Mudança de posição de Roma pode destravar a assinatura do tratado comercial, embora agricultores italianos temam avanço das exportações sul-americanas

por Redação
A Itália caminha para apoiar o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, movimento que pode destravar a etapa final para a assinatura do tratado após mais de duas décadas de negociações.
A mudança de posição de Roma é vista como decisiva para viabilizar o consenso político necessário dentro do bloco europeu, ainda marcado por resistências, sobretudo no setor agrícola francês.
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Segundo fontes diplomáticas europeias, a expectativa é de que a Itália passe a respaldar formalmente o acordo nas próximas deliberações do Conselho da UE. Com isso, o bloco ficaria apto a assinar o tratado com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, consolidando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo em termos de população e produto interno bruto.
Do ponto de vista italiano, o acordo apresenta ganhos relevantes para setores industriais e de bens de alto valor agregado, com destaque também para o mercado de vinhos. A redução gradual de tarifas e a harmonização de regras comerciais podem ampliar significativamente o acesso dos rótulos italianos à América do Sul. Para produtores e exportadores, o Mercosul surge como uma alternativa estratégica em um cenário global de maior fragmentação comercial.
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Apesar desse potencial, o apoio italiano vem acompanhado de cautela. O governo da primeira-ministra Giorgia Meloni tem manifestado preocupação com o impacto do tratado sobre o setor agrícola nacional. Assim como ocorre na França, agricultores italianos temem um aumento das importações de produtos sul-americanos, considerados mais competitivos em preço e, em alguns casos, supostamente produzidos sob padrões ambientais e sanitários distintos dos europeus. Esse receio tem sido um dos principais fatores de atraso na conclusão do acordo.
A Comissão Europeia reconhece as sensibilidades políticas e afirma trabalhar em mecanismos de salvaguarda para mitigar eventuais impactos negativos sobre os produtores europeus. Ainda assim, autoridades do bloco avaliam que há apoio suficiente entre os Estados-membros para aprovar o acordo, mesmo diante da oposição francesa e de pressões internas em países como a Itália.
Além do comércio agrícola, o tratado UE–Mercosul abrange áreas como bens industriais, serviços, investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual. Para defensores do acordo, trata-se de uma ferramenta estratégica para diversificar mercados, reduzir a dependência europeia de parceiros específicos e fortalecer a posição da UE no comércio global.
Caso a Itália confirme o apoio, o acordo entrará em sua fase mais decisiva, equilibrando oportunidades de expansão comercial — como a abertura do mercado sul-americano para o vinho italiano — com a necessidade de proteger setores sensíveis da economia europeia.