Vinhas Velhas, Novas Casas

Os últimos 20 anos trouxeram ao mundo não somente novas safras, mas também uma mudança radical na arquitetura das vinícolas

Sílvia Mascellarosa em 17 de Agosto de 2010 às 11:33

Divulgação
Viña Tondonia: renovando-se desde 1910. Em 1998, escritório da famosa arquiteta iraquiana Zaha Hadid foi contratado para criar algo inovador. Antigo e moderno se misturam

 

Dominus Estate é um divisor de águas na arquitetura de vinícolas, que se integram à paisagem

Em 1910, um vinicultor espanhol mandou construir uma loja para apresentar seus vinhos na Exposição Mundial de Bruxelas. Ao voltar do evento, a loja foi desmontada e guardada nos subterrâneos de sua vinícola. Noventa e dois anos depois, seus bisnetos resolveram remontar a loja como parte das comemorações dos 125 anos da vinícola (em 2002). Descobriram uma joia aquitetônica que desencadeou uma mudançasem precedentes na empresa familiar e - até aquele momento - de sobriedade incontestável.

Estamos falando da R.López de Heredia, produtora do Viña Tondonia, em Haro, na Rioja Alta, Espanha. Maria José López de Heredia, diretora geral e bisneta do fundador Don Rafael, conta que a empresa atravessou três séculos e ainda assim sua construção não está pronta: "Meu bisavô tinha muito bom gosto e nenhum preconceito contra os modernistas, assim contratou bons arquitetos, como um dos discípulos de Gaudí, por exemplo.

Richard Brimer
A neozelandesa Elephant Hill também foi projetada para se fundir à natureza e é 100% sustentável
Face externa da Casa Lapostolle, em Cachapoal, lembra uma barrica descontruída

Seu filho continuou o trabalho, mas naqueles tempos de Guerra Civil e II Guerra Mundial, o dinheiro desapareceu e as construções pararam". Os investimentos continuaram naquilo que era essencial, as estruturas para fazer e armazenar o vinho (como as galerias escavadas 10 metros abaixo do solo de pedra que guardam mais de 13 mil barricas) e formaram um conjunto de diferentes épocas e estilos. Em 1998, os bisnetos decidiram terminar os edifícios inacabados e também acrescentar algo muito novo para a comemoração que estava por vir, assim contrataram a premiada arquiteta iraquiana Zaha Hadid.

O escritório de Zaha Hadid, acostumado a enormes projetos ao redor do mundo, encarou como um desafio a possibilidade de executar um trabalho de vanguarda em uma empresa tradicional, mesmo que o ganho financeiro não compensasse. "O projeto era ambicioso. Precisávamos criar uma peça para a feira 'Alimentaria' de Barcelona, que depois iria se juntar a uma outra peça histórica e compor a nova entrada da bodega, formando sua loja e sala de degustação. E esse pedido veio de pessoas tradicionais que, em alguns momentos de sua história recente, ainda utilizavam técnicas romanas para construção de paredes - e que resolveram nos dar um voto de confiança. Era impossível dizer não a esse projeto", explicou Jim Heverin, um dos arquitetos do escritório de Zaha.

O resultado é uma estrutura metálica que desconstrói a figura de um decanter, onde está contida a loja histórica da vinícola, no mais puro Art Nouveau.

O entorno, na pequena cidade, também teve que ser modificado para receber a nova peça, incorporando uma calçada metálica e luzes embutidas no piso. Os proprietários da vinícola estão satisfeitos com o resultado e seguem terminando as obras começadas pelo bisavô, continuamente agregando o antigo ao novo.

Fotos: Divulgação

A centenária bodega Marqués de Riscal, em Rioja, foi reprojetada e virou um complexo turístico. Os telhados de titânio (ao lado) simulam formas orgânicas

Tex-Mex Revisitado

Toda vez que um estilo novo parece ter sido incorporado à nossa realidade, especialistas e curiosos saem buscando o nascedouro da novidade. Então, para saber como as vinícolas velhas e novas decidiram modificar suas instalações (coisa que parecia sempre tão arraigada às tradições culturais de cada região), é preciso ir não ao Velho Mundo, mas ao Novo.

Mas, para a história da arquitetura, só se pode falar em um espaço autônomo para a preparação e a conservação dos vinhos a partir do século XVI, com o aparecimento dos primeiros châteaux franceses (Haut-Brion no Pessac é de 1525). Até esse momento, os vinhos faziam parte das villas rústicas romanas (unidades de produção agrícola e também moradias) e depois dos mosteiros e claustros que trouxeram as técnicas de produção e as aperfeiçoaram durante toda a Idade Média e Renascimento. Porém, é mesmo em Bordeaux que a arquitetura das vinícolas começa a ser definida e diferenciada, e é nesse momento que nascem os espaços unicamente dedicados ao vinho.

 

A toscana Petra se assemelha a um altar asteca e seria uma nova versão das casas de campo da região

Foto: Divulgação

No entanto, é nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia dos anos 1980, que a arquitetura começa da fazer parte da cultura do vinho, de uma forma distinta dos históricos castelos e châteaux europeus. O arquiteto português Carlos Vitorino, responsável pela vinícola Herdade do Rocim no Alentejo, vem pesquisando essas mudanças e explica que os primeiros grandes investimentos na moderna arquitetura das vinícolas foram feitos pelos empresários norte-americanos.

"A arquitetura valoriza e dá forma à missão e aos valores que uma adega deseja levar por diante, é a expressão física das cores, aromas e paladares que se encerram numa garrafa. Além disso, ela exprime o clima em que o vinho é feito e todo o cuidado e carinho dado aos detalhes de sua feitura. Não tenho dúvidas de que o vinho despertou o interesse dos empresários que vêem nele um produto de cultura e, assim, a arquitetura contemporânea é também veículo para esse marketing atual, que convida o apreciador a visitar e a partilhar do que é fazer vinho", afirma Vitorino.

Foto: Divulgação
Vinícola O.Fournier é um projeto do escritório Bórmida y Yanzón, que também desenhou a Bodega Salentein

Desde os anos 1970 a vinícola de Robert Mondavi (erguida em um estilo de vila campesina) já abria seus portões e jardins para concertos, leilões e cursos de vinho, mas, mesmo lá, alguns espaços tiveram que ser adaptados para receber grupos, e uma grande reforma foi feita nos anos 1990. As vinícolas que apareceram depois na região foram engolfadas no potencial turístico e suas construções já eram projetadas com vistas a aparecer para o público. Uma das primeiras a fazer um casamento mais convidativo entre o Novo e o Velho Mundo foi a Opus One, cujos donos pertencem a ambos os lados do oceano. O arquiteto Scott Johnson decidiu que a vinícola deveria parecer que estava saindo da terra e usou as ondulações do terreno e materiais modernos e antigos para compor o atrativo conjunto. 

Foto: Divulgação

"Entre erros e acertos que foram cometidos nessa época, muita coisa, principalmente no vale de Napa, ficou com um jeito falso, meio de parque temático infantil", explica a arquiteta gaúcha Vanja Hertcert que, há décadas estuda, visita e constrói vinícolas. Ela, no entanto, destaca uma construção norte-americana que faz parte (junto da Opus One) do divisor de águas dessa nova arquitetura bodegueira, a Dominus Estate, em YountVille, também no Napa.

A vinícola pertence a um francês e foi projetada por dois arquitetos suíços, Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Completada em 1997, ela tem um exterior quase rústico, embora integrado na paisagem de forma impressionante, reforçada pelo uso, em toda a fachada, de cestas de aço inoxidável preenchidas com pedras basálticas da região. Elas têm a função de controlar a temperatura interna do enorme edifício de 100 metros de frente. Os únicos detalhes visíveis são as enormes janelas de vidro que descortinam o vale e a passagem retangular no meio do prédio que conecta os dois lados da paisagem.

Existe novidade ao sul do Equador

O Chile e a Argentina foram mais rápidos do que os Estados Unidos para equilibrar as criações arquitetônicas que faziam referência ao seu legado europeu. Austrália e Nova Zelândia também, embora em menor grau. O Chile até hoje faz um assemblage harmonioso de vinícolas tradicionais e novas. Um bom exemplo é a Concha y Toro (em Pirque), instalada no mesmo local desde sua fundação e mantendo intactas a casa de Don Melchor, os jardins e as caves de chão de terra, onde era armazenado o Casillero del Diablo.

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Fernando Zanetti
Fachada da Cantina Mesa, na Sardenha, usa formas geométricas que lembram peças de tapeçaria

Outras vinícolas resolveram inovar desde o início, como a Matetic (vale de San Antonio), que utiliza o conceito orgânico na produção e cuja estrutura leve, em aço e vidro, praticamente desaparece na paisagem; a Viña Montes (vale de Colchagua) que foi concebida levando em consideração as técnicas chinesas de harmonização de espaços; a Viña Falernia (vale de Elqui), que também se funde à natureza; e a Casa Lapostolle (vale de Cachapoal), cuja sala de tanques e os andares de armazenamento foram escavados dentro da rocha e sua face externa lembra uma barrica desconstruída. Ainda no Chile, os arquitetos Claudio Blanco e sua esposa Lorena Andrade foram responsáveis por duas vinícolas: Haras de Pirque (com seu formato de ferradura) e Viña Estampa (de design futurista). Na mesma linha, um dos principais produtores argentinos também resolveu inovar. A bodega de Catena Zapata, por exemplo, é inspirada em templos maias. Esses são exemplos de como a arquitetura pode ser levada um passo à frente da tradição.

Foto: Divulgação
"Esse foi um trabalho pioneiro em que estabelecemos alguns pontos importantes, como a relação da arquitetura com a paisagem natural e cultural do local, o resgate de valores tradicionais - reinterpretados à luz dos novos contextos culturais - e a busca por uma identidade arquitetônica contemporânea e ao mesmo tempo expressiva da região", explica Eliana Bórmida sobre Salentein (foto acima)

Enquanto isso, a Argentina vem se dedicando a uma arquitetura bodegueira de espetáculo, executada principalmente pelo escritório Bórmida y Yanzón, de Mendoza. Eles são os responsáveis por estruturas como a da Bodega O.Fournier e da Bodega Salentein, no vale de Uco, em Mendoza. A arquiteta Eliana Bórmida considera o projeto da Salentein um marco entre as tantas vinícolas que seu escritório desenha na Argentina e uma obra de grande influência no desenvolvimento da arquitetura das vinícolas no país. "Esse foi um trabalho pioneiro em que estabelecemos alguns pontos importantes, como a relação da arquitetura com a paisagem natural e cultural do local, o resgate de valores tradicionais - reinterpretados à luz dos novos contextos culturais - e a busca por uma identidade arquitetônica contemporânea e ao mesmo tempo expressiva da região", explica Eliana.

Foto: Divulgação
Opus One foi uma das primeiras vinícolas a fazer um "casamento" entre o Novo e o Velho Mundo

O que começou como a construção de um único edifício da vinícola (majestoso e moderno) acabou se transformando em um complexo, chamado de Espaço Salentein. Ao longo de um eixo paisagístico de 1,5 km de extensão ficam a vinícola, uma capela, o centro de visitantes (que abriga um museu de artes), restaurante e wine bar além de um anfiteatro. Tudo isso aos pés dos Andes em meio a uma reserva de mata nativa.

 

Visual contemporâneo da Bodegas Protos se contrapõe ao castelo medieval na montanha

Foto: Divulgação

A arquiteta Eliana Bórmida acredita que ainda não se possa dizer que existe um novo estilo arquitetônico para as vinícolas, mas tem certeza de que elas passaram a ser um tema muito importante para a arquitetura contemporânea, pois, até bem pouco tempo, eram simplesmente construções utilitárias, erguidas como galpões simples para produção e armazenamento de vinhos. "Desde os anos 1990 houve uma mudança nesse conceito que creio que seja devido a três fatores: as mudanças enológicas e tecnológicas que possibilitaram a criação de vinhos melhores - capazes de competir nos novos mercados -, o marketing do vinho em que as instalações mais modernas começaram a ter valor nas estratégias das empresas - a imagem da vinícola passa a apoiar a imagem do produto e a representá-lo - e o turismo do vinho, que aproxima as pessoas da elaboração e torna-se uma experiência única, mas que necessita de uma boa estrutura ao seu redor", revela Eliana.

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Foto: Divulgação
A arquiteta Vanja Hertcert criou um desenho moderno para a vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha

Concreto, metal e vinho

Por mais que os arquitetos estejam dispostos a criar espaços poéticos, integrados à paisagem, vanguardistas ou de tradição revisitada e revitalizada, não há como esquecer que todas essas construções têm, como função primária, a produção de vinhos. Assim, forma e função têm que estar melhor conectadas do que os esteios de uma enorme ponte.

 

Viña Falernia, no vale de Elqui, no Chile, é mais uma das projetadas para se misturar com a paisagem

Foto: Divulgação

No vale de Apalta, em Colchagua, local escolhido para a sede da Viña Montes, por exemplo, a água está bastante perto do solo, o que inviabilizou a escavação da adega subterrânea inicialmente planejada pelo arquiteto Samuel Claro. A solução foi fazer o oposto, colocar a sala das barricas no nível do solo e transferir enormes quantidades de terra para as laterais do prédio, garantindo o conforto térmico daquela área.

Outra preocupação de quem faz vinho é a constatação moderna de que, quanto menor for a movimentação das uvas desde sua chegada até o momento de descanso (seja em barricas ou em cubas de aço inoxidável), mais estável o vinho. Dessa forma, os processos que utilizam somente a força da gravidade para movimentar grãos e líquidos devem ser considerados na construção de uma nova vinícola e isso pode ocasionar desde a mudança do local escolhido, até o investimento em escavações profundas.

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Foto: Divulgação
O formato (marcante e inovador) de ferradura da Haras de Pirque chama a atenção

É o caso das Bodegas Baigorri, na Rioja Alavesa, que tem cinco andares escavados terra abaixo, ligados por enormes rampas de concreto e pisos de cerâmica antiderrapante. Praticamente só um piso é visível ao chegar à propriedade e a impressionante construção de concreto, zinco e vidro, identificada como uma lanterna de vidro apoiada no morro, é obra do arquiteto local Iñaki Aspiazu e conta com um completo processo gravitacional de produção.

Há menos de uma década, as vinícolas passaram a dar atenção especial à sustentabilidade de seus vinhedos e instalações. E isso pode ser traduzido de muitas formas, desde a utilização de materiais locais, que terão menos impacto no ambiente, o uso de pedras na fachada (recurso da Dominus norte-americana e da Bodegas Salentein em Mendoza, entre tantas outras) que diminuem a necessidade de refrigeração artificial dos espaços e até a utilização moderna de materiais, como acontece com a vinícola neozelandesa Elephant Hill, em Hawke's Bay.

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Vinícola de Catena Zapata, um dos mais importantes produtores da Argentina, tem forma de templo maia

A obra do arquiteto John Blair, idealizada para respeitar a natureza e fundir-se nela da melhor forma possível, utiliza painéis de cobre previamente tratados para resistirem à ação do sal marinho da costa de Te Awanga (pintados na cor turquesa para sumirem na paisagem marítima), enormes janelas para maximizar a luz natural e conservar energia e é uma das duas únicas vinícolas da Nova Zelândia a possuir um sistema biológico de tratamento de água que permite a reutilização de toda a água que entra nos processos da vinícola. A Elephant Hill é considerada 100% sustentável.

Fotos: Divulgação
"Barrica" da Quinta do Encontro é uma referência na região da Bairrada, em Portugal

 

Rompendo tradições

O Velho Mundo, mesmo tendo dormido sobre sua glória por décadas (o português Carlos Vitorino acredita que eles foram os últimos a acordar para essa nova fase), não ficou imune às novidades e nem se deixou ofuscar pelos novos produtores. E embora a França ainda resista bravamente às mudanças (uma das poucas exceções conhecidas foi a construção de uma enorme adega moderna e circular semienterrada no solo precioso do Château Lafite-Rotschild em Bordeaux), afinal em muitas de suas regiões de produção de vinhos a identidade cultural está tão bem estabelecida que não precisa de modificações, outros países, como a Itália, abraçaram as mudanças com galhardia. É o caso da vinícola Petra, em Suvereto, na Toscana, criada pelo arquiteto italo-suíço Mario Botta e construída pela empresa do dono da vinícola, Vittorio Moretti.
Ousada, a construção é explicada por seu arquiteto como uma nova versão das casas de campo da Toscana, em que os vinhedos eram parte do projeto arquitetônico.

O resultado é um enorme círculo de pedra, como um cilindro elevado seguindo a inclinação do terreno, dividido ao meio por escadarias que lembram um altar asteca. Por dentro e por fora, as cores da Toscana misturadas ao brilho do metal guardam modernas áreas de produção e um longo corredor de barricas, minimalista.
Outro exemplo é a Cantina Mesa, na Sardenha, projetada com base nas ideias do publicitário Gavino Sanna. O desenho da fachada remonta à tapeçaria sardenha com figuras geométricas em preto e branco.

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Herdade do Rocim mescla elementos modernos e materiais tradicionais

Deixar-se envolver pelo mundo do vinho é uma das frases mais ouvidas quando os arquitetos falam do processo criativo pelo que passaram para dar vida a ideia de uma vinícola. Para o português Carlos Vitorino, fazer vinho é uma atividade em que, apesar dos edifícios terem que obedecer aos mais variados pressupostos empresariais e de normas de regulamentação, existem diferenças de todas as outras atividades industriais, por conta do valor cultural de seu produto final, o vinho. "As vinícolas são hoje a sede para a divulgação de um produto que não somente representa um alimento genuíno de alta qualidade, como também uma herança histórica de um povo e um motor que propicia momentos de convívio e de glamour.

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Bodegas Baigorri tem cinco andares escavados na terra

É nestas águas de imaterialidade programática que o arquiteto deve se inspirar e dar resposta", define Vitorino.
Uma de suas construções, a Herdade do Rocim, é um exemplo de intervenção na paisagem, integrando-a e reconstruindo-a, mas também preservando materiais locais, como a taipa que recobre paredes, a utilização de materiais modernos que permitam a sanidade das áreas internas e a contemporaneidade dos ambientes destinados ao convívio. Uma novidade até bem pouco tempo inimaginável para uma vinícola portuguesa.
Outro bom exemplo em Portugal é a belíssima Quinta do Encontro, do arquiteto Pedro Mateus, um edifício que lembra uma enorme barrica de carvalho em meio ao vinhedos da região da Bairrada.

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Projeto da Portia Bodega custou mais de 25 milhões de euros

Obviamente que um país como a Espanha, berço de artistas como Salvador Dalí, Pablo Picasso e Gaudí, não poderia deixar de dar ao mundo algumas das mais belas intervenções arquitetônicas. Santiago Calatrava - arquiteto e engenheiro nascido em Valência - tem em seu portfólio obras como o Complexo Olímpico de Atenas, a Ponte da Mulher em Buenos Aires e é o criador do design da vinícola Ysios, em Rioja. Uma construção surpreendente, como uma escultura fundida na paisagem irregular entre os vinhedos. O telhado ondulado, em alumínio, lança contrastes tanto nas paredes de concreto quanto na fachada recoberta de tiras de cedro, que reproduzem o padrão de uma barrica com delicadas partes sinuosas.

Na mesma região de Rioja, a arquitetura encontrou outra forma de se expressar entre os apreciadores de vinho. Desta vez foi a centenária bodega Herederos del Marqués de Riscal, que pôs em marcha um plano para transformar sua vinícola histórica em Elciego. O projeto do hotel ficou nas mãos do arquiteto canadense Frank O. Gehry (que também desenhou o museu Guggenheim de Bilbao), com seu estilo marcante de telhados de titânio que simulam formas orgânicas que se desprendem da estrutura de concreto. O detalhe dessa construção, no entanto, fica por conta dos painéis metálicos pintados nas cores principais da vinícola. Inaugurado em 2006, o complexo turístico inclui um Spa de vinoterapia, restaurantes e um novo Museu do Vinho, dentro da bodega histórica, ampliada por dentro de forma a receber os equipamentos modernos de vinificação e mais caves de envelhecimento.
Os ventos das ampliações e reformas que trazem a vanguarda até a história alcançaram a região vizinha da Rioja, Ribera del Duero. Mais precisamente uma das vinícolas mais famosas da região, a Bodegas Protos, com seus 2 km de galerias de envelhecimento escondidas sob a montanha guardada por um castelo medieval.

A cidade de Peñafiel viu então surgir aos pés da montanha uma nova vinícola, interligada à original por uma série de túneis subterrâneos, mas com estilo diferenciado, criado pelo escritório inglês Roger Stirk Harbour and Partners. A composição, aparentemente modular em formato triangular, utiliza materiais tradicionais como os arcos de madeira, mas com tecnologia nova, para dar suporte a tanques e prensas, fazer uma ligação entre as cores da paisagem ao redor da vinícola e integrar as duas fases da história da Protos.
Outro bom exemplo do quanto a arquitetura é um fator importante atualmente está no fato de o escritório do renomado arquiteto Norman Foster - que entre outros tantos projetos marcantes fez a renovação do tradicionalíssimo estádio de Wembley - ter sido contratado pelo Grupo Faustino para elaborar o projeto da Portia Bodegas, em Ribera del Duero. O desenho com três naves em forma de uma estrela contou com um investimento de 25 milhões de euros e deve ser inaugurado ainda este ano.

Adegas Boutique

Aproximar o moderno do antigo é uma tarefa difícil, mas necessária na realidade da produção de vinhos do século XXI. Vender vinho atualmente inclui muito mais do que um bom produto em uma prateleira perto do consumidor. "Efetivamente, as vinícolas de hoje querem mostrar um modo de fazer bem as coisas: o manejo da paisagem produtiva, a tecnologia e a comunicação. Muitas delas se mostram como marcos da moderna agroindústria e outras vão mais além, propondo-se a ser verdadeiras referências arquitetônicas no mundo", afirma a argentina Eliana Bórmida.
A globalização aproximou produtos e separou experiências. Se por um lado a oferta de diferentes vinhos é muito maior, por outro as pessoas precisam ser mais conquistadas do que quando tinham menos opções. A arquitetura da adega contemporânea, nesse cenário, serve tanto à produção vitivinícola quanto à experiência enoturística, combinando realidades técnicas e estruturais de variados tipos.,

O objetivo final é reforçar a marca dos tradicionais, que continuam a assentar tijolos nas paredes do tempo, e dar uma identidade forte e original aos novos vinhateiros. Fazer algo que seja capaz de se perpetuar por décadas, assim como os bons vinhos nas imensas caves. Nas mãos dos arquitetos, forma e função, ciência e arte, para distinguir as casas novas e as velhas vinhas, servem para cultivar a experiência única de estar no cenário da produção de vinhos.

BRASIL ENTRE DOIS MUNDOS

"Não devemos inventar um passado que não temos", protesta a arquiteta Vanja Hertcert, falando sobre a mania dos brasileiros de construir cantinas com ares de uma história que nossa jovem colonização não propiciou. Ela acredita em revitalização de espaços históricos, mas discorda quando o assunto é criar edifícios que nunca fizeram parte da arquitetura brasileira. "Temos a chance única de fazer coisas novas, de criar uma identidade tão poderosa como a de nosso espumante, por que copiar algo ultrapassado?", questiona Vanja. Alguns produtores já concordam com ela e deixaram em suas mãos o desenho de suas modernas vinícolas, como a Luiz Argenta, em Flores da Cunha, concluída neste ano. A vinícola possui tecnologia de ponta, onde o desenho de Vanja foi combinado com as necessidades apontadas por um engenheiro de processos. A criação da arquiteta combina a modernidade das casas espanholas e argentinas, ganhando leveza com seu telhado que segue as curvas dos vinhedos e apoiandose na rocha escavada para criar formas e espaços internos únicos. E está para sair do papel mais uma vinícola de sua autoria, desta vez em Santa Catarina, um projeto ainda mais ousado e inovador.
Mas, mesmo em locais onde se transpira a tradição dos antepassados, alguns espaços conseguem sair do esperado, como a nova vinícola Almaúnica, que - mesmo pequena - por enquanto é realmente única em seu design limpo e diferenciado dentro do Vale dos Vinhedos e a revitalização da vinícola Lovara, em Bento Gonçalves, que preservou a casa centenária do fundador e ao seu redor implantou uma moderna vinícola. O Brasil, que luta para ter seus bons vinhos reconhecidos no mercado interno, está a caminho ver multiplicadas as construções da nova enoarquitetura.

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