Uma questão de equilíbrio

Diante do preconceito crescente aos vinhos mais encorpados e, às vezes, com maior teor alcoólico, o inverno é uma boa oportunidade para romper essas barreiras

Por Eduardo Milan em 20 de Junho de 2014 às 00:00

Com a chegada de dias mais frios, surge a vontade de comer pratos mais substanciosos, mais calóricos. Segundo os nutricionistas, isso é normal, pois é uma resposta do corpo para manter o equilíbrio térmico, numa busca de gerar calor de dentro para fora, mas também há um cunho histórico-cultural, pois, nesta época, os alimentos se tornavam mais escassos (especialmente frutas e verduras) e era necessário caçar ou dispor de outras fontes, geralmente em conserva. E, tudo isso, diga-se, costuma ser muito gorduroso e calórico. Além disso, junto à vontade de pratos mais quentes, também vem a necessidade de beber vinhos mais encorpados, estruturados, potentes e, na maioria das vezes, mais alcoólicos.

De fato, nos últimos anos, é inegável que há uma busca por mais frescor, leveza, fruta correta, menos compota e menor teor alcoólico nos vinhos. Por assim dizer, há uma busca por mais pureza e sutileza; os paladares têm sido atraídos por vinhos que são bebidos mais facilmente. Enfim, por mais equilíbrio.

Mas, acompanhada dessa boa tendência, temos visto também uma propensão de simplificar as coisas e de se tirar conclusões precipitadas. Assim, em defesa desse estilo mais fresco, está se construindo uma certa repugnância aos vinhos mais estruturados, potentes e com maior teor alcoólico, sob a justificativa de que esses rótulos carecem de equilíbrio.

Potência equilibrada

Amarones, Manzanillas, Amontillados são alguns exemplos de vinhos potentes, porém extremamente versáteis

E isso é um equívoco, já que tintos ou brancos mais potentes, estruturados e, às vezes, com maior teor alcoólico não são sinônimos de vinhos desequilibrados.

Na verdade, um vinho equilibrado é aquele que consegue ter uma harmonia de todos os seus componentes, ou seja, fruta, acidez, taninos e álcool. Assim, esse equilíbrio pode ser atingido em todos os estilos e tipos de vinho, independentemente de seu teor alcoólico, potência ou estrutura.

Assim, podemos lembrar de vários vinhos que, além de serem estruturados e potentes, são também equilibrados. Os Amarones, por exemplo, de elevado teor alcoólico, mas que, pela fruta intensa, taninos marcantes e boa acidez, esbanjam equilíbrio e são boas companhias para pratos de carnes vermelhas ou de caça mais substanciosas ou, melhor ainda, para acompanhar queijos duros e curados, como o parmesão.

Tintos ou brancos mais potentes, estruturados e, às vezes, com maior teor alcoólico não são sinônimos de vinhos desequilibrados

O que falar então dos Jerez secos, como os Manzanillas e Amontillados, por exemplo?  Vinhos superversáteis e que têm um lugar cativo nas adegas dos enófilos mais exigentes. Em geral, minerais e com ótima textura, são companhia ideal para diversos tipos de prato, desde os embutidos, como o famoso jamón, até os pratos mais complicados para harmonização, como sopas e cremes, tão apreciados em dias frios.

Saindo desses exemplos mais extremos, podemos citar os vinhos do Douro e do Alentejo, com base em Touriga Nacional ou Alicante Bouschet e os espanhóis do Priorato, à base de Tempranillo e/ou Garnacha, muitas vezes com maior teor alcoólico, porém cheios de fruta e de taninos de ótima textura, que trazem bastante elegância e profundidade atrás de tanta potência.

Além deles, temos os Cabernet Sauvignon ou os Bordeaux Blend californianos, os Shiraz australianos, os bons Cabernet chilenos e também os Malbec argentinos. E, ainda, os vinhos tintos e brancos do Rhône, como Gigondas, Châteauneuf-du-Pape, Côte Rotie (só tintos) ou Condrieu (só brancos), em geral muito estruturados, grandiosos, porém com complexidade e equilíbrio na mesma intensidade.

Enfim, há um mundo de vinhos muito bem elaborados para se explorar nesse estilo dito mais potente, estruturado, ideal para uma série de ocasiões. Vinhos que provam e comprovam que o que importa, afinal de contas, é o equilíbrio do conjunto, muito mais que um ou outro fator analisado isoladamente.

Com foco nesse tema, ADEGA selecionou alguns rótulos para facilitar suas aventuras e ajudá-lo a aquecer o seu inverno. Confira os escolhidos e suas avaliações no fim da página. Para mais opções, acesse: www.MelhorVinho.com.br.

Seleção de Vinhos

AD 94 pontos
BODEGAS TRADICIÓN OLOROSO 30 ANOS
Bodegas Tradición, Jerez, Espanha (Viníssimo R$ 420). Branco fortificado seco a partir de uvas Palomino Fino, com envelhecimento certificado de, no mínimo, 30 anos. Em boca, é exuberante, estruturado, equilibrado, tem acidez viva e final muito longo e sofisticado.

AD 91 pontos
CHAKANA ESTATE SELECTION MALBEC 2011
Bodega Chakana, Mendoza, Argentina (La Pastina R$ 93). Muito elegante e agradável. Ainda está jovem na boca, com alta acidez, corpo médio e taninos marcantes, mas muito bem equilibrados, permanecendo por longo tempo no retrogosto.

AD 93 pontos
CLARENDON HILLS ROMAS 2007
Clarendon Hills, Mclaren Valley, Austrália (Viníssimo R$ 515). Taninos doces, muita concentração, intensidade e suculência, tudo permeado por ótima acidez, encaminhando um final longo e persistente. Feito para ser grande.

AD 92 pontos
CLOS DE L’ORATOiRE des papes CHÂTEAUNEUF-DU-PAPE 2010
Clos de L’Oratoire, Rhône, França (Vinci US$ 127,50). Grenache, Syrah, Mourvèdre e Cinsault de vinhas de cerca de 40 anos de idade. Aromas complexos de frutas vermelhas e negras com nuances de especiarias, muito elegantes. Em boca, alta acidez bem equilibrada com corpo médio e taninos marcantes, porém bem macios, além de longa persistência.

AD 92 pontos
COLECCIÓN VIVANCO PARCELAS DE GARNACHA 2007
Bodegas Dinastia Vivanco, Rioja, Espanha (World Wine R$ 279). É frutado, intenso, encorpado, equilibrado, tem ótima acidez, taninos finos e final longo e profundo, com um lado herbáceo que aporta frescor ao conjunto. Exibe perfeita harmonia entre potência e elegância.

AD 92 pontos
Domaine Serene ETOILE CHARDONNAY 2009
Domaine Serene, Oregon, Estados Unidos (World Wine R$ 298). Redondo, profundo e equilibrado, tem acidez refrescante, ótimo volume de boca e uma nota salina muito gostosa no final. A madeira ressalta as qualidades do vinho, contribuindo com elegância e cremosidade.

AD 93 pontos
DON MELCHOR 2008
Concha y Toro, Vale do Maipo, Chile (VCT R$ 420). A fruta vermelha está bem postada junto com uma deliciosa nota de madeira (estagia por 15 meses em barricas de carvalho francês). Palato muito firme e rico. Final de boca muito bom.

AD 91 pontos
E. GUIGAL GIGONDAS 2009
Guigal, Rhône, França (Interfood R$ 172). 50% Grenache, 30% Mourvèdre e 20% Syrah. Aromas cativantes de frutas negras e vermelhas mais frescas envoltos por uma agradável nota floral. Redondo, tem taninos finos, ótima acidez e final persistente, suculento e agradável.

AD 93 pontos
ENCLAVE 2010
Viña Ventisquero, Vale do Maipo, Chile (Cantu R$ 380). Impressiona pela estrutura monolítica, pela fruta de ótima qualidade, pelos taninos finíssimos e pelo final vertical e profundo, tudo envolto por uma acidez elétrica e vibrante, que traz vida e equilíbrio ao conjunto.

AD 92 pontos
FERNANDO DE CASTILLA JEREZ ANTIQUE OLOROSO
Fernando de Castilla, Jerez, Espanha (Casa Flora R$ 160). Aromas de frutos secos, além de complexas notas oxidativas envoltas por toques florais, minerais, de baunilha e de especiarias picantes. Em boca, chama a atenção pela harmonia e pelo equilíbrio, mostrando ótima estrutura e gostosa acidez.

AD 94 pontos
JULIO B. BASTOS Alicante Bouschet 2004
Dona Maria, Alentejo, Portugal (Decanter R$ 560). É potente, estruturado, de boa acidez, com taninos finos e de longa persistência. Alia de modo surpreendente potência, elegância e complexidade. Belo exemplo do potencial da Alicante Bouschet.

AD 94 pontos
MASI COSTASERA AMARONE 2007
Masi, Vêneto, Itália (Mistral US$ 186). Aromas de frutas vermelhas e negras mais maduras, como cerejas e cassis, e ainda traz notas florais, tostadas, de terra úmida e chocolate amargo. No palato, mostra a fruta mais madura, é quente, estruturado, potente, suculento.

AD 91 pontos
PASANAU CEPS NOUS 2008
Pasanau Germans, Priorat, Espanha (Porto Mediterrâneo R$ 102). Com fruta exuberante, é redondo, suculento e estruturado, tem taninos macios, boa acidez e final persistente e elegante, confirmando a groselha encontrada no nariz. Num estilo bastante frutado, mas sem deixar de ser elegante e complexo.

AD 93 pontos
PAULO LAUREANO ALICANTE BOUSCHET 2008
Paulo Laureano Vinus, Alentejo, Portugal (Adega Alentejana R$ 547). Equilíbrio lá no alto, com fruta madura e taninos, presentes e finos, se entrelaçando com a vivacidade da boa acidez. Um vinho de personalidade em que cada momento da degustação apresenta novas percepções.

AD 93 pontos
STAG’S LEAP WINE CELLARS FAY
CABERNET SAUVIGNON 2008
Stag’s Leap, Califórnia, Estados Unidos (Winebrands R$ 707). Fruta mais untuosa e suculenta, porém com uma estrutura tânica que traz equilíbrio e sustentação ao conjunto. Consegue aliar, com maestria, potência, elegância e profundidade.

AD 91 pontos
ST. HUGO CABERNET SAUVIGNON 2010
Jacob’s Creek, Coonawarra, Austrália (Casa Flora R$ 159). Chama a atenção pela textura dos taninos, é frutado, estruturado, tem ótima acidez e final persistente e suculento. Um típico Cabernet australiano.

AD 92 pontos
TAHON DE TOBELOS RESERVA 2008
Tobelos Bodegas y Viñedos, Rioja, Espanha (RM do Brasil R$ 120). Tempranillo que encanta pelos aromas de frutas vermelhas maduras, em compota, balsâmico, chá, incenso, alcaçuz e madeira nobre. Na boca, exibe bom corpo, acidez excepcional e taninos muito finos.

AD 92 pontos
TEDESCHI AMARONE 2008
Tedeschi, Vêneto, Itália (Winebrands R$ 282). Aromas de cerejas e framboesas maduras permeados por típicas notas herbáceas e florais, além de toques de tabaco e de alcaçuz. Em boca, tem acidez vibrante e ótima textura, tudo num final longo e persistente. Como deve ser um Amarone, é concentrado, untuoso, mas sem comprometer o frescor da fruta e a elegância.

AD 94 pontos
TORRE DO ESPORÃO 2007
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor R$ 840). Aromas austeros, um misto de frutas vermelhas e negras em conjunto com notas florais, tostadas, de tabaco e de alcaçuz, além de toques especiados e minerais. No palato, confirma esse estilo monolítico, potente e estruturado, tudo envolto por fruta exuberante, impressionante estrutura tânica e uma delicada acidez que transmite frescor, finesse e elegância.

AD 93 pontos
ZERBEROS Garnacha 2006
Finca Zerberos, Castilla y León, Espanha (Casa do Porto R$ 264). Garnacha de vinhas velhas. Frutado, muito equilibrado, com ótima acidez e taninos macios, mas intensos, e final longo e profundo, quase salino.

* Confira as resenhas completas e ainda outras sugestões no site www.MelhorVinho.com.br


Especiais inverno vinhos mais encorpados maior teor alcoólico tintos brancos

Artigo publicado nesta revista


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