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    A Torre do Novo Mundo: onde a complexidade africana reinterpreta a alma de Bordeaux

    De Toren combina inspiração bordalesa, solos ancestrais e precisão para criar grandes vinhos na África do Sul

    Os 25 hectares de vinhedos  da De Toren repousam sobre  solos com 540 milhões de anos,  mapeados em 15 tipos distintos
    Os 25 hectares de vinhedos da De Toren repousam sobre solos com 540 milhões de anos, mapeados em 15 tipos distintos

    por Arnaldo Grizzo

    Em 1991, nas encostas voltadas para o sul das Colinas de Polkadraai, um casal de Joanesburgo contemplava uma vista que mudaria para sempre sua vida e o panorama dos vinhos sul-africanos. Emil e Sonette den Dulk, frustrados com a vida corporativa na metrópole, buscavam um novo propósito. Quando chegaram àquela propriedade e viram a Table Mountain a oeste, a False Bay ao sul e as montanhas de Stellenbosch a leste, souberam que haviam encontrado algo extraordinário.

    Não sabiam ainda, mas estavam diante de um dos terroirs mais antigos do planeta. Ali, sob seus pés, dormiam solos de granito cuja origem remonta a 540 milhões de anos. Era sobre essa base ancestral que Emil e Sonette construiriam não apenas uma vinícola, mas uma filosofia inteira de como reinterpretar os conceitos bordaleses sob o sol africano.

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    O nome De Toren - “a torre” em holandês - não foi escolhido por acaso. Quando a propriedade ficou pronta em 1994, Emil den Dulk apresentou à África do Sul a primeira adega totalmente operada por gravidade do país. No coração da estrutura, uma torre ergue-se para o céu, abrigando um sistema de elevação com um tanque de pressão de 4.000 litros que permite movimentar o vinho entre tanques e barricas sem o uso de bombas mecânicas.

    “Acreditamos que a atenção detalhada que damos aos nossos vinhedos e ao processo de vinificação se reflete em nosso vinho”, explicaria Emil anos depois. Graças a esses métodos de intervenção mínima, De Toren esteve entre os primeiros engarrafamentos sul-africanos a se qualificar para a certificação IP (Produção Integrada) pelo Wine and Spirit Board.

    Inspiração bordalesa

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    Mas a verdadeira revolução estava nos vinhedos. Em parceria com acadêmicos da Universidade de Stellenbosch, Emil embarcou em uma análise de solo sem precedentes: uma dúzia de “calicatas” foram cavadas em cada hectare da fazenda - três vezes o padrão da indústria vinícola. O resultado revelou 15 tipos distintos de solo espalhados pelos 25 hectares da propriedade.

    A abordagem de Emil era filosófica: os vinhos foram desenhados antes de uma única cepa ser plantada. Ele decidiu criar dois blends icônicos - um ao estilo Margem Esquerda de Bordeaux, dominado por Cabernet Sauvignon, e outro Margem Direita, com protagonismo do Merlot. Só então as vinhas foram plantadas para corresponder à composição desses vinhos.

    Vinte e cinco clones diferentes foram distribuídos pelas cinco nobres variedades bordalesas - Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Malbec e Petit Verdot - combinados com 10 porta-enxertos distintos, cada qual meticulosamente pareado ao tipo de solo ideal. “É como pintar”, diria mais tarde Albie Koch, o enólogo contratado quando ainda tinha pouco mais de 20 anos. “Cada textura, aroma e sabor é uma cor diferente. Nossa paleta é feita de solos, porta-enxertos, videiras, cultivares e barricas.”

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    De Toren também inovou ao confiar exclusivamente a uma equipe de mulheres o cuidado e a colheita dos vinhedos. As vindimas acontecem nas horas frescas da manhã, por no máximo 2 a 3 horas diárias. Antes mesmo da colheita começar, até 40% dos cachos são removidos para garantir que toda a energia da videira vá para a produção de bagas pequenas e altamente concentradas.

    O rendimento é baixo: uma videira De Toren produz pouco mais de um quilograma de uvas. Usando uma combinação de imagens aéreas, análise detalhada e testes de degustação, o vinhedo é colhido lote por lote, garantindo que as uvas sejam colhidas apenas no amadurecimento ideal.

    As uvas são vindimadas nas horas  frescas da manhã por equipe  exclusivamente feminina
    As uvas são vindimadas nas horas frescas da manhã por equipe exclusivamente feminina

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    Fusão

    A primeira safra chegou em 1999, e o Fusion V - nome que celebra a fusão das cinco variedades bordalesas - catapultou De Toren entre os críticos. A safra inaugural recebeu muitos elogios e ajudou a colocar a África do Sul no mapa vitivinícola do começo do novo milênio. As safras seguintes só fizeram aumentar a reputação.

    O Fusion V, dominado pelo Cabernet Sauvignon, nasce dos solos ricos em cascalho - os tipos Klapmuts, Escorts, Vilafonté e Tukulu’s, onde seixos de arenito são visíveis na camada superior. Expostos ao sol quente da tarde, esses vinhedos sofrem estresse hídrico controlado através de irrigação por gotejamento monitorada por testes de pressão foliar de última geração.

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    Já o De Toren Z - lançado em 2004 e pronunciado “Zee” - é o tributo ao vento Zephyr que sopra das brisas oceânicas. O nome também vem de “Zuid”, sul em holandês, uma homenagem à importância dos ventos frios do oceano. Plantado em solos mais ricos em argila (Tulula e Pinedene), que retêm mais água e nutrientes, o Merlot encontra aqui seu terroir ideal. Os vinhedos olham diretamente para o sul recebendo as brisas oceânicas que baixam a temperatura e proporcionam um período de amadurecimento mais longo.

    Além de Bordeaux

    A busca pela excelência levou De Toren além das fronteiras bordalesas. O Book XVII surgiu como evolução lógica dos aclamados blends, uma expressão de vinificação meticulosa e viticultura extrema. Frequentemente comparado aos Super Toscanos, foi eleito um dos três vinhos mais luxuosos da África do Sul.

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    The Black Lion representou a primeira incursão oficial da equipe para além de Bordeaux: um Shiraz 100%. As uvas vêm de três regiões - Swartland, Stellenbosch e Helderberg - com a combinação de terroirs adicionando complexidade.

    Albie Koch, aquele jovem de Stellenbosch que em 1998 foi contratado quando a propriedade ainda se chamava Kleine Uitzicht Wines, permaneceu por mais de duas décadas criando vinhos que são expressões do terroir único de De Toren. Em 2008, Charles Williams juntou-se à equipe como enólogo assistente, depois de completar seu BSc Agri em Viticultura e Enologia na Universidade de Stellenbosch. Em 2011, tornou-se enólogo principal e, em 2019, assumiu como Cellar Master.

    Martin Fourie, que se juntou em 2016 como assistente e tornou-se enólogo em 2019, completa o triunvirato que hoje comanda a criação dos vinhos. “A vinificação é um processo natural, então não acredito que se deva dominar a identidade de um vinho com técnicas enológicas”, explica Charles. “Os vinhos devem refletir o terroir diverso e o cuidado extremo que dedicamos ao solo, às videiras e ao processo de vinificação.”

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    O legado

    Hoje, nas mesmas encostas que encantaram Emil e Sonette den Dulk há mais de três décadas, os vinhedos continuam a produzir alguns dos vinhos mais celebrados da África do Sul. Cada garrafa carrega consigo não apenas a expressão de solos com 540 milhões de anos, mas também a visão pioneira de um casal que ousou repensar Bordeaux sob o sol africano.

    “A verdade está na videira” - as palavras simples gravadas nas paredes da sala de degustação subterrânea de De Toren resumem a filosofia que elevou esta vinícola boutique a um dos produtores mais respeitados da África do Sul. É uma filosofia de cuidado excepcional, de atenção obsessiva aos detalhes, de respeito profundo pelo terroir ancestral.

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