Na região de Plešivica, a Tomac une concreto, tijolo, madeira e palha à produção de vinhos biodinâmicos

por Arnaldo Grizzo
Nas encostas de Plešivica, a 40 quilômetros de Zagreb, o tempo parece ter moldado não apenas as vinhas centenárias, mas também a filosofia de uma família que há mais de 100 anos cultiva uvas nestas colinas croatas. É aqui, numa região conhecida como “Champagne croata” – onde a tradição vitivinícola remonta ao século XIV –, que a família Tomac decidiu materializar, em concreto, tijolo, madeira e palha, sua visão sobre o que significa fazer vinho em harmonia com a natureza.
Plešivica, localizada ao sul dos montes Žumberak, tem uma história marcada pela resistência. Durante o regime socialista da antiga Iugoslávia, pequenos produtores de vinho eram proibidos de vender comercialmente, favorecendo grandes cooperativas estatais. Após a independência da Croácia nos anos 1990, a região reviveu e atualmente conta com mais de 100 vinícolas familiares em 2.300 hectares de vinhedos.
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A família Tomac tornou-se pioneira neste cenário. Em 2006, inspirados pelo lendário produtor friulano Josko Gravner – amigo do pai de Tomislav Tomac –, importaram ânforas georgianas de barro (qvevri) e as enterraram no solo para fermentar vinhos pelo método ancestral. Foram os primeiros na Croácia a adotar esta técnica milenar e, segundo relatos, os primeiros no mundo a criar um espumante pelo método tradicional fermentado em ânfora. Em 2018, deram um passo adiante: em parceria com o consultor italiano Michele Lorenzetti, um dos maiores especialistas em biodinâmica, converteram todos os 9 hectares de vinhedos para a agricultura biodinâmica, tornando-se a única vinícola biodinâmica certificada da Croácia.
Quando os arquitetos do escritório Dva Arhitekta (os veteranos Tomislav Ćurković e Zoran Zidarić, que colaboram desde 1992) visitaram Donja Reka, vilarejo rural nos arredores de Jastrebarsko, encontraram um terreno repleto de memória: um celeiro de madeira centenário e um estábulo de paredes de tijolo com 100 anos. Essa arquitetura vernacular, construída com os materiais da terra, tornou-se a inspiração fundamental para todas as decisões de projeto.
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A solução encontrada foi organizar a adega em um eixo vertical, onde cada piso corresponde a uma etapa do processo de vinificação e a um material construtivo específico. A lógica é clara: da terra às alturas, do peso à leveza, do mineral ao vegetal.
No nível mais baixo, totalmente enterrado, está a adega em concreto armado bruto. A planta em L abriga as ânforas georgianas (qvevri) enterradas no solo e as barricas de carvalho de grande porte (2.000 a 3.000 litros). O concreto, com sua massa térmica e beleza tectônica, cria as condições ideais de temperatura e umidade para o envelhecimento dos vinhos.
No térreo, emerge uma caixa retangular de paredes duplas: estrutura interna em concreto armado – visível apenas no interior – revestida externamente por alvenaria de tijolos. É neste volume que se encontram as grandes barricas de madeira. O tijolo, material tradicional das construções rurais da região, estabelece o diálogo com a paisagem e com a história local.
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Sobre a caixa de tijolos do térreo, ergue-se uma estrutura de madeira laminada que forma um sótão destinado à secagem de produtos agrícolas. As ripas de madeira maciça que formam a vedação lateral remetem diretamente aos antigos celeiros de Plešivica. No topo do edifício, coroando o conjunto, está um jardim de cobertura (roof garden) circundado por um telhado de palha em todos os lados. Neste jardim suspenso, cultivam-se plantas biodinâmicas.
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Nas palavras dos arquitetos: “Cada elemento espacial é completado e definido por seu próprio material construtivo, e por nada além dele mesmo. Cada um dos materiais utilizados se desenvolve em profundidade; sua superfície não é o fim”. O concreto envelhece expondo seus agregados, o tijolo ganha pátina com as chuvas e o sol, a madeira escurece e racha com o tempo, a palha se transforma. São materiais que evoluem, assim como os vinhos que amadurecem nas barricas e os vinhedos que se aprofundam no solo.
A escolha dos materiais não é apenas estética ou funcional: é uma declaração de princípios. Os arquitetos utilizaram cada material construtivo em sua naturalidade. Concreto bruto, tijolo aparente, madeira sem tratamento químico, palha colhida localmente. Nada de revestimentos, pinturas ou acabamentos industrializados.
O edifício de 679 m² foi concebido para se integrar ao ecossistema que o cerca: o riacho próximo, a floresta, os vinhedos em forma de anfiteatro nas encostas. A presença de um jardim biodinâmico no telhado não é decorativa: as plantas cultivadas ali (calêndula, camomila, urtiga, valeriana, dente-de-leão) são utilizadas nos preparados biodinâmicos aplicados nos vinhedos, fechando o ciclo entre arquitetura, agricultura e natureza.
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A adega Tomac é, no fundo, uma materialização de filosofia. Se o vinho biodinâmico é a expressão máxima do terroir sem interferências, a arquitetura de Dva Arhitekta é a expressão máxima dos materiais sem artifícios. Se o vinhedo biodinâmico é um organismo vivo que respira e evolui com as estações, o edifício também o é: seus materiais envelhecem, transformam-se, respiram.
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