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Como decifrar rótulos franceses?

Um guia para entender as informações dos rótulos de Bordeaux, Borgonha, Champagne, Rhône e Alsácia

Da redação em 7 de Fevereiro de 2019 às 17:00

Cada vez mais, os produtores de vinho têm deixado claras as informações nos rótulos, facilitando a vida do consumidor. Hoje, é difícil encontrar um produto que não especifique onde foi feito e com quais uvas e processos enológicos (passagem por barrica, por exemplo), além de muitas vezes ainda dar um resumo prévio do que o líquido dentro da garrafa pode oferecer em termos de aromas e sabores – isso sem contar possibilidades de harmonização, história da vinícola, tabela nutricional etc. Todos sabem que, quanto mais clara e direta a informação, mais segurança passa ao consumidor.

No entanto, isso é um fenômeno recente. Foi somente nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, que começou a moda dos rótulos que indicavam a variedade de uva usada no vinho. Até então, a maioria das garrafa vinha apenas com o nome do produtor, a região onde a bebida foi produzida e pouca coisa mais. Alguns até plagiavam nomes consagrados de vinhos franceses para tentar indicar qual seria o estilo de seus produtos. Não à toa, ainda hoje muita gente chama qualquer espumante de Champagne. Mas, foram os norte-americanos que começaram com a “onda varietal”, hoje tão enraizada nos vinhos do Novo Mundo.

Os europeus, apesar de tradicionalistas, aos poucos, vão aderindo a essa forma de rotular seus vinhos. No entanto, em alguns locais, a tradição (e, além dela, também a legislação) ainda fala mais alto, como na França, por exemplo. Lá, a maioria dos rótulos (clássicos) não apresenta nada mais do que o nome do produtor, a safra, a região, o volume alcoólico e, às vezes, uma classificação (Premier Cru, por exemplo).

Mas por que tanta simplificação? Primeiramente porque até muito pouco tempo atrás, ninguém se interessava em realmente saber como o vinho era feito, com quais uvas, com que processos. Depois, o que ficou consagrado com o tempo foram os estilos de vinhos de determinadas regiões – o terroir – e também de seus principais produtores. Ou seja, para os franceses, bastam informações básicas para que o consumidor já identifique o estilo da bebida – ou, ao menos, eles acreditam nisso.

Então, se você não está tão familiarizado com as uvas típicas e outras tradições de cada região, nem sempre vai conseguir identificar isso nos rótulos. Sendo assim, vamos analisar os rótulos de vinhos clássicos de cinco das principais regiões vitivinícolas francesas para tentar explicar o que você pode depreender deles.

Bordeaux

Bordeaux é sinônimo de Cabernet Sauvignon? Apesar de ser uma aproximação in - teressante, infelizmente, isso está longe da verdade. Bordeaux é a terra do blend, ou seja, dos vinhos feitos com mais de uma uva. Sim, a Cabernet Sauvignon costuma ter papel preponderante em muitos rótulos, contudo, há vários em que ela pode ser secundária ou sequer aparecer. As misturas podem ter Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot, Cabernet Franc, além de outras variedades. Dificilmente as proporções vão estar apontadas no rótulo ou contrarrótulo. Para saber, provavelmente será preci - so entrar no site do produtor. Uma dica: as denominações da margem direita (Pome - rol e Saint-Émilion, por exemplo) via de regra têm mais Merlot, enquanto as da margem esquerda (Médoc, St.-Estèphe, Graves, Pauillac, Margaux etc), mais Cabernet.

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1 - CLASSIFICAÇÃO – Algumas sub-regiões de Bordeaux possuem classificações próprias. A mais comum é a do Médoc, que divide os vinhos em cinco categorias de Grand Crus, dos Premier até os Cinquièmes. Já em Saint-Émilion, há apenas os Premiers Grand Cru (A e B) e depois os Grand Cru. Alguns vinhos possuem ainda a classificação de Cru Bourgeois, que viria logo abaixo dos Grand Cru.

2 - NOME DO VINHO E/OU PRODUTOR – Geralmente é o principal destaque do rótulo. Vale lembrar que nem sempre há a designação “Château”.

3 - REGIÃO E AOC – algumas das mais conhecidas são Pauillac, Sauternes, Médoc, SaintÉmilion, St.-Julien, Margaux, Pomerol etc.

4 - SAFRA

5 - NOME OFICIAL DO PRODUTOR OU NEGOCIANTE

6 - ONDE O VINHO FOI ENGARRAFADO

Borgonha

Na Borgonha, é muito mais simples identificar as variedades de uvas utilizadas. Se o vinho for tinto, ele será um Pinot Noir. Se for branco, será um Chardonnay. Em raros casos, Gamay (tinta) e Aligoté (branca) podem ser usadas, mas geralmente em sub-regiões específicas e, costumeiramente, estão apontadas nos rótulos. Os vinhos de Beaujolais, por exemplo, são produzidos com Gamay. As principais dú - vidas em relação aos vinhos borgonheses se dá em relação às classificações de seus vinhedos. Aqui, diferentemente de Bordeaux, quem recebe as classificações são os terroirs, não os proprietários. Confira uma explicação mais detalhada na imagem do rótulo de exemplo.

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1 - REGIÃO – Em um rótulo da Borgonha, geralmente o nome que terá maior destaque será o da região de origem do vinho. São várias e algumas das mais famosas são: Chablis, Beaune, Gevrey-Chambertin, Pommard, Meursault, Chambolle-Musigny etc.

2 - CLASSIFICAÇÃO – Os vinhos borgonheses são divididos em quatro categorias. Os Grand Cru são considerados os melhores vinhedos. Em seguida, vêm os Premier Cru. Ambos designam vinhedos muito específicos. Logo abaixo vem a classificação Villages – que determina vinhos de vinhedos não classificados dentro de uma mesma comuna. Por fim, há os vinhos regionais, cujos nomes geralmente vêm precedidos do termo “Bourgogne” (Bourgogne Hautes Côtes de Nuits, por exemplo).

3 - NOME DO VINHEDO ESPECÍFICO OU DA CUVÉE – Se o vinho for feito de um vinhedo específico, ele receberá seu nome. Se não, o produtor também pode batizar sua Cuvée como bem entender.

4 - SAFRA

5 - POR QUEM O VINHO FOI FEITO E ENGARRAFADO – Aqui é possível encontrar o nome de um produtor (pode ser um Domaine, uma Maison etc) ou um negociante.

Champagne

Quando tratamos de Champagne, também não é tão complicado desvendar quais foram as uvas utilizadas para elaborar a bebida. Tradicionalmente, a região usa apenas uma uva branca e duas tintas em seus vinhos: Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier. Eles quase sempre são blend entre as três e a proporção varia conforme o gosto do produtor. É possível que outras uvas sejam utilizadas, mas é extremamente raro. Mais comum é ver Champagnes feitos só com uvas brancas, os Blanc de Blanc, ou só com uvas tintas, os Blanc de Noir. Em Champagne também é menos comum vermos a safra estampada no rótulo, pois a maior dos vinhos, além de blend de variedades, são blends de safras. Raro também é ver alguma classificação estampada no rótulo, mas, assim como na Borgonha, os vinhedos de Champagne também são divididos entre Grand Cru e Premier Cru.

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1 - NOME DO PRODUTOR – Champagne é uma região famosa pelas grandes marcas, portanto, o que vai estar em destaque no rótulo é o nome do produtor.

2 - CLASSIFICAÇÃO DOS VINHEDOS – A maioria dos Champagnes tende a ser um grande blend: de variedades diferentes, de safras diferentes, de vinhedos diferentes. Ainda assim, os vinhedos são divididos em duas categorias: Grand Cru e Premier Cru. Quando as uvas provêm de vinhedos de uma única classificação, os produtores podem especificar isso no rótulo. Mas a maioria das grandes marcas não faz isso.

3 - CLASSIFICAÇÃO POR TEOR DE AÇÚCAR – A maioria dos Champagne são Brut, ou seja, tem de 6 a 12 gramas de açúcar por litro. No entanto, eles podem ser doux (com mais de 50 gramas), demisec (entre 32 e 50 gramas), sec (entre 17 e 32 gramas), extra dry (entre 12 e 17 gramas), extra brut (entre zero e 6 gramas) ou ainda podem ser definidos como “Brut nature”, “pas dosé” ou “dosage zero”, que são os espumantes que não levam dosagem e acabam com menos de 3 gramas de açúcar por litro.

4 - NOME DA CUVÉE OU ESTILO – Alguns produtores criam cuvées específicas usando apenas uvas brancas (Blanc de Blancs) ou tintas (Blanc de Noirs), e apontam isso no rótulo. Boa parte não o faz. Muitas cuvées recebem nomes de pessoas importantes homenageadas.

5 - POR QUEM E ONDE O VINHO FOI FEITO E ENGARRAFADO – Aqui é possível encontrar o nome de um produtor (pode ser um Domaine, uma Maison etc) ou um negociante.

6 - SAFRA – Os produtores tendem a criar espumantes safrados apenas quando acreditam que um ano foi especial. A maioria das garrafas, porém, não são safradas.

Rhône

Os rótulos dos vinhos do Rhône costumam ser muito heterogêneos, o que torna difícil definir padrões para desvendá-los. Mais complicado ainda é tentar adivinhar com quais uvas eles são feitos. Um Châteauneuf-du-Pape, por exemplo, pode ter até 18 variedades em sua composição. Ainda assim, para simplificar, podemos dizer que o Rhône ficou famoso por seus GSM (Grenache, Mourvèdre e Syrah), geralmente em blend. Essas são as três uvas mais usadas, mas será difícil saber quais e quanto sem conhecer o produtor. Seus vinhos e vinhedos também não possuem uma classificação como na Borgonha para determinar a qualidade. Ainda assim, existem pequenas diferenciações. Confira nos exemplos.

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1 - PRODUTOR

2 - REGIÃO E AOC – Tende a ser o nome mais destacado no rótulo. Junto ao nome da região pode haver uma pequena indicação de classificação, como Villages, por exemplo. Assim, há quatro classificações possível: Côtes du Rhône (a mais genérica da região), Côte du Rhône Villages, Côte du Rhône Villages acrescido do nome da vila e, por fim, os Cru, como Hermitage ou Châteauneufdu-Pape, por exemplo.

3 - SAFRA

4 - POR QUEM O VINHO FOI FEITO E ENGARRAFADO

Alsácia

Enfim uma região francesa em que estampar o nome da uva no rótulo é comum. Melhor ainda, o sistema de classificação separa apenas os vinhedos Grand Cru dos “comuns”. Certamente isso é um alívio, mas logo surgem alguns “enigmas”. Um deles é a questão do grau de açúcar residual do vinho. Apesar da influência alemã, aqui a maioria dos vinhos são secos. Poucos rótulos ainda apresentam um estilo “off-dry” (levemente adocicado), a boa parte feito com Pinot Gris ou Gewürztraminer. Alguns produtores têm colocado até escalas de “doçura” nos contrarrótulos para facilitar o entendimento dos consumidores. O segundo “desafio” são os rótulos onde aparecem as palavras “Gentil” ou “Edelzwicker”, por exemplo. Na Alsácia, os vinhos permitidos pela AOC são monovarietais, porém alguns blends são permitidos e levam os nomes citados anteriormente. Outro ponto a ser destacado são os estilos Vendange Tardive (colheita tardia) e Sélection de Grains Nobles (Seleção de Grãos Nobres), vinhos feitos com uvas botrytizadas e, consequentemente, doces.

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1 - NOME DO VINHEDO

2 - CLASSIFICAÇÃO DO VINHO E AOC – Apenas 51 vinhedos são classificados como Grand Cru. Os vinhos de fora deles levam o nome Appellation Alsace Contrôlée.

3 - NOME DO PRODUTOR – Costumeiramente o que há de mais destacado.

POR QUEM E ONDE O VINHO FOI ENGARRAFADO

SAFRA – Nem sempre aparece no mesma parte do rótulo, podendo estar em um filete acima.

ESTILO DO VINHO – geralmente só indicado para os Vendange Tardive ou Sélection de Grains Nobles.

4 - VARIEDADE DA UVA – Indica a cepa de um vinho monovarietal. Há quatro uvas consideradas “nobres” na Alsácia: Riesling, Gewürztraminer, Muscat e Pinot Gris. No entanto, os vinhos podem ter ainda Sylvaner, Chasselas, Pinot Noir (a única tinta) etc.

TERMOS COMUNS ENCONTRADOS NOS VINHOS FRANCESES

AC, AOC, AOP OU APPELLATION CONTRÔLÉE: nada mais é do que “Denominação de Origem Controlada”, ou DOC, e indica a qual denominação (região) este vinho pertente.

BLANC: “branco”.

BRUT: “seco”.

CHÂTEAU: o mesmo que “castelo”, um termo muito usado em Bordeaux para designar um produtor.

CLOS: um vinhedo murado, muito comum na Borgonha.

CÔTE: significa “colina” e, às vezes, vinhos de qualidade superior.

CRÉMANT: nome dado a todo vinho espumante que não é Champagne.

CRU: o mesmo que vinhedo. Os Crus Classés são vinhedos classificados, com qualidade superior.

CUVÉE: um tradução possível seria “cubado”, ou seja, a quantidade de vinho de uma cuba. O termo pode significar um blend ou então uma seleção especial.

DEMI-SEC: “meio-seco” DOMAINE: “domínio”, seria as propriedades de um produtor. Termo geralmente usado por viticultores da Borgonha.

DOUX: “doce”.

GRAND CRU: costumeiramente costuma designar a mais alta classificação de vinhos ou vinhedos de uma região.

IGP OU INDICATION GÉOGRAPHIQUE PROTÉGÉE OU VIN DE PAYS: vinhos com indicação geográfica, estão acima dos “Vin de France”, pois são feitos em locais delimitados, mas abaixo dos AOC em termos de classificação, pois não obedecem normas tão rígidas.

MAISON: “casa”, designa o produtor do vinho.

MÉTHODE TRADITIONNELLE: “método tradicional” para a fabricação de espumantes, ou seja, com segunda fermentação em garrafa.

MILLÉSIME: safra.

MIS(E) EN BOUTEILLE PAR/POUR: diz por quem o vinho foi engarrafado. Se ele foi engarrafado pelo próprio produtor, geralmente a frase será precedida por “proprieté”, “Château” ou “Domaine”.

NÉGOCIANT: “negociante”, geralmente aquele compra uvas, mostos ou vinhos de outros produtores e revende sob sua marca.

RÉCOLTE: safra.

ROUGE: “tinto”.

SUPÉRIEUR: termo pouco usado, mas que representa vinhos com maior teor alcoólico e, às vezes, também de qualidade superior.

VENDANGE TARDIVE: colheita tardia.

VENDANGE: safra.

VIEILLES VIGNES: vinhas velhas.

VIGNERON: “viticultor”.

VIGNOBLE: vinhedo.

VILLAGES: sufixo usado para denotar um vinho feito em um determinada área delimitada, muito usado na Borgonha.

VIN, VIN DE FRANCE, VSIG OU VIN SANS INDICATION GÉOGRAPHIQUE: são os vinhos mais básicos, conhecido por “vinho de mesa”.


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