Gattinara DOCG revela uma das interpretações mais autênticas da Nebbiolo, unindo história, terroir vulcânico e um renascimento recente no norte do Piemonte

por José Renato Camilotti
No passado, em uma equação cujas variáveis fossem “Piemonte” e “Nebbiolo”, o resultado seria igual a Gattinara DOCG. Isso mesmo! Hoje talvez esquecido ou ofuscado atrás das cortinas da popularidade de Barolo DOCG e Barbaresco DOCG, o vinho baseado em Nebbiolo produzido em Gattinara foi considerado por muitos anos a mais autêntica expressão de prestígio da uva Nebbiolo no Piemonte.
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Sua fama, segundo reza a lenda, tem origem no século XVI, quando o Cardeal Mercurino Arborio, Marquês de Gattinara e Chanceler Imperial, teria pessoalmente apresentado o vinho à corte de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano. O resto é história. O prestígio do vinho teria durado imaculado até o final do século XIX, quando, não coincidentemente, seus “rivais” Barolo e Barbaresco emergiram para ocupar o espaço que hoje ocupam.
Mas se a fama do vinho de Gattinara teve origem na corte do imperador, a tradição da vitivinicultura na região é bem mais antiga, precedendo a chegada dos romanos à península. Aliás, segundo crença local, o nome Gattinara remontaria a origens romanas, quando o procônsul Quintus Lutazio Catulus fez uma oferenda aos deuses por uma vitória militar perto de Vercelli, erguendo ali um altar, em italiano, a Ara di Catulo, e na língua anciã, “Catuli Ara”, vernáculo do qual derivaria a palavra Gattinara, que batizaria a cidade e o vinho.
Gattinara DOCG se localiza no extremo norte do Piemonte, na margem esquerda do rio Sesia, entre as cidades de Novara e Vercelli, na borda nordeste da região conhecida como Alto Piemonte; um relevo de uma série de montanhas abrigam os limites de Gattinara DOCG, com altitudes que variam entre 200 e 500 metros e solos de diferentes composições e proporções de cascalho, areia e argila, com porções ricas em ferro.
As origens vulcânicas são evidenciadas na composição do subsolo, com granito e rochas ígneas. As principais influências climáticas da região são os lagos Maggiore e Orta, cuja proximidade causa efeito moderador nas temperaturas. Nas regiões mais altas, a amplitude térmica diária é maior, e o ar frio proveniente dos Alpes causa a baixa das temperaturas.
Na região do Alto Piemonte, a rainha é a Nebbiolo, ou, “Spanna”, como é conhecida localmente. Com a composição de influências climáticas e topográficas da região, cultivar a Nebbiolo não é algo, digamos, naturalmente tranquilo. A maturação tardia dessa variedade de uva e, portanto, a necessidade de tempo e condições de temperatura favoráveis aos amadurecimentos sacárico, fenólico e dos compostos aromáticos, torna o cultivo da Spanna um desafio constante para os produtores de Gattinara.
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Exatamente por isso, e diferentemente de seus vizinhos famosos mais ao sul, a Nebbiolo normalmente é “temperada” com menores proporções de Croatina, Vespolina e também de Uva Rara (Bonarda Novarese), variedades que auxiliam os vinhos a serem mais palatáveis e suavizam a potência e robustez da Nebbiolo. A arte de “temperar” o vinho com as três uvas ganha importância principalmente em safras mais frias, quando o ponto ótimo de amadurecimento da Nebbiolo pode não ser atingido.
O emergir da era moderna de Gattinara é recente. Foi apenas em 1990 que a região passou a ser uma DOCG e, mesmo assim, dizem que foi mais por causa de uma espécie de homenagem ao seu passado do que a um reconhecimento da qualidade de seus vinhos à época.
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Atualmente, Gattinara possui cerca de 100 hectares de vinhedos, os quais, por exigência das regras da DOCG, apenas podem ser plantados nas encostas mais ensolaradas da região, normalmente com exposições ao oeste e sudoeste, para potencializar a captação de luz e calor das tardes e ajudar no processo de maturação da Nebbiolo.
A evolução e o domínio das técnicas de viticultura e vinificação, somado a essa topografia e relevo da região (mais a composição do solo), garantiram à Gattinara as condições para seu ressurgimento na condição de região de maior prestígio do Norte do Piemonte quando se trata do cultivo da Nebbiolo.
Mesmo sem possuir o mesmo nível de mapeamento que Barolo, com suas 181 MGAs (Menzioni Geografiche Aggiuntive) e seus prestigiosos Briccos ou Sörì, certos vinhedos singulares em Gattinara são conhecidos por produzirem alguns dos melhores Nebbiolos de toda a região, como os vinhedos de “Osso San Grato”, “Castelle” e “Molsino”. Dentre os produtores, vale a menção para Travaglini (com suas garrafas sui generis), Nervi e Paride Iaretti.
As regras da DOCG exigem que o vinho seja feito com o mínimo de 90% de Nebbiolo e o restante do “tempero” pode ser composto indistintamente por Croatina, Uva Rara e Vespolina, essa última limitada a 4% do total do blend.
Os requisitos de estágio e maturação são exigentes com os produtores. São necessários no mínimo 35 meses de amadurecimento, incluindo 24 meses de estágio mínimo em carvalho. Para os vinhos rotulados como Riserva, os requisitos são ainda mais rígidos: 47 meses de amadurecimento com o mínimo de 36 meses em carvalho.
Como todo Nebbiolo, o vinho de Gattinara precisa de tempo, ou melhor, o tempo lhe faz muito bem. A garrafa é parceira do vinho e serve para amenizar o fervor e potência varietal da uva. As regras da DOCG são ajustadas para que a os primeiros anos da juventude dos Gattinara transcorra dentro da garrafa, mas não há mal em dar-lhes tempo adicional, uma vez que os Gattinara costumam se caracterizar por uma evolução mais vagarosa que seus vizinhos do Alto Piemonte.
A acidez mais afiada que seus vizinhos do Langhe, ao sul, e os taninos muito abundantes, conferem a estrutura necessária para que os vinhos possam ser esquecidos na adega. Assim, com paciência, os vinhos proporcionarão um encontro delicioso entre os aromas típicos como a violeta e as frutas vermelhas vívidas, com as sensações terciárias que somente a maturidade pode revelar, como o chão de floresta (sous-bois), o alcatrão e o couro, em uma interação de complexidade que vale a pena conferir.