Com o avanço do programa WASP, a região portuguesa busca reconhecimento global, enquanto o setor cobra regras contra o greenwashing e maior transparência nas certificações

por Redação
A região portuguesa do Alentejo pretende consolidar-se como referência mundial em sustentabilidade no setor vitivinícola, impulsionada pelo Wines of Alentejo Sustainability Programme (WASP).
No entanto, especialistas alertam que o crescimento de selos e certificações sem regulação unificada pode comprometer a credibilidade das iniciativas e abrir espaço para o greenwashing.
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O tema foi debatido em 20 de outubro, em conferência realizada no Kew Gardens, em Londres, que reuniu representantes do programa e especialistas em sustentabilidade. O WASP, criado pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), é um projeto voluntário que orienta vinícolas a reduzir impactos ambientais e aprimorar a responsabilidade social.
Em entrevista ao The Drinks Business, o presidente da CVRA, Luís Sequeira, afirmou que a sustentabilidade é o principal diferencial competitivo da região e que o objetivo é colocar o Alentejo “na liga dos campeões do vinho” nos próximos cinco anos. Segundo ele, o governo deve exercer papel central na criação de estruturas regulatórias nacionais e internacionais que assegurem o valor das certificações e evitem distorções no mercado. “Um regulador global é uma necessidade urgente”, reforçou.
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Sequeira destacou ainda o papel dos investidores no fortalecimento do setor, observando uma tendência crescente de fundos e compradores que exigem relatórios ambientais e sociais antes de firmar contratos. Para ele, esse comportamento é um indicativo de que sustentabilidade e lucratividade podem caminhar juntas. “Estamos na vanguarda, mas precisamos que os investidores acompanhem esse movimento”, disse.
Durante o evento, a consultora Anne Jones afirmou que grandes redes varejistas já priorizam fornecedores com credenciais ambientais verificáveis. “Sem comprovação, muitas empresas sequer chegam à etapa de negociação”, observou. Apesar do avanço, ela alertou que a falta de entendimento técnico e o conflito entre metas ambientais e comerciais ainda dificultam a consolidação de práticas efetivas.
O coordenador de sustentabilidade da CVRA, João Barroso, chamou atenção para o uso superficial do termo “sustentabilidade”, que, segundo ele, perdeu precisão diante da multiplicação de certificações. “Há desconexão entre o discurso e a prática. Sustentabilidade é um conceito complexo, não se limita a água, energia ou resíduos”, afirmou. Barroso defendeu transparência e verificabilidade como únicas formas de evitar o greenwashing.
O professor Åke Thidell, da Universidade de Lund, concluiu que sustentabilidade e rentabilidade não são excludentes, mas complementares. Para ele, parcerias entre programas ambientais e universidades podem fortalecer a base científica das certificações e ampliar sua credibilidade global.