Vinhos dos moinhos

Famosa pela obra de Miguel de Cervantes, poucos sabem que La Mancha tem grande tradição vitivinícola, além de ser a denominação de origem de maior extensão territorial do mundo

Eduardo Milan em 13 de Junho de 2012 às 06:49

fotos: divulgação

A casta branca Airén é a que melhor se adapta ao terroir de La Mancha
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A forte relação da região de La Mancha com o vinho vem de longa data e está arraigada à cultura local. A obra de Miguel de Cervantes - o autor de Don Quixote -, por exemplo, faz diversas referências à bebida. Embora os primeiros registros escritos atestando a existência de vinhedos em La Mancha datem dos séculos XII e XIII, acredita-se que as primeiras videiras foram trazidas ao local pelos romanos. A cultura vitivinícola alcançou grande expansão nos idos de 1940, quando muitos produtores se estabeleceram na região.

Inverno e inferno
A expressão "La Mancha" tem origem árabe (Mantxa), cujo significado é "terra seca". De fato, a região é seca. Um provérbio local descreve o clima da DO como "nove meses de inverno e três meses de inferno". O microclima local impede a entrada de correntes úmidas e, assim, os índices pluviométricos são baixos, girando em torno de 300 e 400 cm³/ano. O clima é continental, com verões quentes - de temperaturas que chegam aos 45°C - e invernos rigorosos - quando se verifica a ocorrência de temperaturas negativas - até -15°C - e geadas prolongadas. Por outro lado, a ocorrência de sol é de aproximadamente 3.000 horas/ano. A composição do solo é calcário-argilosa. Provavelmente daí vem a explicação para a grande extensão da área de vinhedos em La Mancha, já que, provavelmente, outras culturas não conseguiriam prosperar nessas condições.

Formalmente criada em 1976 e situada em Castilla-La Mancha, no platô central da Espanha, a DO La Mancha conta mais de 164.000 hectares de vinhedos plantados. De fato, é a maior DO do país e a maior área vitivinícola contínua do mundo, abrangendo 182 municípios, divididos em quatro províncias: Albacete, Ciudad Real, Cuenca e Toledo. A vitivinicultura é a base da economia de muitos desses municípios.

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Segundo um provérbio local, o clima da região é de "nove meses de inverno e três meses de inferno". O microclima impede a entrada de correntes úmidas e, assim, os índices pluviométricos são baixos fotos: divulgação
Devido à escassez de chuvas, as vinhas são plantadas de modo espaçado e crescem próximas ao solo
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Airén e Verdejo
Devido às condições extremas do clima, a valente branca Airén se adaptou bem ao local, tornando La Mancha "a casa da Airén". Entretanto, essa cepa não é das mais ambiciosas. Normalmente, parte do vinho obtido a partir dela acaba por ser destilado para produção de brandy de Jerez. Assim, é natural que, nos últimos anos, tenha se substituído as plantas de Airén por vinhedos de Verdejo, variedade bem mais promissora. Destacam-se, ainda, a Viura (ou Macabeo), a Chardonnay e a Sauvignon Blanc dentre as brancas permitidas na DO, que incluem ainda Moscatel Grano Menudo, Parellada, Pedro Ximénez, Riesling, Torrontés, Viognier e Gewürztraminer.

Na ala das tintas, destacam-se a Tempranillo (ou Cencibel, como é originalmente denominada na região), além de Grenache, Merlot, Syrah e Cabernet Sauvignon, embora possam ser cultivadas também Pinot Noir, Graciano, Malbec, Mencía, Monastrell, Moravía Dulce (ou Crujidera), Petit Verdot, Cabernet Franc e Bobal.

PROVÍNCIA HECTARES PLANTADOS
Albacete 18.276
Ciudad Real 79.168
Cuenca 33.286
Toledo 33.719
TOTAL 164.449
PROVÍNCIA VITICULTORES
Albacete 1.948
Ciudad Real 7.542
Cuenca 3.772
Toledo 3.960
TOTAL 17.222
VARIEDADES BRANCAS
VARIEDADE HECTARES
Airén 115.494
Macabeo 2.317
Chardonnay 769
Sauvignon Blanc 1.420
Verdejo 2.028
Moscatel gr. 241
Riesling 61
Parellada 50
Viognier 20
Gewürztraminer 14
Pedro Ximén 26
Torrontés 2
Outras/Exper 190
TOTAL 122.632
VARIEDADES TINTAS
VARIEDADE HECTARES
Cencibel 26.843
Garnacha 4.520
Moravia 1.494
Cabernet Sauvignon 3.078
Syrah 3.342
Merlot 1.175
Petit Verdot 378
Monastrell 316
Bobal 534
Graciano 85
Cabernet Franc 28
Malbec 24
TOTAL 41.817

Vinhos do platô
Desde que o mercado internacional reconheceu o potencial da DO, novas técnicas de vinificação foram implementadas. As vinícolas se modernizaram e se focaram em produzir vinhos para agradar o consumidor. Com isso, por exemplo, as uvas brancas passaram a ser colhidas mais jovens, fator determinante para a obtenção de vinhos com acidez mais fresca e menor teor alcoólico. A utilização de tanques de aço inoxidável - com controle de temperatura - é onipresente. Os tintos produzidos na região têm se mostrado predominantemente frutados, encorpados, frescos e aromáticos.

Outro ponto a ser notado em La Mancha é o fato de que a região - um platô no centro da Espanha - é plana, o que facilita o trabalho com a terra. Além disso, devido às características extremas do clima local, as pragas da agricultura não conseguem se estabelecer e as vinhas crescem naturalmente livres de doenças. Assim, os custos de produção podem ser mantidos num patamar baixo, o que acaba se refletindo no preço final dos vinhos.

A DO La Mancha conta mais de 164.000 hectares de vinhedos plantados. Com isso, é a maior Denominação de Origem do país e a maior área vitivinícola contínua do mundo, abrangendo 182 municípios, divididos em quatro províncias: Albacete, Ciudad Real, Cuenca e Toledo
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CURIOSIDADES

- Por conta da escassez de chuvas, as vinhas são plantadas de modo espaçado, com aproximadamente 8 metros de distância entre as plantas. Além disso, crescem próximas ao solo, para permitir que cada uma mantenha para si a umidade existente no solo.
- No passado, o vinho produzido em La Mancha era mantido em ânforas de barro, as quais eram enterradas no solo, deixando apenas seu topo à mostra, de forma a garantir sua refrigeração.
- Paradoxalmente, embora a Airén seja cultivada em apenas poucos países, devido ao fato de constituir uma grande parte dos vinhedos da enorme região de La Mancha, acaba sendo a cepa branca mais cultivada do mundo, mais de 115.000 hectares plantados só nessa DO.
- Algumas pequenas vinícolas têm produzido ótimos rótulos a partir de variedades não permitidas na DO, as quais, apesar da qualidade, recebem a classificação de Vino de la Tierra.
- Iguarias regionais como o queijo manchego e pratos como pisto manchego (uma espécie de ratatouille) e ensopados de carne de caça e pimentões combinam bem com os vinhos da DO La Mancha.
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A região de La Mancha é plana, o que facilita o trabalho com a terra. Além disso, devido às características extremas do clima, as pragas da não conseguem se estabelecer

CLASSIFICAÇÃO DOS RÓTULOS DA DO LA MANCHA

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Jóven Categoria mais básica, sem passagem por madeira, para ser consumido preferencialmente no mesmo ano da colheita.
Tradicional Sem passagem por madeira, porém com mais estrutura do que o Jóven.
Envelhecimento em barris de carvalho Envelhecimento mínimo de 90 dias em barris de carvalho.
Crianza Envelhecimento natural de dois anos, sendo, pelo menos, seis meses em barris de carvalho.
Reserva Envelhecimento de, no mínimo, 12 meses em barris de carvalho e 24 meses em garrafa.
Gran Reserva Envelhecimento de, no mínimo, 18 meses em barris de carvalho e 42 meses em garrafa.
Espumante Produzidos a partir do método tradicional (segunda fermentação em garrafa), com no mínimo nove meses de autólise.

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VINHOS AVALIADOS

ADEGA (com Hong Sup Kim) avaliou vinhos da região no evento "Showroom & Degustação DO La Mancha 2012 Brasil", realizado em São Paulo, em maio. Pouco conhecidos no mercado brasileiro, os vinhos de La Mancha chamaram atenção com seus exemplares mais jovens, que são muito fáceis de beber e gostosos. No caso dos brancos, a Airén mostrou muito frescor, com frutas cítricas, porém com um pouco mais de corpo que os Sauvignon Blanc. Nos tintos, os Tempranillo Jóven se mostraram muito interessantes pela presença evidente de frutas com boa acidez. São excelentes opções para quem não gosta de taninos fortes e quer frutas. Harmonizam bem com paella, por exemplo.

86 PONTOS
LOS GALANES AIRÉN 2011

Cooperativa Santa Catalina
Airén é a variedade mais plantada na região. Produz vinhos de corpo leve-médio, aromáticos (frutas e florais), com boa acidez, com muito frescor, que devem ser consumidos jovens (até dois anos), como este. Ótimo como aperitivo harmoniza bem com queijos frescos como mussarela de búfalo e de cabra. HSK

85 PONTOS
LACRUZ VEGA SAUVIGNON BLANC 2011
Bogarve

O Sauvignon Blanc da região é menos frutado que Airén e que os Sauvignon do Novo Mundo, apresentando mais notas minerais e corpo muito leve. HSK

87 PONTOS
TORRE DE GAZATE TEMPRANILLO 2011
Vinícola de Tomelloso
Sem passagem por barrica. Vinho muito frutado, principalmente no nariz, que lembra frutas vermelhas, morango, cereja e ameixa madura (frutas de clima quente). Tem cor vermelho viva, na boca mostra corpo médio, acidez média para alta e tanino médio. Fácil de beber. HSK

89 PONTOS
ALLOZO RESERVA 2005
Bodegas Centro Españolas - Allozo

De cor vermelho intenso, com aromas de frutas vermelhas com notas de chocolate. Ótimo equilíbrio entre corpo médio, acidez alta e tanino médio para forte, porém muito delicado. Persistência longa. Podemos definir como elegantemente equilibrado. Foi a surpresa agradável da degustação. Passa 12 meses em carvalho. 100% Tempranillo. HSK

89 PONTOS
OJOS DEL GUARDIANA GRAN RESERVA 2004
El Progreso Sociedad Cooperativa

De cor vermelho intenso com halos violáceos, apresenta complexidade nos aromas com predominância de frutas vermelhas mais maduras, porém não tão pesadas, com notas de tostados. Com boa acidez e tanino mais suave, tem ótimo equilíbrio. Sutil porém potente. Pode-se esperar evolução. Envelhecimento de 18 meses em carvalho. 100% Tempranillo. HSK

88 PONTOS
LA VILLA REAL ROBLE 2010
Bodegas La Remediadora

50% Tempranillo e 50% Cabernet Sauvignon. Com três meses de passagem por barricas, sua cor é vermelho intenso. Aroma denso e frutado, de grande complexidade. Alta acidez e corpo médio equilibram-se muito bem com taninos fortes, porém muito bem integrados. Persistência longa. Foi além das expectativas. HSK

87 PONTOS
CASA GUALDA 50 ANIVERSARIO 2008
Casa Gualda

40% Tempranillo, 40% Syrah e 20% Petit Verdot. Cor vermelho intenso jovial. Muito convidativo no nariz, mostra complexidade de aromas com base nas frutas, chocolate e especiarias. Boa acidez, com tanino forte, porém o corpo é médio, deixando o tanino destacado. Harmonização boa com pratos untuosos e carnes, como costela de boi, por exemplo. HSK

VINHOS DE LA MANCHA NO BRASIL
P.F 2009 R$ 115 91 pontos
Finca Coronado Petit Verdot 2005 R$ 326 90 pontos
Villavid Blanco 2010 R$ 34 88 pontos
Villavid Rosado 2010 R$ 34 88 pontos
Clos Lojén 2010 R$ 54 87 pontos

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