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    Além das isotermas: como os vinhos foram parar fora da “zona tradicional”?

    Da Escandinávia aos trópicos, técnica e mudanças climáticas redesenham as fronteiras da viticultura

    Vitivinicultura
    A área plantada na Inglaterra multiplicou-se por cinco em duas décadas

    por Júlio César Kunz

    Na minha primeira visita à Suécia, ainda num vinhedo experimental, o professor Michel Bourqui – condutor da visita técnica e fundador do Master da OIV – lançou uma provocação irônica: “Quando vocês vão começar a produzir azeite de oliva?” A piada envelheceu depressa. Hoje, a vitivinicultura escandinava é uma realidade: há vinhedos na Noruega, dezenas de produtores na Suécia e até uma denominação de origem na Dinamarca.

    Desde que a videira saiu do Cáucaso, ela se adaptou a inúmeros climas – mas foi no Mediterrâneo que floresceu por milênios. Oriente Médio, Norte da África, Grécia, Itália, Península Ibérica e o sul da França foram o berço clássico do vinho. Na Borgonha, os primeiros vinhos de prestígio vieram do Mâconnais; São Gregório de Tours já descrevia, no século VI, a Côte Chalonnaise como “produtora de excelentes falernos (termo que indicava um vinho de grande qualidade)”, limite setentrional da viticultura de qualidade.

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    Champagne, com sua insolação restrita, foi a última grande região francesa a ser plantada. Até meados do século XI, o vinho de referência ainda era mediterrâneo. Quem estudou enologia no fim dos anos 1990 aprendeu que as isotermas – faixas de temperatura média – definiam os limites da viticultura mundial. Hoje, essa ideia desmorona. O clima mudou e a técnica também. A latitude 45°, que corta Bordeaux, cruza igualmente Washington State, nos Estados Unidos; dois terroirs radicalmente distintos.

    Quente e frio

    No hemisfério sul, o Brasil vem redesenhando esse mapa desde os anos 1980. O Vale do São Francisco, antes visto com desdém, consolidou uma viticultura tropical vigorosa, complementada pela produção de inverno no Sudeste, que implodiu teorias do século XIX. Essas técnicas já inspiram iniciativas em países como Índia e Angola. O professor Alain Carbonneau, de Montpellier, definiu o vale como “o maior laboratório vitícola a céu aberto do mundo”. E com razão: se a técnica empurra os limites para os trópicos, o aquecimento global os empurra para os polos.

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    Na Escandinávia, a videira encontrou novo lar. A Dinamarca já soma cerca de 175 hectares de vinhas e seis indicações geográficas, incluindo uma denominação de origem exclusiva para espumantes elaborados pelo método tradicional, com uvas resistentes a doenças. A Suécia tem perto de 200 ha, com destaque para a ilha de Gotland, e na Noruega apenas dois produtores comercializam oficialmente. Em escala global, parece pouco; simbolicamente, é imenso. O frio, antes limite, passou a ser expressão de terroir. Variedades adaptadas, manejo preciso e microclimas favoráveis permitem vinhos elegantes, de estilo reconhecível.

    O sul da Inglaterra é outro exemplo eloquente. A área plantada multiplicou-se por cinco em duas décadas, alcançando 4.800 ha. Em 2024, o país produziu 10,7 milhões de garrafas, 69 % delas espumantes, majoritariamente com Chardonnay, Pinot Noir e Meunier – as mesmas castas de Champagne. A variação da produção anual é grande, mas o padrão qualitativo impressiona. Solos calcários e clima fresco conferem acidez vibrante, e a técnica do método tradicional garante precisão. A Inglaterra passou de curiosidade climática a candidata séria a ser referência em vinhos espumantes.

    Nos trópicos, a Índia e Angola mostram o outro extremo dessa expansão. Em regiões como Maharashtra e Tamil Nadu, viticultores indianos aplicam a técnica de dupla poda para ajustar o ciclo da videira e colher em períodos menos quentes ou chuvosos. É a mesma lógica da viticultura tropical brasileira: encontrar a janela ideal de maturação. Já em Angola, na província do Namibe, o Vale do Bero cultiva videiras com duas colheitas anuais – prática ainda pouco relatada na região, mas que simboliza o avanço da viticultura em latitudes antes inimagináveis.

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    Brasil

    No Brasil, essa revolução técnica é concreta. O manejo da dupla poda e a colheita no inverno seco trouxeram ganhos consistentes em concentração, cor e equilíbrio. No Vale do São Francisco, há vinhedos com mais de quarenta anos e mais de cem colheitas realizadas. O país, que antes lutava para provar que podia produzir vinhos de qualidade, hoje exporta conhecimento – e inspira soluções para produtores europeus em adaptação climática. A viticultura brasileira deixou de ser exceção para se tornar referência.

    Definir o cultivo da videira por faixas de isotermas foi útil para compreender a Europa clássica até os anos 1980. Agora, essa cartografia perdeu sentido. A nova fronteira combina terroir, genética, manejo e momento climático. A Escandinávia mostra que o frio pode ser terroir; a Inglaterra, que o Atlântico pode gerar elegância; o Brasil, Índia e Angola, que o calor pode ser domado. A videira, afinal, continua sendo a planta mais viajante do mundo: muda de latitude, de estação e de estilo, mas nunca deixa de contar a história do homem tentando compreender o tempo – o do clima e o da vida.

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