Método milenar de cultivo reaparece como resposta à seca, ao calor e à padronização dos vinhedos modernos

por Raquel Poleto Fonseca
Entre as imagens mais singulares da viticultura, poucas são tão emblemáticas quanto a de uma videira conduzida em gobelet, alberello, ou bush vine, nomes distintos para a mesma prática ancestral, herança que atravessou milênios e ainda hoje sobrevive em regiões que desafiam o calor, a seca e o vento.
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O tronco baixo, os braços abertos em forma de taça, a copa que se fecha como abrigo natural, tudo nesse sistema parece favorecer a planta, para que encontre, sozinha, seu equilíbrio. É um método que não nasceu em manuais de agronomia moderna, mas de séculos de observação paciente, de agricultores que aprenderam a ler o ritmo da natureza e a respeitar seus limites.
O alberello é provavelmente o mais antigo método de condução conhecido, praticado desde os tempos da Grécia Antiga, descrito por autores como Columela e Catão, presente em mosaicos e afrescos que retratavam a vida agrícola. Nas terras secas do Mediterrâneo, esse sistema se adaptava ao clima: o tronco baixo reduzia a exposição do cacho ao vento, a copa em forma de taça sombreava o solo e protegia os frutos da insolação excessiva. Em regiões como Sicília, Sardenha e Puglia, na Itália, ou Priorat e Jumilla, na Espanha, o alberello era sobrevivência.
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Como observou Telmo Rodríguez, pioneiro na valorização das variedades nativas espanholas, em uma entrevista à Decanter: "apenas bush vines com raízes profundas podem lidar com a seca sem ajuda". Em seus vinhedos de Fuentemolinos, na Ribera del Duero, bush vines centenárias de Tinto Fino sobrevivem em um platô a 1.100 metros de altitude, resistindo meses sem chuva no terreno ressecado.
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A lógica é simples: menos intervenção, mais resiliência. Com espaçamentos largos, raízes que podiam mergulhar fundo em busca de água e um manejo sempre manual, essas vinhas construíam sua própria longevidade. É por isso que tantas bush vines centenárias resistem em lugares de difícil mecanização, desafiando o tempo.

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A experiência de Telmo Rodríguez ilustra perfeitamente como as bush vines representam mais do que técnica vitícola: são símbolo de resistência cultural. Quando ele e seu sócio Pablo Eguzkiza começaram seu projeto enológico nos anos 1990, reagiam contra os plantios massivos de Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Merlot que dominavam a Espanha nas décadas de 1980 e 1990. "No norte, as autoridades de Navarra destruíram uma das mais belas áreas vinícolas da Espanha ao arrancar antigas bush vines em favor do que consideravam variedades internacionais mais 'nobres'", relembra Rodríguez.
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Seu primeiro vinho, Alma, feito em 1994 com uvas Garnacha de bush vines compradas de uma cooperativa em Navarra, desafiou preconceitos. "Até então, a Garnacha era considerada uma variedade inferior. Nunca era vinificada sozinha, exceto para fazer rosado" O sucesso comercial do Alma permitiu-lhes comprar seu primeiro vinhedo e provar que variedades nativas em condução tradicional podiam produzir vinhos de qualidade.
Do ponto de vista técnico, a condução em taça privilegia a autossuficiência da planta, permitindo que cada videira encontre seu próprio equilíbrio vegetativo. Sem a padronização dos cordões dispostos em linhas, cada pé é um organismo individual, e o vinhedo passa a ter uma estética quase caótica, mas viva, irregular, onde cada planta é resultado da interação entre solo, clima e poda. A ausência de arames e de condução vertical limita a mecanização, mas confere um aspecto artesanal inevitável: tudo é feito à mão, da poda à colheita, o que intensifica a relação entre viticultor e videira.
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A diferença fundamental entre bush vines e sistemas de treliça reside na dimensionalidade do crescimento. Como explica o viticultor Rob Mann, de Swinney Vines na Austrália, "uma bush vine cresce em três dimensões, enquanto uma videira VSP [vertical shoot positioning] cresce em duas dimensões. Com bush vines, há ar e espaço para respirar. É como estar numa churrasqueira rotativa, em vez de numa frigideira". Essa analogia ilustra como a forma livre permite maior circulação de ar e exposição mais equilibrada ao sol, criando condições de maturação mais uniformes.
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Certas variedades, como Grenache e Mourvèdre, demonstram aptidão natural para esse tipo de crescimento, dispensando o suporte de estacas e arames que caracterizam os sistemas de treliça. Essa adaptabilidade não é acidental: essas castas evoluíram em regiões onde a condução livre era norma, desenvolvendo estrutura suficiente para sustentar seus próprios galhos e cachos sem apoio externo.
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As bush vines exigem colheita manual, com múltiplas passadas durante a temporada para garantir que cada cacho e cada uva amadureçam em nível ótimo, como demonstra a experiência em Swinney. É, como admitem seus próprios praticantes, "uma forma cara de cultivar uvas", mas que, quando recebe a atenção adequada, proporciona maturação uniforme, maior suavidade e frescor.
A viticultura moderna, voltada para escala, por muito tempo desprezou esse sistema. O gobelet foi associado a baixa produtividade, custos altos e dificuldade de manejo. Mas em tempos de mudanças climáticas, o que era visto como atraso voltou ao centro da conversa. O formato baixo protege contra ventos quentes, o dossel compacto ajuda a conservar umidade, o espaçamento reduz a competição por água, e o equilíbrio natural da planta dispensa irrigações em muitos contextos. Não por acaso, regiões como o Vale do Swartland, na África do Sul, onde a seca é realidade constante, estão redescobrindo no bush vine uma resposta de futuro, ainda que nascida no passado.
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Na África do Sul, onde o bush vine foi introduzido pelos colonizadores holandeses e depois expandido no século XIX, a tradição encontrou um novo capítulo. Uma parcela significativa de vinhas, originária do Cabo, é de velhas bush vines, em especial em Swartland. O Old Vine Project, iniciativa dedicada a mapear e preservar vinhedos com mais de 35 anos, já identificou cerca de 3.700 hectares de vinhas antigas, muitas delas em bush vine, com destaque para o Chenin Blanc, que sozinho responde por mais de 2.200 hectares.
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Ali, o que antes era apenas uma adaptação às condições locais de clima e solo se transformou em patrimônio cultural e vitivinícola. Shiraz, Chenin Blanc, Cinsault e Grenache são algumas das castas que mais se beneficiam dessa condução, resultando em vinhos de concentração intensa, mas que ao mesmo tempo mantêm frescor e elegância.
Se o bush vine é símbolo de resiliência no sul da África, o alberello atinge quase uma aura de heroísmo nas encostas do Monte Etna, na Itáli. Ali, em Tenute Mannino e em tantas outras regiões do Etna, o sistema é mantido em condições extremas: inclinações íngremes, solos vulcânicos negros, altitudes que ultrapassam mil metros. Não há como mecanizar, cada tarefa é manual, cada poda é feita no compasso do olhar humano. As estacas de castanheiro sustentam as plantas, muitas com mais de cem anos de idade.
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É viticultura heroica não apenas pela dificuldade, mas pela persistência: produzir vinhos nesse contexto é resistir ao tempo e à geografia. O resultado são uvas de intensidade rara, capazes de traduzir no vinho a mineralidade e a tensão do solo vulcânico, a amplitude térmica da montanha, a dramaticidade do clima.
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Se o Etna traduz o heroísmo, Pantelleria é a prova de que o alberello pode ser patrimônio. O sistema, reconhecido pela Unesco como herança imaterial, sustenta a Zibibbo, nome siciliano para a uva Moscato de Alexandria, base dos famosos passitos da ilha. A produção é pequena: a Pantelleria DOC engarrafa em média 9.600 hectolitros por ano, mas carrega a marca de um trabalho feito manualmente em condições adversas, numa ilha onde o vento nunca descansa.
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Santorini, por sua vez, adota a forma mais dramática do bush vine: a kouloura, onde a videira se enrola em círculo rente ao chão, abraçando os cachos contra o vento meltemi. A ilha possui cerca de 1.200 hectares de vinhedos com rendimentos baixíssimos que revelam a tenacidade das vinhas velhas de Assyrtiko. Não é coincidência que a Unesco e o governo grego também defendam sua preservação.
Hoje, em tempos de vinhedos globalizados, de linhas perfeitamente alinhadas em espaldeiras mecanizáveis, o bush vine apresenta-se quase como um manifesto. Escolher essa forma de condução é reivindicar uma relação diferente com a terra, mais lenta, menos padronizada, mais artesanal. É aceitar a irregularidade, a imprevisibilidade e até mesmo a menor produtividade em troca de maior tipicidade dos vinhos.
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Talvez por isso tantos produtores, na Europa, na África, na Austrália e mesmo em alguns projetos no Novo Mundo, estejam redescobrindo a sabedoria contida nesse sistema. Não se trata apenas de nostalgia, mas de estratégia: frente às mudanças climáticas, o bush vine se mostra adaptável, sustentável, resiliente.
Em última instância, essa forma ancestral nos lembra que a viticultura não se limita às estruturas padronizadas, mas abriga soluções diversas, algumas quase esquecidas, que ainda encontram sentido em determinados contextos.
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O gobelet, o alberello e o bush vine não são modelos universais nem fórmulas de produtividade, mas exemplos de como práticas antigas podem dialogar com desafios atuais, como o calor extremo, a seca e a busca por identidade. Mais do que nostalgia, eles mostram que há diferentes caminhos possíveis, e que, muitas vezes, a resposta para o futuro pode estar guardada em técnicas que nasceram no passado.