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    Estrela guia: trajetória de Joanna Foster reflete a filosofia dos vinhos que produz na Stella Crinita

    Saiba mais sobre o nome por trás de uma das mais respeitadas vinícolas de vinhos naturais e biodinâmicos do país

    Joanna Foster
    Joanna Foster

    por Arnaldo Grizzo

    Joanna Foster é inglesa de nascimento, mas sua história é tão multicultural quanto os vinhos que produz. Com raízes familiares que incluem a Índia, passou pela Malásia e pelo Reino Unido antes de se estabelecer definitivamente na Argentina, onde, ao lado do marido Ernesto Catena (sim, membro de uma das mais tradicionais famílias vinícolas argentinas), criou, em Vista Flores, a Stella Crinita, uma das mais respeitadas vinícolas de vinhos naturais e biodinâmicos do país.

    Fundada em 2017, a Stella Crinita nasceu de uma paixão compartilhada pelo casal pelos vinhos naturais e pelos valores de justiça social e ambiental que sempre nortearam a vida de Joanna. Geógrafa de formação com foco em gestão ambiental sustentável, ela trabalhou por anos com ONGs e comunidades antes de encontrar no vinho uma forma de unir agricultura, comunidade e alimentação saudável. O vinhedo, plantado em 2002 na sub-região de Vista Flores, em Tunuyán, no Vale do Uco, é certificado biodinâmico pela Demeter desde 2012 e produz vinhos sem adição de sulfitos, com fermentação espontânea e mínima intervenção – características que se tornaram a assinatura da casa.

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    Conte um pouco sobre sua origem no vinho. Sei que é muito rica culturalmente...

    Eu sou inglesa, nasci em Londres, estudei geografia com foco sobre o sul da Ásia, com toda a intenção de ir para a Índia e trabalhar lá. Tinha uma fascinação com algo chamado “social forestry” e queria trabalhar com comunidades dependentes, povos originários. Meu pai é indiano e por isso senti essa conexão, esse desejo. Justo quando estava terminando meus estudos, conheci Ernesto, iniciamos uma relação e terminei na Argentina. O voo que era para a Índia foi para o sul, para a Argentina. Então, na Argentina, comecei a trabalhar em uma ONG, com comunidades, com projetos de acesso à saúde, trabalhando com o meio ambiente. E fui acompanhando o vinho e conhecendo o vinho através de Ernesto.

    Como foi esse encontro com Ernesto e em que ano?

    LEIA TAMBÉM: Quanto duram os vinhos naturais?

    Foi no ano de 1995. Nos conhecemos em Londres, na casa de um amigo. Eu chegava de uma viagem da Índia, estava na casa do meu vizinho, que era meu melhor amigo, e lá tinha um rapaz que também havia chegado da Índia alguns dias antes, que era Ernesto. Ele estava em trânsito, voltando para a Argentina, e nos apaixonamos. Ele foi ficando, ficando... Ficou cinco anos! Depois de cinco anos voltamos para a Argentina, perto do ano 2000, já com um filho e outro em caminho.

    Foi Ernesto que começou a trazer vinhos naturais para casa?

    Sim. Nós, na época, já tínhamos iniciado a propriedade que temos há 25 anos, e há quase 20 anos começamos a trabalhar com agricultura biodinâmica, que foi e continua sendo uma aprendizagem. Então eu estava muito curiosa e interessada na agricultura, mas não me envolvia com o vinho. Quando Ernesto começou a trazer vinhos naturais para casa, foi como um momento de transição. Comecei a tomar esses vinhos com ele, gostamos muito, começamos a provar vinhos naturais de distintos lugares, começamos a viajar conhecendo distintos produtores. Me encantou! Me dei conta de que o vinho natural, para mim, vincula tudo: a agricultura, a comunidade e o conceito de poder consumir alimentos saudáveis. Eu considero o vinho um alimento, não só uma bebida alcoólica. Sem dúvida, está imerso em cultura e tradição.

    LEIA TAMBÉM: Cartilha para produzir vinho natural

    E como começaram a trabalhar com esse foco para criar Stella Crinita?

    Imagine: os vinhos em sua história eram majoritariamente naturais, não? Então começamos uma busca de ver como podemos fazer vinhos naturais de altíssima qualidade – considerando que trabalhamos de uma forma muito pura no vinhedo, na propriedade. Eu sempre fui muito visionária, não sei se é a palavra, mas eu coloco meus objetivos vindos de um desejo, de um impulso, não tão intelectual. Acredito que podemos conseguir isso. Então começamos um caminho de fazer vinho. Com boa experiência, em 2017 começamos a Stella Crinita, e pouco tempo depois já comecei a liderar este projeto.

    Vocês cresceram muito desde então...

    LEIA TAMBÉM: Qual a diferença entre os vinhos biodinâmicos, naturais e orgânicos?

    Temos crescido muitíssimo, tivemos muito boas experiências. Trabalhamos majoritariamente com uvas da propriedade, biodinâmicas. Temos uma horta selvagem, silvestre, grande. Temos abelhas, praticamos apicultura e temos muitos espaços espontâneos e silvestres, corredores, totalmente integrados na propriedade.

    O objetivo, realmente, da agricultura biodinâmica é tratar de acompanhar a natureza e manter a biodiversidade. Conceitualmente, entendendo que essa biodiversidade vai te dar um equilíbrio. Você tem muitas espécies convivendo, interagindo e produzindo uma estabilidade, uma resiliência. Sinto que isso se transladou aos vinhos também. São vinhos bastante estáveis. Não usamos nada, nem sulfitos.

    E essa decisão de não usar sulfitos, foi desde o início?

    LEIA TAMBÉM: Sulfitos. O que são, de onde vêm, para onde vão? E eles são realmente os vilões do vinho?

    Não sou uma pessoa totalmente contra o uso de sulfitos, mas comecei provando sem sulfitos e sigo trabalhando sem sulfitos desde 2017.

    Como foi seu trajeto até assumir a enologia?

    No meu caminho pessoal, venho trabalhando com um enólogo, estudei vinho no WSET, e logo comecei a colocar minhas mãos porque me interessa fazer vinho. Então agora faço vinho, cada vez com mais independência, tomando decisões sozinha. É muito apaixonante, é maravilhoso.

    LEIA TAMBÉM: Por que alguns vinhos dão dor de cabeça?

    Os primeiros vinhos que fez sozinha foram com qual projeto?

    Temos uma vinícola pequena que se chama L’Orange, em Chacras de Coria, em uma escala muito menor. Este ano produzimos 6 mil litros e é um luxo. Esta “bodeguinha” é um luxo porque temos recipientes muito belos: ovos de concreto franceses, qvevris da Geórgia, ânforas italianas, ânforas espanholas e barricas. É muito belo, é uma escala humana na qual você pode realmente ver o dia a dia. É um bom espaço para aprender e crescer. Sem dúvida, coloquei minha marca nesses vinhos trabalhando com Alejandro Kuschnaroff, nosso enólogo. No começo, Alejandro me dizia: “Não, não se pode fazer assim”. E eu: “Mas eu quero fazer assim!” Fomos aprendendo com a experiência. Tudo é tentativa.

    Quando Ernesto começou a se interessar por vinhos naturais, como foi? Ele vem de uma família tradicional...

    LEIA TAMBÉM: Conheça o conceito de ‘açúcar residual’

    Ernesto gosta de vinhos muito vivos, que falam, que não sejam sempre iguais, que expressam seu viticultor, seu vinhedo, seu terroir. Ele gosta de vinhos que podem se expressar. Ele é uma pessoa que busca algo que desperte os sentidos. Então ele começou a trazer vinhos para casa. Às vezes era muito bom, às vezes era toda uma experiência nova. Sempre digo às pessoas quando começam a tomar vinhos naturais e estão acostumadas com vinhos muito convencionais: seu paladar, sem dúvida, já está adaptado a esse padrão de sabores e aromas. Então é um caminho de transição. Uma vez que você o caminha, começa a encontrar tanta diversidade, tantos sabores, tantas expressões diferentes. Talvez não goste de todos, talvez um vinho não seja sempre igual, vai mudar ano a ano, porque realmente tem que ser diferente todos os anos. Temos um contexto diferente todos os anos, que se expressa.

    Quando vocês começaram na Argentina, como era? Já havia uma cena de biodinâmica ou de vinhos naturais?

    Ernesto foi uma das primeiras pessoas a começar com a agricultura biodinâmica, com um assessor, porque queria trabalhar em sua propriedade de uma forma diferente. Sempre quis animais, não queria só um vinhedo de monocultura. Desde o princípio plantou com caminhos amplos no meio, com muito espaço para outras plantas. A primeira reação era: “Que desperdício! Não está aproveitando toda a sua terra, tem que plantar tudo”. Ele introduziu a biodinâmica a outros produtores, a muitos enólogos que, no princípio, não entendiam nada. Não estavam preparados, estavam presos em seu mindset. Há uma formação e você tem fórmulas para elaborar um vinho ou para trabalhar a terra. De repente, alguém vem com outro paradigma e te diz que não, não é por aí. Por muitos anos, Ernesto não dizia que era biodinâmico quando exportava para os Estados Unidos. Hoje já é algo natural... não natural, mas é algo muito mais comum, tanto na Argentina como na América do Sul, do que era. Aqui antes não se falava. Mas na Europa sim. Encontramos grandes produtores de vinhos da França, da Alemanha, da Itália, e descobrimos que são biodinâmicos. A agricultura biodinâmica tem apenas 100 anos. É novo, mas é uma leitura pensada e conceitualizada com base em tradições e conhecimentos muito ancestrais. Desde Rudolf Steiner, há um conhecimento biológico, científico, físico, químico e também espiritual. Então há uma compreensão de que não estamos isolados, todos estamos conectados. Nós, a terra, a uva, um inseto, há uma conexão. A ciência cada vez mais se aproxima dessa compreensão.

    Clique aqui e assista a entrevista completa no YouTube da ADEGA

    Confira os vinhos de Stella Crinita avaliados por ADEGA:

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