderosa associação cultural cujo objetivo é divulgar e promover, mais dos que os vinhos, a região alentejana como um todo.

Confraria dos Enófilos do Alentejo nasceu em 29 de julho de 1991, apenas dois anos após a demarcação oficial da região enquanto produtora de vinho. No ano passado, a cerimônia de entronização ocorreu no museu de Évora, que fica ao lado do Templo de Diana (foto de abertura)

Nascida a 29 de julho de 1991, apenas dois anos depois da demarcação oficial da região enquanto produtora de vinho, a Confraria dos Enófilos do Alentejo é daquelas ativas até dizer chega. Além dos encontros comuns a outras associações do gênero, promove visitas a produtores, cursos, concursos, provas e discussões a respeito das questões vitivinícolas Confraria dos Enófilos do Alentejo nasceu em 29 de julho de 1991, apenas dois anos após a demarcação oficial da região enquanto produtora de vinho. No ano passado, a cerimônia de entronização ocorreu no museu de Évora, que fica ao lado do Templo de Diana (foto de abertura) da região. Tudo voltado para a valorização do vinho alentejano. Conta com cerca de 250 integrantes, muitos dos quais, brasileiros.

Entre os confrades, há - além dos produtores - jornalistas, políticos, médicos, economistas. Em comum a todos, o amor pelo Alentejo e o compromisso de ajudar na divulgação da região. A sede é em Évora, mas a importância do Brasil para os vinhos alentejanos é tão grande que há até uma delegação estabelecida por aqui.

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Divulgação

Cerimônia

Todos os anos, a confraria entroniza novos membros. Os nomes sugeridos pelos delegados são submetidos à avaliação e, quando aprovados, sai o convite. A cerimônia em si é rápida - mas carregada de simbolismo. Desde a roupa tradicional alentejana até o ritual para admissão do novo confrade, tudo é feito de modo a valorizar os costumes e a honrar a tradição regional.

No ano passado, a solenidade foi realizada no Museu de Évora, que fica ao lado do Templo de Diana. Ao todo, foram sete novos confrades, sendo três brasileiros. Antes mesmo da entronização dos novos integrantes da confraria, o clima já era de festa e congregação. Encontros, reencontros e até alguns desencontros. Tudo faz parte da festa. Antes de serem chamados ao palco, os futuros confrades experimentaram a nova roupa: capote, capa e chapéu. E uma turma de ativas senhorinhas, que pareciam estar ali antes mesmo de a confraria existir, explicava como tudo aconteceria, acalmando os entronizados mais ansiosos.

Com o passar dos anos, a Confraria se tornou uma poderosa associação para defender os interesses do vinho alentejano

Um a um, os novos membros eram então chamados ao pequeno palco montado na frente do salão. Enquanto percorriam o caminho até lá, o presidente da confraria lia um pequeno texto, com uma espécie de mini currículo da pessoa. Chegando ao palco, o novo confrade era vestido com a roupa previamente experimentada e recebia o taste-vin. Depois, quando todos os novos membros já se encontravam no palco, e devidamente trajados, faziam, em uníssono, um juramento defendendo o vinho alentejano. Para consagrar a promessa, bebiam um tinto da região, direto do taste-vin. Estavam, enfi m, entronizados os novos confrades.

Após a cerimônia, novos e antigos confrades, amigos e agregados se misturaram em um jantar alegre e informal (apesar de toda a pompa e circunstância) regado - claro - a vinho alentejano.

Para que se tenha uma ideia da importância dessa cerimônia, até o ministro da agricultura, desenvolvimento rural e pesca de Portugal, António Serrano, compareceu à entronização. E integrantes de outras diversas confrarias portuguesas, báquicas e gastronômicas, lá estavam, prestigiando a festa e dando boas vindas aos recém admitidos.

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Em Portugal, quase toda região vinícola tem uma confraria para chamar de sua. Dão, Douro, Bairrada, Vinho Verde, Algarve, e até a esquecida Carcavelos - apenas para citar algumas - promovem reuniões e atividades semelhantes. E com objetivos sempre comuns: defender, valorizar, divulgar e promover a região de origem. Em quase todas elas, a presença de brasileiros é lugar-comum. E com o crescimento da importância do Brasil para os vinhos portugueses, a tendência é que este número só faça aumentar nos próximos anos.

A EVOLUÇÃO DO ALENTEJO

Até outro dia, o vinho alentejano era conhecido por marcados aromas de fruta em compota, super extraídos, feitos com uvas muito maduras, carregados de madeira e relativamente pesados na boca. Não que este estilo de vinho não se faça mais por lá. Faz-se, e aos montes. Mas há algo de novo surgindo no Alentejo. E esta mudança é, certamente, para melhor.

É cada vez maior o número de produtores que usam a busca pela elegância e pelo frescor como norte. E se tem algo que não é fácil, é conseguir elegância e frescor em uma terra quente como o Alentejo. E na busca pela acidez perfeita, há de tudo. Como nem sempre a natureza ajuda, há quem corrija a acidez na adega mesmo, antes da fermentação. Há quem busque o equilíbrio colhendo parte das uvas mais cedo, mesmo sem a maturação completa - mas com maior acidez natural, e corte depois com uvas colhidas mais maduras - e com menos acidez. E praticamente todos têm usado a madeira com mais parcimônia. E no embalo dessas mudanças, até bons vinhos brancos - outrora raros no calor alentejano - podem ser encontrados com mais frequência. Entre estes produtores que buscam algo mais que sol e geleia, há desde jovens como Tiago Cabaço, Joaquim Arnaud e António Maçanita a nomes consagrados como Julio Bastos e Paulo Laureano. E mesmo um dos vinhos ícones do Alentejo, na última safra lançada, já mostra que também caminha para essa direção: basta comparar o Pêra-Manca 2007 com os seus antecessores para sentir a diferença. Aliás, uma bendita - e bem-vinda - diferença.


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