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  • O código Priorat

    O código que revela a hierarquia dos grandes vinhos do Priorat

    Do território às vinhas mais antigas, sistema inspirado na Borgonha estabelece uma pirâmide de qualidade

    Priorat

    por José Renato Camilotti, DipWSET, FWS, IWS

    Os critérios para classificação de vinhos, vinhedos ou propriedades sempre desempenharam um importante papel no mundo do vinho. As diversas classificações ou escalas hierárquicas têm sido utilizadas tanto por órgãos reguladores/produtores para, por exemplo, expressar padrões de qualidade, como também por consumidores, como um guia relativamente confiável sobre estilo, procedência, prestígio etc.

    Talvez a mais famosa das classificações seja a de “Bordeaux 1855”, qual, por ocasião da exposição mundial de Paris, ranqueou a qualidade dos Châteaux de Bordeaux em cinco níveis diferentes (dos Premier Cru aos Cinquième Cru), utilizando-se, em termos simplificadores, o critério da propriedade; ou seja, mesmo que novos vinhedos fossem posteriormente incorporados à propriedade, essas novas vinhas adquiririam automaticamente o status correspondente ao Châteaux classificado, razão pela qual ela tem sido objeto de intensos debates.

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    Outro símbolo das classificações é a região da Borgonha, na qual desde os esforços primordiais feitos pelos monges cistercienses, a partir do século XII, até a formalização regulatória feita pelo INAO (Institut National de l’Origine et de la Qualité) na década de 1930, o critério utilizado para a classificação foi sempre o terreno, o local das vinhas, a parcela específica de solo. Assim nasceram os vinhedos regionais, os vinhedos Village, os Premier Cru e os Grand Cru, somados ainda a terroirs mais específicos, designados climats e lieu-dits.

    Há outras classificações, que variam de país para país e de cultura para cultura, cujos critérios podem ser a idades das vinhas, o tempo de guarda dos vinhos, o estágio em madeira, envelhecimento oxidativo ou redutivo etc. E a região espanhola do Priorat parece apostar em seu sistema.

    Escadas para o paraíso

    LEIA TAMBÉM: Solo raro, cinco pioneiros e duas castas levam à glória os vinhos do Priorat

    O Priorat é uma região situada aos pés da Serra de Monsant, na porção sul da região da Catalunha, com aproximadamente 2000 hectares de vinhedos e virtualmente cercada por montanhas em todos os lados, o que lhe faz muito específica.

    O nascimento da viticultura e da elaboração de vinhos na região do Priorat é envolta em uma curiosa lenda: Alfonso II, Rei de Aragão e Conde de Barcelona teria enviado dois cavaleiros com a missão de encontrar um local para o estabelecimento dos Monges Cartuxos, uma ordem monástica originária da Provença e dedicada à clausura, meditação e oração. Tendo chegado aos sopés da Serra de Monsant, os cavaleiros encontraram um pastor de ovelhas, que os teria dito que naquele local, há pouco tempo, acima do pinheiro mais alto, uma escada que levava ao céu havia aparecido, e que por ela desfilavam anjos rumo ao paraíso. 

    Bastou a narrativa chegar aos ouvidos do rei para as terras fossem concedidas à ordem religiosa. Alguns de seus monges eram encarregados da realização de trabalhos manuais, os quais eram ensinados aos moradores dos vilarejos locais. Dentre os trabalhos, as técnicas e práticas do cultivo das uvas e da produção de vinhos. As ruínas de seu monastério, considerado o berço da viticultura do Priorat, ainda hoje podem ser admiradas aos pés da Serra de Monsant.

    LEIA TAMBÉM: O melhor vinho da região do Priorat, com seus tintos elegantes e intensos

    DOQ Priorat

    O sistema de denominações de origem espanhol data oficialmente de 1932, e passou por diversas atualizações ao longo da história. Atualmente a pirâmide de qualidade da legislação nacional espanhola traz cinco níveis de classificação de vinhos com algum tipo de indicação de origem: Vino de la Tierra (VT), Vinos de Calidad con Indicación Geográfica (VC), Vinos de Pago (VP), Denominación de Origen (DO) e Denominación de Origen Calificada/Qualificada (DOCa/DOQ), sendo o último, DOCa ou DOQ (no idioma catalão) o ápice da qualidade em se tratando de denominação de origem na legislação espanhola.

    A concessão do status de DOCa/DOQ somente pode ser feita a uma região produtora que mantenha o nível de qualidade e tipicidade esperados na produção de seus vinhos por um longo período (há uma exigência de no mínimo 10 anos para que uma DO possa se tornar uma DOCa/DOQ); além disso, os vinhos devem ser sempre engarrafados dentro das fronteiras da região e, por determinação legal, seu preço deve ser pelo menos duas vezes mais do que a média nacional dos vinhos das DO’s espanholas. Há apenas duas regiões na Espanha que gozam desse prestígio: La Rioja (1991) e o Priorat (2009).

    LEIA TAMBÉM: Catalunha reduz teor alcoólico mínimo de vinhos em 2026

    uva de priorat
    Uvas devem ser provenientes de parcelas que tenham pelo menos 75 anos de idade para Vinyes Velles

    O pioneirismo do Priorat

    O reconhecimento da DOQ Priorat pela legislação nacional ocorreu somente em 2009 (o governo da Catalunha já havia concedido essa honraria em 2000), mas mesmo com a máxima qualificação, o Priorat sempre foi tido como uma região em movimento, em constante evolução, com produtores inquietos e ávidos por qualidade. Em 2002, foi pioneira na Espanha ao adotar o conceito de vinhos de propriedade ou “estate wines”, estabelecendo os Vi de Finca como o máximo de sua qualidade.

    Em 2009, criou a categoria dos Vi de Vila (Vinhos de Vilarejo), inaugurando a ideia da importância da relação do vinho com a terra na qual se produzem as uvas, em um esforço de conexão com o terroir; desde a safra 2007 vinhos poderiam ser rotulados com as 12 subzonas designadas para os Vi de Vila (Bellmunt del Priorat, Solanes del Molar, El Lloar, La Vilella Baixa, La Vilella Alta, Escaladei, La Morera de Monsant, Poboleda, Porrera, Masos de Falset, Gratallops e Torroja del Priorat); essa classificação foi muito importante para dar destaque a certos vinhedos específicos, dentro das subzonas.

    LEIA TAMBÉM: Garnacha, Grenache e Cannonau: por que a uva muda de nome?

    O marco veio em 2019, quando a região estabeleceu o sistema de classificação “Els Noms da la Terra”, com sua mensagem claríssima: a valorização dos elementos de solo, clima, topografia, exposição, enfim, uma adoção inquestionável do conceito de terroir como critérios de classificação das vinhas do Priorat. De inspiração nitidamente borgonhesa, o sistema foi cuidadosamente concebido e é monitorado com ainda mais zelo pelo “Consell Regulador DOQ Priorat”. O sistema estabeleceu a seguinte hierarquia de qualidade:

    Priorat
    Há 12 subzonas designadas desde 2007: Bellmunt del Priorat, Gratallops, Porrera, Escaladei entre outras

    DOQ Priorat – vinhos produzidos a partir de uvas cultivadas em qualquer parte da região delimitada da DOQ. É equivalente ao vinho regional da Borgonha.

    “Vi de Vila” DOQ Priorat – vinhos produzidos com uvas cultivadas dentro dos limites das 12 subzonas designadas (que abrangem nove vilas), com rendimentos controlados (7.000kg/ha para brancos e 5.000kg/ha para tintos). Exige-se o mínimo de 60% de Garnacha Tinta e/ou Mazuelo (Cariñena/Carignan/Samsó) no blend do tinto. Ao menos 90% das vinhas devem ter mais de 10 anos de idade. A equivalência é com os vinhos de vilarejo (Village) da Borgonha.

    LEIA TAMBÉM: Incêndio ameaça vinhedo histórico de Aragón, na Espanha

    “Vi de Paratge” DOQ Priorat – vinhos produzidos com uvas cultivadas dentro de limites geográficos menores e mais restritos, em localidades determinadas. Rendimentos ainda mais restritos (6.000kg/ha para brancos e 4.000kg/ha para tintos). Mantem-se o mínimo de 60% de Garnacha Tinta e/ou Mazuelo. O mínimo de 90% das vinhas com mais de 15 anos de idade. Atualmente são 459 paratges designadas. O paralelo borgonhês é o Lieu-dit.

    “Vinya Classificada” DOQ Priorat – vinhos produzidos com uvas cultivadas em vinhedos específicos (single vineyards). Mantêm-se as restrições em 6.000kg/ha para brancos e 4.000kg/ha para tintos. Novamente o mínimo de 60% de Garnacha Tinta e/ou Mazuelo. Nesta classe, 80% das vinhas devem ter, no mínimo, 20 anos de idade. Seriam os “Premier Cru” da Borgonha.

    “Gran Vinya Classificada” DOQ Priorat – também vinhos produzidos com uvas cultivadas em vinhedos específicos (single vineyards). Os menores rendimentos (4.000kg/ha para brancos e 3.000kg/ha para tintos). Aqui a exigência é ao menos 90% de Garnacha Tinta e/ou Mazuelo. O topo da pirâmide exige que 80% das vinhas devam ter, no mínimo, 35 anos de idade, com os 20% restantes ao menos 10 anos. Na Borgonha estaríamos falando dos vinhedos “Grand Cru”.

    LEIA TAMBÉM: Descubra os vinhos tintos espanhóis que combinam com seu estilo e bolso

    Para todas as classes acima, as uvas devem ser cultivadas em propriedades próprias ou, quando muito, em terras que sejam objeto de contratos de arrendamento de longo prazo (o Conselho Regulador exige no mínimo sete anos). Adicionalmente, há uma classificação não necessariamente vinculada ao terroir, que são as Vinyes Velles, cujas uvas devem ser provenientes de parcelas que tenham pelo menos 75 anos de idade.

    Conclusão

    Em um mundo em que estamos sujeitos diariamente a uma verdadeira avalanche de dados que chegam pelos mais variados meios e quase sem pedir licença, o acesso à informação parece não ser um problema. Mas o excesso de informação pode ser o problema.

    Quantidade de informação não é garantia de qualidade da informação. Para não dissipar energia e perder tempo, ou, o que é pior, cometer erros, será cada vez mais necessário saber usar métodos de filtragem e/ou fontes de informação confiáveis, com credibilidade, para que possamos traduzir quantidade de dados em informação de qualidade. O sistema de classificação do Priorat tem esse objetivo, é audacioso por buscar ser um sistema que transforma em informação a expectativa sobre a qualidade de seus vinhos. E a mensagem enviada por esse código é clara: o Priorat confia em seu terroir.

    A seguir, confira os melhores vinhos do Priorat avaliados por ADEGA:

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