Geração após geração, Krug se transformou no sinônimo do que é o blend de Champagne
por Arnaldo Grizzo

Outras casas de Champagne certamente possuem mais "lendas" do que a Krug. Algumas Maisons ganharam fama por serem preferidas por reis e rainhas ou outras celebridades mundo afora. A Krug também esteve em diversas mesas de monarcas e festas glamorosas de artistas e milionários (como a família real inglesa, nas recepções do ex-presidente francês François Mitterrand e de Coco Chanel); no entanto, boa parte de sua notoriedade se deve ao seu champagne agradar especialistas.
Há seis gerações, a família Krug tem feito um produto sempre igual. A cada ano, o blend usa cerca de 50 vinhos das três variedades permitidas em Champagne (Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier) de seis a 10 safras diferentes, de 20 a 25 vinhedos.
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A primeira fermentação se dá em pequenos barris de carvalho de 205 litros (diz-se que é a única casa que faz esse processo) e o envelhecimento em garrafa segue por longos seis anos, geralmente. Tudo isso para, a cada ano, seu champagne ser lançado sempre com o mesmo estilo que o fundador da casa criou: uma cor dourada, um buquê extravagante e textura quase cremosa, com fruta madura, notas tostadas e de avelãs e um final de grande frescor.

Reza a lenda que Johann-Josef Krug, um imigrante alemão, aportou em Champagne em meados do século XIX. Ele começou trabalhando na Maison Jacquesson e, depois de sete anos, tornou-se sócio de Adolphe Jacquesson. Já em uma posição confortável na empresa, em 1841, casou-se com a cunhada de Adolphe, Anne Jaunay, e, um ano depois, deixou a casa em Chalon-sur-Marne para criar sua própria companhia.
Em Reims, ele começou a trabalhar com Hippolyte de Vivès e, em 1843, fundou a Maison Krug. Desde o início, Johann-Josef era extremamente meticuloso com a assemblagem dos vinhos que iriam compor seu champagne, e diz-se que sua técnica única de identificar e juntar os vinhos base foi passada de geração para geração cuidadosamente e foi sempre um membro da família Krug o responsável por montar os blends de cada safra desde então, assim como determinar quando os vinhos deveriam ser lançados no mercado.
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Seis gerações se passaram desde Johann-Josef e seu savoir-faire manteve-se praticamente intacto. Assim, seu vinho, sempre com o mesmo estilo, conquistou especialistas do mundo todo devido ao seu caráter único e alcançou o status de lenda. Mesmo quando o grupo LVMH assumiu o controle da casa em 1999, o modo de fazer o vinho continuou, com a família Krug pertencendo ao grupo que forma o comitê que determina a assemblagem, o envelhecimento, a data de lançamento etc. dos vinhos da Maison.
A família Krug diz que não há fórmula para montar o blend de seu champagne, pois nunca haverá duas colheitas iguais. Eles contam que a mistura é feita com base em um "banco de memória" cuja missão é recriar ano a ano o sabor inimitável criado pelo fundador da casa.
Assim como todas as casas de Champagne, Krug guarda inúmeros vinhos de reserva a cada safra para serem usados nas assemblagens de anos posteriores. Ou seja, em um determinado ano, seu champagne pode ter uma mescla de cerca de 50 vinhos de mais de 20 vinhedos diferentes e de mais de 10 safras diferentes.
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Para ter isso, a cada colheita, o mosto é transferido para barricas de 205 litros e rotulados individualmente por cada área de vinha. E Krug é a única entre as grandes casas que fermenta todos os seus vinhos em carvalho. Segundo eles, é isso que vai proporcionar a extrema longevidade de seus champagnes, que passam cerca de seis anos envelhecendo em garrafa antes de ir ao mercado.
O trabalho de identificar cada parcela como sendo a melhor para seu vinho faz com que a Krug tenha um intrincado sistema para valorizar cada terroir de Champagne de onde vem as suas uvas. Apesar de possuir apenas 20 hectares próprios, a casa possui contratos longuíssimos com fornecedores.
Diferentemente de outras Maisons, Krug sempre valorizou seu vinho "básico", dito Grand Cuvée, em vez dos Vintage (safrados). E isso não é difícil de entender quando se sabe como a família lida com o delicado ritual de assemblagem. Ou seja, o que eles sempre valorizaram foi a tipicidade de seu vinho, que, safra após safra, deve se manter o mesmo.
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Assim, um Vintage não significa tanto para uma casa como esta. Então, o Grand Cuvée (cujas partes de Pinot Noir e Pinot Meunier são mais relevantes do que as de Chardonnay) sempre foi o carro-chefe. Os Vintage (em que a Chardonnay comumente também tem bem menos peso que os Pinots) são muito mais raros de serem lançados do que em outras casas, tanto que a safra mais recente é 1998.
Ainda assim, a casa vem lançando produtos que "violam" suas próprias regras de blending, como o Clos du Mesnil, um 100% Chardonnay somente com uvas de um vinhedo de 1,87 hectare de mesmo nome, e o Clos d'Ambonnay, um Blanc de Noirs 100% Pinot Noir de um vinhedo de 0,685 hectare. Clos du Mesnil foi lançado somente em 1979, e o Clos d'Ambonnay em 1995 (apesar de ter sido comprado em 1984). Este último saiu com produção de apenas 3 mil garrafas. Clos, para quem não se lembra, é o nome que os franceses dão para os vinhedos "murados", ou seja, pequeníssimas parcelas.
E, para ser ainda mais exclusivista, a Krug guarda em suas adegas algumas garrafas de safras espetaculares para serem lançadas muitos anos mais tarde. A isso eles dão o nome de Krug Collection. Estas garrafas só são colocadas no mercado depois de membros da família terem provado seu sabor e chegado ao consenso de que elas estão prontas para o consumo.
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"Fora das regras" também está o Rosé da Krug, introduzido em 1983 por Henri e Rémi Krug, filhos de Paul Krug. Diz-se que, mesmo contrariamente às ordens do pai, Henri e Rémi resolveram produzir um champagne rosé e, depois de pronto, apresentaram ao genitor durante um jantar, sem identificar a garrafa.
Paul teria ficado abismado e afirmou que outra casa estava imitando o estilo de Krug, mas na versão rosé. Com tanta perseverança, a casa mantém uma legião de fãs e é comum ouvir deles: "Existe Krug... e há os outros champagnes".
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