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    Guia para decifrar os nomes e siglas em uma garrafa de Champagne

    Saiba mais sobre o rótulo da bebida que é ícone cultural, símbolo de glamour, luxo, celebração, conquistas e sucesso

    Champagne

    por José Renato Camilotti, DipWSET, FWS, IWS

    Champagne há muito deixou de ser apenas uma região no nordeste da França ou simplesmente um vinho espumante. É um ícone cultural, símbolo de glamour, luxo, celebração, conquistas, sucesso, além de inúmeros outros adjetivos que poderiam ser aqui lembrados.

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    Mas quando nos perguntam o que estamos bebendo, será que podemos simplesmente dizer que estamos bebendo “uma garrafa de Champagne”? A resposta pode ser mais complexa do que parece. E muito mais prazerosa.

    Que estilo de champagne?

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    À margem de seu esplendor e de suas românticas histórias e estórias, as regras da AOC Champagne (1936) e a tradição de seus produtores e de suas “Maisons” nos fornecem um verdadeiro mapa de degustação, que nos ajudam a entender, compreender e, principalmente, valorizar e melhor aproveitar o que há dentro de uma garrafa de Champagne.

    A cor: Branco, Rosé e algo mais...

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    A primeira, mais óbvia e visual diferença é entre Champagnes brancos e rosés. A explicação começa na viticultura. Há sete uvas autorizadas para a elaboração de Champagne: as variedades brancas Chardonnay, Pinot Blanc, Petit Meslier e Abane; as tintas Pinot Noir e Meunier e, para muitos uma variedade considerada rosa, a Pinot Gris. Isso proporcionará quatro estilos de Champagne:

    • Blanc de Blanc (vinhos brancos feitos exclusivamente de uvas brancas);
    • Blanc de Noir (vinhos brancos feitos exclusivamente de uvas tintas);
    • Rosés, que são feitos basicamente por dois métodos, Rosé d'assemblage (mistura de vinhos base brancos com cerca de 10 a 20% de tintos, antes da fermentação em garrafa) e Rosé de saignée (feito com uma breve maceração das cascas da Pinot Noir e da Meunier) e, por fim, os
    • Blends, são vinhos brancos feitos à partir de qualquer das variedades autorizadas.

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    A origem das uvas: escala de qualidade

    A AOC Champagne permite que se faça o vinho espumante mais famoso do mundo em 319 vilarejos, distribuídos em diferentes regiões (Montagne e Vallée de Reims, Vallée de la Marne, Côte des Blancs, Côte de Sezanne e Côte des Bar).

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    Dentre esses vilarejos, 42 são classificados como Premier Cru e 17 como Grand Cru. Portanto, pode-se falar em uma escala de qualidade, a depender da origem das uvas.

    Vinhedos localizados em quaisquer dos 42 vilarejos autorizam a elaboração de Champagnes Premier Cru, assim como os 17 Grand Cru, e a classificação certamente aparecerá no rótulo do vinho.

    LEIA TAMBÉM: O que torna Champagne uma região especial?

    Champagne

    De uma maneira geral, a classificação indicaria hierarquia de qualidade dos vinhos, mas a verdade que na região de Champagne, o prestígio do produtor ou da Casa (Maison) pode falar mais alto.

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    De qualquer forma, há três tipos de Champagne quanto à classificação de seus vilarejos: Champagnes (sem indicação no rótulo, com uvas de qualquer lugar da AOC), Champagnes Premier Cru (uvas provenientes de quaisquer um dos 42 vilarejos), e Champagnes Grand Cru (uvas provenientes de quaisquer um dos 17 vilarejos. Os dois últimos contarão com indicação nos rótulos.

    Adicionalmente, quando um Champagne é produzido com uvas provenientes à partir de um único Vilarejo, é comum serem classificados como um Single Cru. Normalmente são vilarejos Grand Cru ou Premier Cru, e os seus rótulos geralmente apontarão qual é a origem, como no vinho Krug Clos du Mesnil, do vilarejo Le Mesnil-sur-Oger (Grand Cru). Estamos falando de uma categoria de Champagne que é adjetivada como uma das mais exclusivas e prestigiadas do planeta.

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    Os Single Vineyards

    Ainda mais específicos são os Champagnes feitos de vinhedos específicos. Embora incomum e de certa forma raros, há certos vinhedos, que gozam de prestígio suficiente para que suas uvas sejam direcionadas à produção de um Champagne específico, garantindo a máxima expressão de terroir. São vinhos de parcelas, vinhos de vinhedo.

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    Um exemplo que ajuda a compreensão das diferenças que tratamos até agora é o Champagne Egly-Ouriet Les Crayères Blanc de Noirs Grand Cru: o produtor é Egly-Ouriet, as uvas são 100% Pinot Noir (Blanc de Noir) provenientes de uma parcela específica chamada "Les Crayères", um vinhedo localizado no vilarejo de Ambonnay, classificado como Grand Cru.

    As Safras e as Multissafras em Champagne

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    Quanto às safras, temos uma especificidade da região de Champagne. A regra é que não haja vinho safrado, ou, de uma forma mais específica, que haja várias safras dentro de uma mesma garrafa. Essa á uma característica histórica da região.

    Seja por necessidade climática (prevenir perdas futuras), consistência, volume, estilo do produtor, ou quaisquer outros motivos que ora não nos cabe aprofundar, a imensa maioria das garrafas de Champagne vendidas todos os anos (cerca de 300 milhões) são produtos de blends de vinhos, de diferentes safras, que são objeto de armazenamento separadamente pelos produtores (vinhos reserva) ao longo dos anos.

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    Trata-se de uma imposição legal do Comitê Champagne, órgão regulador da produção. Por exemplo, na safra de 2023, o rendimento máximo fixado de uvas foi de 11.400 kg/ha, permitindo-se que os produtores adicionassem cerca de 3 kg/ha para elaboração de suas reservas.

    Essa característica faz com que a regra seja a elaboração dos Champagnes Non-Vintage (NV), que representam cerca de 75% do mercado e que são a expressão do estilo da casa; o trabalho do Master Blender ou Chef de Cave de cada Maison é avaliar, testar, degustar, misturar os diferentes vinhos das diferentes safras para atingir o estilo da casa, entregando consistência e previsibilidade ao consumidor.

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    Conceito oposto aos NV são Champagne Vintage (safrados). No passado, eram expressão de uma safra perfeita (em termos de condições climáticas, qualidade de uvas etc.); hoje, com o aquecimento global e novas tecnologias aplicadas à viticultura, são cada vez mais comuns. O ano da safra aparecerá no rótulo, e, por serem exceção e expressão de condições particulares de uma safra específica, gozam de prestígio e normalmente atingem preços mais altos que os NV.

    Todo Champagne NV é, tecnicamente um Multi-Vintage. Aliás, esse conceito (não regulado e não oficial) é utilizado por alguns produtores para destacar as diferenças de seus vinhos Multi-Vintage em relação aos NV padrão.

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    Enquanto os NV seriam reveladores do estilo e da consistência da casa, os Multi-Vintage destacariam características específicas de cada safra, combinando-as para atingir um resultado que seria vinho que pudesse revelar as diferentes caraterísticas marcantes de cada uma das diferentes safras utilizadas.

    E por fim, ainda podemos nos referir ao Champagnes elaborados com o conceito de Réserve Perpétuelle, na qual o Champagne é elaborado a partir de uma reserva que se renova anual e “eternamente”; o vinho da reserva perpetua é mantido em recipientes em que a cada ano o produtor retira uma certa quantidade para a elaboração do vinho do ano e reabastece a mesma quantidade com o vinho da safra mais recente.

    LEIA TAMBÉM: Três histórias de champagne

    Os vinhos armazenados, portanto, serão uma complexa mistura de inúmeras safras. Ao longo do tempo, as safras vão se acumulando em diferentes proporções, sem jamais se “esgotarem” e o Champagne NV daquele ano será a expressão da “memória” de todas as safras que já estiveram nos recipientes da reserva perpétua.

    Os “Produtores” de Champagne

    Champagne

    Um dos mais “escondidos” códigos em uma garrafa de Champagne está no par de letras que deve aparecer em seus rótulos e rolhas, e que passam desapercebidos pela maioria dos consumidores, por desatenção, ou simplesmente por não terem tido, até o momento, a oportunidade de saber o que significam. E podem significar muito.

    As duas letras são uma particularidade do mercado de vinhos da AOC Champagne e designam as diversas camadas dos agentes econômicos participantes desse mercado, dependendo da função que eles exercem, e que podem dizer muito sobre o vinho. Observe o rótulo ou a rolha para encontrar NM, RM, RC, SR, CM, MA e ND.

    Négociant Manipulant (NM) é o produtor que compra uvas de terceiros, no mercado ou de viticultores sob contrato, podendo também utilizar-se de vinhedos próprios para elaboração do Champagne. Todas as grandes casas de Champagne são NM, desde as aclamadas Krug, Louis Roederer, Bollinger e Pol Roger, até as mais “populares” Moët & Chandon, Veuve Clicquot, Piper-Heidsieck, G.H. Mumm e Lanson.

    Récoltant Manipulant (RM) é um produtor que controla todo o processo. Possui vinhedos próprios, não compra uvas de terceiros, cuida pessoalmente da viticultura e de toda a vinificação, envelhecimento e armazenamento do Champagne em sua propriedade, muitas vezes artesanalmente. São conhecidos como “Growers Champagnes” ou também propriétaire récoltant. Egly-Ouriet e Jacques Selosse são exemplos consagrados de RM.

    Récoltant Coopérateur (RC) são viticultores associados a uma adega cooperativa em um modelo em que eles entregam suas uvas para vinificação e recolhem as garrafas prontas para serem vendidas sob rótulo específico do viticultor.

    Société de Récoltants (SR) normalmente um grupo ou associação de viticultores que vinificam em conjunto e elaboram vinhos que serão vendidos por uma ou mais marcas (rótulos) que pertencem à coletividade.

    Coopérative de Manipulation (CM) é uma adega que vinifica a uvas de seus produtores cooperados, em um clássico modelo de adega cooperativa, vendendo Champagne sob a marca ou marcas da cooperativa.

    Marque d'Acheteur, Marque Auxiliaire ou Marque Autorisée (MA) o clássico conceito de “private label”, ou seja, é uma marca ou rótulo registrado para uma pessoa ou empresa, e designado para venda exclusiva para seus clientes, parceiros ou membros, podendo ser um supermercado, um restaurante etc. O vinho em si mesmo pode ser produzido por um NM, RM, RC, SR ou CM.

    Négociant Distributeur (ND) Normalmente um distribuidor que atua com suas próprias marcas. O negociante adquire o vinho pronto e engarrafado e vende o Champagne sob sua marca ou marcas para diversos canais de distribuição do mercado.

    Algo mais de prestígio...

    Alguns produtores ou casas de Champagne utilizam-se de diferentes Cuvées ou Cortes para designar o melhor vinho feito em seu estilo. São os Champagne Prestige Cuvée.

    Normalmente, é o melhor disponível em termos de viticultura (as melhores uvas disponíveis, vinhedos específicos, parcelas específicas, vinhas velhas etc.) e vinificação (mais tempo em contato com as lias, vinificação e/ou estágio dos vinhos base em barricas, mais tempo de armazenamento, os melhores vinhos reserva etc.), tudo para ser um símbolo do que há de melhor no estilo da casa.

    A Maison Louis Roederer produz o Cristal, a Veuve Clicquot faz La Grande Dame, a Moët & Chandon elabora o Cuvée de Prestige Dom Pérignon e a Pol Roger tem o famoso Cuvée Sir Winston Churchill, por exemplo.

    E ainda falta uma sigla!

    RD é outro par de letras que pode aparecer nos rótulos de Champagne. É o sinal que revela um estilo cada vez mais prestigiado, admirado e desejado de Champagne, os "Récemment Dégorgé" ou “Late Dirgorged” em inglês.

    Geralmente são vinhos com um longo tempo de envelhecidos sobre lias (sur lie) variando entre 10, 15, 20, 30 anos. Após esse prolongado estágio são degorjados e colocados imediatamente no mercado para apreciação dos consumidores.

    A técnica, aliada à qualidade das uvas e cuidado na vinificação é capaz de produzir o melhor de dois mundos: grande complexidade pelo tempo de envelhecimento (cogumelos, trufas, mel, especiarias, nozes torradas etc.) e intenso frescor, acidez e muitas borbulhas, cortesia da proteção oxidativa do contato com as leveduras.

    Pureza é a palavra, são vinhos com baixa dosagem para evitar que o açúcar mascare o caráter do Champagne. Brut Nature e Extra Brut são o estilo comum. Credita-se à criação do estilo à Maison Bollinger, que na década de 1960, utilizou o mais icônico e prestigiado vinho da casa, o Champagne La Grande Année, aplicando sobre ele o envelhecimento prolongado sobre as lias, para, seguidamente, realizar o dégorgement e lançá-lo ao mercado.

    O sucesso fez com que o estilo fosse replicado por praticamente todas as casas de Champagne. Alguns exemplos são a Moët & Chandon, que utiliza seu Prestige Cuvéé Dom Pérignon para produzir os Plenitude 2 (P2 – de 15-20 anos de envelhecimento) e Plenitude 3 (P3 – cerca de 30 anos). A Louis Roederer produz os Cristal Vinothèque (cerca de 20 anos de envelhecimento). A Veuve Clicquot produz o Cave Privée com safras muito antigas, da coleção privada da casa.

    A resposta

    Enfim, quando consideramos tudo que uma garrafa de Champagne pode nos proporcionar, prazer e complexidade são apenas alguns aspectos. A degustação pode ser atenta e técnica, experimentando e testando cada nuance dos elementos que tratamos aqui; mas também pode ser descompromissada, alimentada pela alegria de uma celebração ou conquista, por um encontro ou reencontro.

    Cada garrafa de Champagne, com seu rótulo, nomes, siglas, carrega em si a história do vinho, das pessoas que o fizeram e de como o fizeram. São como nós, que carregamos nossas marcas, alegrias, tristezas, conquistas, perdas, enfim, tudo o que nos define. Por isso, quando penso em Champagne, sempre me lembro da frase atribuída a Lily Bollinger: "Eu bebo Champagne quando estou feliz e quando estou triste. Às vezes, bebo quando estou sozinha. Quando tenho companhia, considero-o obrigatório. Brinco com ele se não estiver com fome e bebo quando estou. Fora isso, nunca toco nele – a menos que esteja com sede.”

    A seguir, confira os melhores Champagnes degustados por ADEGA até R$ 2.000:

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