Vinícolas do mundo

Romanée-Conti: por dentro da vinícola que faz o “maior” vinho do mundo

O Domaine de la Romanée-Conti é indiscutivelmente o mais importante e mítico produtor de vinhos do planeta


O vinhedo Romanée-Conti, monopólio da Domaine de la Romanée-Conti (DRC) 

Além de produzi verdadeiras joias (que justificam sua reputação e preço), há mais fatores que tornam os vinhos da DRC tão míticos.

Antes de adentrar nos pormenores é importante salientar que Domaine de La Romanée-Conti é uma empresa, uma vinícola que produz vinhos a partir de sete vinhedos diferentes, todos na Borgonha.

Eles são os tintos: Romanée-Conti e La Tâche, que são monopólios da DRC. Isto é, apenas ela produz vinhos com uvas provenientes desses vinhedos – o que por incrível que pareça é incomum na Borgonha; Richebourg, Romanée-St-Vivant, Grands Échezeaux e Échezeaux. E um vinhedo que produz vinhos brancos o Montrachet.

A empresa tinha um segundo vinhedo de vinhos brancos, o Corton-Charlemagne, mas se desfez de suas parcelas em 2018.

Todos os vinhedos da DRC são mantidos segundo os preceitos da biodinâmica e da mínima intervenção

E Romanée-Conti, como visto, é um dos vinhedos que pertence à DRC e, como na Borgonha os vinhos levam os nomes do vinhedo, consequentemente o vinho mais famoso da empresa leva também o nome Romanée-Conti.

E para desfazer qualquer confusão, a cidade onde fica a vinícola e os vinhedos Romanée-Conti, La Tâche, Richebourg e Romanée-St-Vivant se chama Vosne-Romanée.

É muito “romanée”!

Mas isso tem uma explicação. As cidades da região produtora de vinhos da Borgonha ganharam em 1866 um acréscimo ao seu nome original que remete ao principal vinhedo da cidade. Isso foi feito para facilitar o turismo e promover os vinhos da região. Assim, a cidade de Vosne ganhou o Romanée, Flagey virou Flagey-Échezeaux, Puligny virou Puligny-Montrachet...

Eventuais confusões desfeitas vamos falar do DRC.

A história da empresa remete ao século 13 quando a abadia de Saint Vivant, que era localizada na cidade de Vosne, comprou seus primeiros hectares de terra e passou a produzir um vinho que logo chamou a atenção pela regularidade, a maioria das safras do vinho era excelente.

Filosofia: “Fazer vinho é retratar e traduzir da forma mais fiel possível a qualidade do terroir”

A região ficou sob o comando da abadia até o século 17, quando foi vendida para a família Croonembourg. Por razões ainda mal esclarecidas, ela alterou o nome da propriedade para Romanée. Junto com esse vinhedo a família ainda adquiriu outro na mesma cidade, o La Tâche.

Em 1760, a família Croonembourg decidiu vender seus vinhedos e uma interessada desponta, Jeanne Antoinette Poisson, a Madame de Pompadour, amante do Rei Luís XV e figura conhecida por seu poder de influência sobre o nobre.

Porém, seu maior desafeto e um dos principais conselheiros reais, Louis-François de Bourbon, o Príncipe de Conti, primo do rei, atravessa o negócio e paga uma quantia inacreditável por um vinhedo.

Nascia assim o Romanée-Conti.

Reza a lenda que o primo do rei, infeliz com a postura de Luís XV, estava em conluio com revolucionários para acabar com a monarquia e esse foi o primeiro golpe.

De pirraça, Conti ainda teria retirado o mítico vinho de circulação na corte e passado a serví-lo para desafetos do rei como o filósofo Jean-Jacques Rousseau, que ele recebia na vinícola.

O domaine passaria por várias mãos após a revolução francesa e a queda da monarquia até que 1942 uma sociedade entre as famílias Villaine e Leroy assume a empresa.

Mas ninguém faz bons vinhos apenas com sua história. Apesar de não se comentar muito, todos os vinhedos são mantidos segundo os preceitos da biodinâmica e da mínima intervenção, respeitando-se o solo, seu equilíbrio e a filosofia de que o papel de quem faz o vinho é retratar e traduzir da forma mais fiel possível a qualidade do terroir.

Encravados no coração da Borgonha, os vinhedos pertencentes à DRC estão entre as melhores localizações em questão de terroir.

A combinação entre o solo correto, a altitude perfeita e uma junção de clima, orientação do terreno e regime dos ventos eleva a arte plantar Pinot Noir e Chardonnay a um nível que só é visto na região – e só é produzido pelo DRC.

Enfim, a mistura entre a história, o cuidado com o vinhedo, a vinificação e o terroir único resultam em vinhos singulares que conquistam fãs mundo afora, apesar de pouquíssimos terem a oportunidade de prová-los.

Somando todos os vinhos da Domaine de La Rolmanée-Conti, dificilmente temos mais do que 40 mil garrafas por safra, disputadas por enófilos do mundo todo há séculos. 

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André De Fraia

Publicado em 9 de Maio de 2021 às 10:00


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