Calor e seca reduziram as uvas e devem acentuar diferenças entre os vinhos produzidos em 2026

por Redação
A safra de 2026 em Bordeaux foi a mais quente dos últimos 133 anos, superando inclusive anos marcados por temperaturas elevadas, como 2003 e 2022. Dados divulgados pela consultoria Sovivins, dirigida por David Pernet, mostram que calor intenso e falta de chuva afetaram o desenvolvimento das uvas e devem resultar em diferenças expressivas entre os vinhos produzidos na região.
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Entre maio e julho, as temperaturas máximas ultrapassaram 35°C em um de cada três dias. Como comparação, desde 2000 a média para todo esse período era de apenas 6,3 dias acima dessa temperatura. A diferença térmica em relação à média chegou a +5,4°C.
A chuva também ficou muito abaixo do habitual. Foram registrados apenas 54 mm entre maio e julho, diante de uma média de 141 mm — redução de 62%. Apesar disso, o acumulado anual chegou a 815 mm, indicando que um dos problemas foi a distribuição da água durante o ciclo da videira.
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Um dos reflexos mais claros apareceu no tamanho das uvas. As bagas de Cabernet Sauvignon apresentaram peso médio de 0,75 grama, aproximadamente metade dos 1,4 a 1,5 grama considerados normais. Bagas menores aumentam a proporção entre película e polpa, o que pode favorecer maior concentração de taninos, cor e aromas, mas também reduz a quantidade de suco disponível.
O resultado foi uma colheita de volumes historicamente baixos, os menores desde 1957, segundo a análise. A combinação entre menor rendimento e maior concentração, porém, não significa que todos os vinhos terão o mesmo desempenho, já que o nível de estresse sofrido pelas videiras variou consideravelmente.
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No final de agosto, algumas áreas de Bordeaux receberam até 60 mm de chuva. A água trouxe algum alívio às videiras mais afetadas pela seca e pode ter favorecido a retomada da maturação, especialmente em terroirs com boa drenagem, como os solos de cascalho do Médoc e os calcários de Saint-Émilion.
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Para David Pernet, justamente essa heterogeneidade deverá ser uma das principais características de 2026. A capacidade de cada propriedade de administrar a seca e as particularidades de cada terroir podem provocar diferenças importantes de qualidade entre os vinhos da safra.
O cenário também reacende a discussão sobre como Bordeaux deverá se adaptar a condições climáticas cada vez mais extremas. Entre as possibilidades estão irrigação, mudanças na densidade dos vinhedos e utilização de variedades mais adaptadas ao calor. Pernet, porém, recomenda cautela diante de alterações estruturais imediatas.
Segundo ele, embora 2026 represente um caso extremo e as tendências climáticas apontem nessa direção, a safra ainda não deve ser considerada a nova normalidade. O desafio passa também pelo manejo dos 815 mm de chuva registrados ao longo do ano, aproveitando melhor uma água que nem sempre chega no momento em que as videiras mais precisam.
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