Propriedade tem arquitetura que celebra dois milênios de história vitivinícola

por Arnaldo Grizzo
No coração de Saint-Émilion, onde 200 quilômetros de galerias subterrâneas testemunham séculos de extração do calcário que moldou a identidade da região, o Château Pavie Macquin emergiu recentemente renovado. De frente para a vila medieval classificada como Patrimônio Mundial da UNESCO, esta propriedade histórica completou uma transformação arquitetônica que dialoga com o terroir que a abriga há tempos.
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A renovação e ampliação conduzidas pelo estúdio BPM Architectes, de Bordeaux, e concluídas em 2022, abrangem 1.900 metros quadrados de uma arquitetura que respira o terroir local. O projeto não apenas moderniza as instalações produtivas, mas cria uma narrativa visual que conecta visceralmente o edifício ao solo argilo-calcário que sustenta suas vinhas centenárias.

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Fundada em 2000 pelos arquitetos Arnaud Boulain, Delphine Pirrovani e Loïc Mazières, a BPM Architectes consolidou-se como referência em arquitetura elegante e sustentável na região de Bordeaux. Instalada em Bordeaux há mais de duas décadas, a agência conta hoje com uma série de châteaux em seu portfólio, representando 40% de sua atividade.
Entre suas realizações mais emblemáticas estão Château Angélus em Saint-Émilion, Château Beychevelle no coração do Médoc, Château Bouscaut em Pessac-Léognan, Ronan By Clinet em Pomerol, além de intervenções nos Château Cos d'Estournel, Château La Fleur de Boüard, Château Pédesclaux e Château Lynch Bages. O estúdio especializou-se em projetos que valorizam materiais locais e práticas sustentáveis, sempre ancorando cada projeto em seu território e paisagem.
Para Pavie Macquin, os arquitetos criaram uma linguagem que emerge literalmente da terra. Empoleirado em uma colina, o edifício se estende horizontalmente, seguindo os contornos da paisagem. A escolha cromática não é coincidência: a paleta de tons bege e marrom evoca as cores da terra e das videiras, reforçando a identidade do lugar.
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O protagonista arquitetônico do projeto é, sem dúvida, a cave de envelhecimento. Escavada a mais de 7 metros abaixo do nível do solo, destaca-se pela simplicidade e minimalismo. As paredes de concreto, com suas variações de tons e texturas, representam as diferentes camadas de argila e calcário características do terroir único da propriedade.
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A genialidade da concepção vai além do aspecto estético. O concreto, feito com o solo superficial extraído do local durante a escavação, permitiu a reutilização da matéria-prima para refletir a complexidade do terroir e a riqueza geológica no coração do projeto. Esta simbiose entre arquitetura e geologia cria um ambiente onde o vinho envelhece literalmente envolto pelas mesmas camadas rochosas que nutrem as raízes das videiras.
A integração com a paisagem histórica de Saint-Émilion vai além da escolha de materiais. O uso de calcário local e telhas de argila não apenas garante durabilidade, mas conecta o novo edifício ao vernáculo arquitetônico regional que existe há séculos. A construção baixa e horizontal permite que a majestosa vista da vila medieval de Saint-Émilion permaneça intacta, respeitando a harmonia visual que caracteriza esta paisagem vitivinícola.
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Os espaços internos foram desenhados para otimizar tanto a funcionalidade quanto a experiência sensorial. Nas áreas de produção, um telhado exposto de madeira, construído com métodos tradicionais, adiciona um senso de artesanato ao ambiente industrial. Janelas e claraboias introduzem luz natural, mantendo a conexão com o exterior.
A sala de barricas se destaca com seu acabamento escultural no teto. Peças de madeira são dispostas em um padrão rítmico que dá vida ao teto alto. No centro do ambiente, uma grande pedra natural exala uma atmosfera quase sagrada.

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O compromisso com práticas sustentáveis permeia todo o projeto. Sistemas de captação de água da chuva reduzem o consumo hídrico, enquanto o design térmico eficiente minimiza a necessidade de aquecimento e refrigeração artificial. Esta abordagem reflete uma consciência ambiental que ecoa a história de Saint-Émilion. Em uma região onde o terroir é venerado e cada parcela de solo tem sua personalidade reconhecida, a arquitetura de Pavie Macquin demonstra como é possível inovar sem romper com a essência que faz de Saint-Émilion um dos territórios vinícolas mais respeitados do mundo.
O resultado é uma vinícola que não apenas produz vinhos excepcionais, mas conta a história geológica e cultural de seu terroir através de cada detalhe arquitetônico, perpetuando o legado de excelência que define Saint-Émilion há gerações.
A seguir, confira as safras do Château Pavie Macquin degustados por ADEGA: