Escola do vinho

Lado a lado, as principais diferenças das margens direita e esquerda de Bordeaux

Uma das regiões mais clássicas do mundo do vinho tem uma divisão singular


 

 

Château de Vayres na margem do Rio Dordogne

Em um mundo em que cada vez mais opiniões políticas contrárias se acirram, no vinho há um porto seguro quando falamos das diferenças entre a “direita” e a “esquerda”. Apesar de o tema também suscitar debates, dificilmente algum defensor da “direta” despreza o que é feito pela “esquerda”, e vice-versa. Aqui estamos falando dos vinhos produzidos nas duas margens do Gironde, em Bordeaux, e suas famosas denominações. 

Para muitos, o debate entre margem direita e margem esquerda se resume a Cabernet Sauvignon versus Merlot, mas isso é uma simplificação muito rasa do que as duas regiões apresentam e de suas diferenças. Sim, a margem direita tende a ter vinhos baseados em Merlot enquanto a esquerda em Cabernet, contudo, é preciso avaliar muito mais do que isso. 

Para entender essa questão de direita versus esquerda em Bordeaux, primeiramente é preciso compreender a geografia. O estuário do Gironde, erroneamente chamado às vezes de "rio", divide a região em duas. Ele é a confluência de dois importantes rios da região, o Dordogne (à direita ou norte) e o Garonne (à esquerda ou sul). No lado esquerdo estão as regiões de Médoc e Graves, principalmente, enquanto que do lado direito, dito Libournais, ficam sub-regiões como Pomerol e Saint-Émilion por exemplo. Então, para compreender melhor as diferenças, vamos dividir em tópicos. 

Variedades 

Os vinhos de Bordeaux, em geral, são conhecidos por serem blends. No entanto, a proporção das castas varia conforme a região. Na margem esquerda, especialmente no Médoc, com clima mais úmido e solos com mais cascalho, a Cabernet Sauvignon tende a prevalecer. Quase sempre dominante nas misturas, ela vai trazer muita estrutura aos vinhos, favorecendo a longevidade. Ela costuma ser complementada pela Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot.

Já na margem direita, principalmente nas regiões ao redor da cidade de Libourne, onde o solo é mais argiloso, a Merlot ocupa um lugar de destaque. maior proporção de Merlot na mistura oferece mais elegância aos vinhos. Aqui, a Cabernet Sauvignon representa cerca de 10% da produção, ou seja, menos até do que a Cabernet Franc. 

Terroir 

Essa predominância de variedades distintas em cada margem obviamente dá o tom dos vinhos, todavia, é preciso entender o porquê de elas prevalecerem nessas regiões e também como o terroir afeta seus estilos. Em geral, Bordeaux possui um clima oceânico quente e úmido. Isso protege as videiras das geadas, doenças como mofo e bolor tendem a ser minimizadas pelas brisas. A posição geográfica da península, situada entre duas grandes massas de água, que regulam a temperatura ao longo do ano, cria um microclima favorável às vinhas. Diante disso, as principais diferenças encontram-se na terra. 

Na margem esquerda, há uma combinação de dois tipos de solo com cascalho dos Pirineus, transportado pelo rio no final do período terciário, misturado com areia e solo aluvial, combinado com cascalho quaternário de Garonnaise ao longo da margem esquerda do estuário. Este tipo de solo é encontrado principalmente na região de Haut-Médoc. O outro terroir, encontrado em Moulis, Listrac e Saint-Estèphe, por exemplo, é predominantemente argila e calcário, uma combinação de solo denso e de pedras, que ajuda a regular o estresse hídrico da videira ao redistribuir a água subterrânea coletada durante a estação chuvosa. Esses solos produzem vinhos bem estruturados, ricos em taninos. 

Mapa da região vitivinícola de Bordeaux

Além disso, o traço característico da paisagem do Médoc são suas ondulações suaves, com o ponto mais alto de 43 metros em Listrac-Médoc. Seu relevo é complexo, composto por uma sucessão desses afloramentos de cascalho com vista para as terras baixas do estuário e dos pequenos riachos que fluem para dentro do Gironde. Ou seja, a parte de cascalho é onde as vinhas mais prosperam na margem esquerda, e a Cabernet Sauvignon se dá melhor nesse tipo de solo. 

Já na margem direita, os vinhedos tendem a ficar localizados em planaltos. Os solos desses platôs são formados de cascalho mais ou menos compacto na superfície, argila e areia. Os subsolos, especialmente no Pomerol, contêm óxidos de ferro, que são chamados na região sujeira de ferro. A área de Saint-Émilion, por exemplo, consiste em um platô de calcário ao redor da cidade. Um vasto terraço de leitos de cascalho com argila siliciosa se estende em direção a Libournecom as colinas e vales de calcário argiloso e a planície de cascalho arenoso do vale do DordogneUma grande variedade de solos se desenvolveu em duas formações geológicas que deram à região um relevo característico: da era terciária (argila siltosa, muitas vezes calcária) e da era quaternária (cascalho e/ou areia). Lá, a presença de argila é quase constante nos subsolos mesmo quando há muita presença de calcário, o que favorece o acesso das vinhas à água e o fato de a Merlot se adaptar melhor aqui deve-se à maturação precoce e sua preferência por solos frescos com textura de argila, nos quais ela pode expressar seu potencial. 

Denominações 

Na margem esquerda ficam denominações dentro do Médoc, Graves e Sauternes. O Médoc tem oito denominações que incluem duas sub-regiões (Médoc e Haut-Médoc) e seis comunas (Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-JulienMoulis en Médoc, Listrac-Médoc e Margaux). Na região de Graves e Sauternes há, BarsacCérons, Graves, Péssac-Léognan (esta duas com subdivisões) e Sauternes. 

Já a margem direita compreende denominações como Canon FronsacCastillon – Côtes de Bordeaux, Francs – Côtes de Bordeaux, Fronsac, Lalande-De-Pomerol, Lussac-Saint-Émilion, Montagne Saint-Émilion, Pomerol, Puisseguin Saint-Émilion, Saint-Émilion e Saint-Georges-Saint-Émilion. 

Classificações 

A classificação mais famosa de Bordeaux refere-se à margem esquerda, mais especificamente Médoc, com apenas um adendo de um vinho de Péssac-Léognan (Château Haut-Brion). A classificação de 1855, solicitada por Napoleão III para a Exposição Universal daquele ano em Paris, apontou os principais produtores da região divididos em cinco categorias. Hoje são cinco Premiers Crus, 14 Deuxièmes Crus, 14 Troisièmes Crus, 10 Quatrièmes Crus e 18 Cinquièmes Crus. Na mesma época, foram classificados os vinhos de Sauternes e Barsac, divididos em um Premier Cru Supérieur (Château d’Yquem), 11 Premiers Crus e 15 Deuxièmes Crus. 

Vinha de Merlot a casta mais plantada na região de Bordeaux

Outra classificação da margem esquerda é a de Graves, feita em 1953 a pedido do sindicato local para o Instituto Nacional de Denominações de Origem (INAO), que estabeleceu 16 produtores como Crus, sem distinção de hierarquia, sendo sete Crus para vinhos tintos, três para brancos e seis para tintos e brancos. 

No Médoc ainda há a classificação Crus Bourgeois, que teoricamente existia desde a Idade Média e foi revivida a partir de 1932. Apesar de algumas controvérsias, essa classificação publica uma lista de produtores renovada anualmente desde 2010. E há ainda a classificação Cru Artisan, também do Médoc, que compreende produtores pequenos, ditos artesanais. 

Do lado direito do Gironde, apenas uma região possui uma classificação reconhecida: Saint-Émilion. A partir de 1954, a pedido do sindicato de produtores de Saint-Émilion, o INAO iniciou a classificação de Crus da denominação e, segundo as regras, a lista deveria ser revisada a cada 10 anos. Desde então, seis listas foram criadas. A última foi de 2012, que contou com 82 propriedades, sendo 64 Grands Crus e 18 Premiers Grands Crus. Esta classificação, contudo, quase sempre é alvo de ações judiciais por parte de alguns produtores que se sentem prejudicados. 

Safras 

Apesar da pouca distância entre as regiões, as influências climáticas e de terroir criam algumas variações entre as safras das margens direita e esquerda. Em geral, ambas as margens se dão melhor em épocas em que há menos umidade e temperaturas mais frias durante as noites na temporada (maior amplitude térmica).

O Médoc é capaz de suportar melhor safras em que o índice pluviométrico é maior. Chuvas muito intensas, contudo, costumam ser um problema para as denominações na margem direita, que, apesar de mais secas, têm solos que encharcam facilmente. A margem direita, por sua vez, é capaz de assimilar melhor anos mais frios do que a margem esquerda.

Entre Dois Mares 

A região entre o rio Dorgogne e Garonne é conhecida como Entre-Deux-Mers (entre dois mares). Suas denominações não são consideradas nem da margem esquerda, nem da margem direita e, curiosamente, é a maior região vitivinícola de Bordeaux. Suas sub-regiões são pouco conhecidas e, na maioria das vezes, subestimadas. Ao longo dos séculos, os dois rios deixaram camadas de areia, cascalho e argila que se cruzam com rochas calcárias mais antigas e oferecem uma grande diversidade de solos. A vinha está localizada em terras altas cortadas por numerosos rios que formaram encostas. Com todos os tipos de exposições, os solos são predominantemente argilosos, mais propícios ao cultivo de uvas brancas, mas a região também produz grande volume de tintos. 

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 3 de Março de 2021 às 18:00


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