Biodinâmica: a teoria

Agricultura, poesia, superstição, ciência ou filosofia? Afinal o que é a biodinâmica? Um método agrícola que, além de polêmico, é praticamente desconhecido, mas que dá origem a vinhos famosos por todo o mundo


fotos: Lo Gu, Ales Cerin e Phillip Collier/StochX.chng

Do grego bio (vida), e dunamis (força); em português corrente, a biodinâmica andará pela "força da vida" e, numa visita ao dicionário de Língua Portuguesa, encontramos "teoria das forças vitais". Numa perspectiva lata, a biodinâmica é muito mais uma maneira de estar e sentir a agricultura e a vida como parte integrante de um ecossistema com extensão cósmica, do que propriamente uma ciência aplicada.

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Origens
Sua origem remonta ao primeiro quarto do século passado, quando um conhecido pensador espiritualista austríaco, Rudolf Steiner (1861-1925), já no fim da sua vida, resolveu dedicar oito famosas palestras antroposofóficas à agricultura. A antroposofia é uma doutrina fundada por Steiner que, com base da teosofia (Ciência de Deus) e em questões políticas, filosóficas e religiosas, procura refletir acerca da condição humana.

É, pois, na Europa Central, que nasce o movimento (ainda hoje é aí que ele tem maior expressão), numa época em que ninguém falava ainda de poluição atmosférica e hertziana, ou químicos de síntese. De qualquer modo, o seu impacto teve fortes seguidores no governo nazi, como Rudolph Hess ou mesmo Himmler que deu início ao jardim biodinâmico de Dachau. Curiosamente, o caso particular do vinho não consta nos pensamentos biodinâmicos de Steiner, que era abstêmio.

Muitas das práticas usadas na biodinâmica vêm de agriculturas primitivas proibidas pela Inquisição, por aludirem a bruxarias. Mesmo o próprio conceito de cosmo, era, ainda que só no campo lunar, seguido pelos nossos avós. Steiner reuniu e arrumou conceitos dando-lhes todo o lado filosófico e esotérico da questão.

A biodinâmica sente-se mais do que se explica. O tema central é o "ser humano", que aplica a sua agricultura em intenções espirituais baseadas numa verdadeira observação e cognição da natureza.

Em traços gerais, um verdadeiro agricultor biodinâmico deve constituir com a terra que trabalha, um organismo de identidade própria, onde a natureza (solo, plantas e animais) é diversificada e respeitada, mas também harmonizada e dinamizada ao ritmo das correntes terrestres e cósmicas. Deve ser também auto-sustentável, com os diversos setores (frutícola, hortícola, prados, floresta, matos e várzeas), a complementarem- se mutuamente num ciclo fechado de nutrientes. O agricultor deve compreender a essência da vida.


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TEORIA
Os estados da matéria

Os conceitos biodinâmicos não coincidem com os conceitos convencionais do pensamento moderno, cartesiano e sistemático. O fundamento ou alicerce de toda a ação biodinâmica é o solo. Para Nicolas Joly, conhecido viticultor do Loire e acérrimo defensor da biodinâmica, o conceito de terroir já não existe, e as DOCs ou AOCs não são mais que um grupo de números e atos controlados por um punhado de burocratas.

fotos: Lo Gu, Ales Cerin e Phillip Collier/StochX.chngO mundo de hoje, com recurso às mesmas técnicas e aos mesmos produtos químicos, está condenado não só à uniformização dos vinhos (sejam eles franceses, australianos, búlgaros ou brasileiros), como também à perda de qualidade que só poderá ser em parte reconquistada à custa da manipulação da natureza.

Como ponto de partida para o lamentável estado da natureza, está a destruição da vida dos solos em poucos anos com a utilização abusiva de herbicidas (e outras práticas como a desinfecção dos solos). Com o solo morto, juntaram-lhe adubos, foliares ou não, e outras correções; com isso, as plantas enfraqueceram e as pragas avançaram, o solo degradou-se e a fauna o abandonou.

O solo representa nesta doutrina o "estado mineral" que, na planta, é representado pela raiz, de força centrípeta absorvedora. A água é obviamente o "estado aquoso" que é representado pelas folhas e seiva. O "estado gasoso" é subdividido no "estado da luz" representado pela flor (de força centrífuga, com o pólen e odores) e o "estado calor" representado pelo fruto. Da interação dos quatros estados, resultam as forças descendentes (parte subterrânea) e ascendentes (parte aérea) das plantas e do equilíbrio surge a harmonia biodinâmica. Todas as plantas possuem uma força dominante. No caso da videira, por suas raízes atingirem muitos metros de profundidade, a força dominante é descendente.

Os quatro reinos
Em biodinâmica são considerados 4 reinos - o mineral, o vegetal, o animal e o humano. O mineral é, em termos absolutos, desprovido de vida; o vegetal e animal dependem fortemente um do outro, e o homem, ser vertical e absolutamente livre, é o chefe da orquestra, equilibrando e dinamizando ambos os reinos do qual ele faz parte integrante e necessária.

Num organismo biodinâmico ideal, o agricultor otimiza os recursos naturais: as pastagens e plantações alimentam os animais que, por sua vez, dão alimento ao homem (leite, carne, ovos) e produzem excrementos sólidos e líquidos que, acrescidos de restos animais e vegetais da área, fermentam aeróbicamente (compostagem) gerando húmus - o melhor fertilizante de solo. É também o agricultor que, a partir de "preparados" e "tisanas" especiais, atua sobre o solo vivificando- o em vez de o fertilizar.


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fotos: Lo Gu, Ales Cerin e Phillip Collier/StochX.chng

Homeopatia X Alopatia
De Hipocrates, o médico alemão Samuel Hahnemann, retirou os ensinamentos para a nova ciência do século XVIII, que consiste em prescrever a um doente, sob uma forma muito diluída e dinamizada, uma substância capaz de produzir num sujeito saudável efeitos semelhantes aos que aquele apresenta. A idéia base é de tratar o mal com um produto que origina um mal semelhante. A isopatia vai um pouco mais longe e procura curar um mal com uma solução muito diluída do produto que causou esse mesmo mal.

Do lado oposto, a alopatia, precursora da medicina convencional, trata o mal com remédios que provocam efeitos contrários aos da doença. Aqui, o organismo não é estimulado, mas, pelo contrário, o remédio substitui seu sistema de defesa. À medida que o organismo e doença ganham resistência a esse remédio, ou as doses aumentam ou recorre-se a outro remédio.

Os planetas
A biodinâmica possui uma base espiritual que transcende as restantes práticas agrícolas na sua expressão exclusivamente material. Os antroposofistas acreditam em forças desconhecidas e ocultas.

Enquanto o cidadão comum aceita sem discussão a influência do planeta Sol na vida da Terra e com certa reserva à influência da Lua, em biodinâmica acredita-se que cada momento cósmico tem uma qualidade particular para a planta e que, em agricultura, não podemos contar apenas com o microcosmos que nos envolve com luz e calor, mas também com o macrocosmos, o conjunto de esferas concêntricas (órbitas), onde se exprime todo o sistema solar e suas interações. O macrocosmos, desde a sua formação, tem relações estreitas com os estados da matéria terrestre. Além disso, o alinhamento dos planetas com a Terra nunca se repete exatamente da mesma maneira.

Para o viticultor biodinâmico, interessam fundamentalmente a interação de Saturno e Mercúrio com as forças do calor (fruto), Jupiter e Vênus com as forças da luz (flor) e Marte e a Lua com as forças da água (folhas). Para simplificar, os planetas mais distantes - Urano, Netuno e Plutão - são voluntariamente deixados de parte.

A teoria de geocentrismo faz da Terra o centro do Universo. Assim, se tivermos dois "planetas de calor" diametralmente opostos à Terra, com a Terra no meio, sobre a mesma linha reta, os seus efeitos são reforçados. A esta situação chama-se "oposição" e qualquer ato agrícola ou dinamização (sobre as folhas ou solo), vai favorecer as "forças de frutificação" da planta.

Quando se trata de dois "planetas de água", o efeito máximo será concentrado nas folhas e, do mesmo modo, nos "planetas de luz", o efeito máximo atuará sobre flor. Pelo contrário, quando os dois planetas em causa estão na mesma linha, mas do mesmo lado da Terra, a situação é chamada de "conjugação" e qualquer ato agrícola constituirá um fator de forte perturbação para as plantas.

(*texto cedido pela Revista de Vinho - Portugal)

João Afonso*

Publicado em 13 de Fevereiro de 2006 às 09:56


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Artigo publicado nesta revista