Acordo entre Portugal e Inglaterra impulsionou o comércio e redesenhou a viticultura do Douro

por Raquel Poleto Fonseca
No início do século XVIII, a Inglaterra enfrentava uma tensão crescente com a França, seu principal fornecedor de vinhos até então. Em 1667, uma série de eventos impulsionou a exportação de vinhos portugueses para a Inglaterra. O primeiro-ministro francês Colbert implementou restrições às importações inglesas, levando Carlos II da Inglaterra a aumentar impostos sobre vinhos franceses e eventualmente proibi-los. Isso forçou os comerciantes ingleses a buscar novas fontes de vinho. Portugal, na época, possuía um excedente de vinhos. Foi nesse cenário que o Tratado de Methuen, popularmente conhecido como Tratado de Panos e Vinhos, foi firmado.
O tratado foi assinado em 1703, entre a Inglaterra e Portugal, perdurando até 1836. Foi o último de três tratados assinados entre Portugal e Inglaterra naquele ano. Enquanto os dois primeiros eram de caráter político-militar, este terceiro focava exclusivamente nas relações comerciais e suas consequências para o mercado de vinhos foram profundas, moldando a viticultura portuguesa e ajudando a promover o Vinho do Porto como uma referência internacional.
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O acordo estabelecia que os vinhos portugueses pagariam taxas um terço menores do que o valor cobrado sobre os vinhos franceses na Inglaterra (na época respectivamente 27 para os portugueses e 36 libras para os franceses, mas alguns anos depois, a diferença chegou a ser de 50%). Em troca, Portugal se comprometia a favorecer a importação de tecidos ingleses.
O Tratado de Methuen foi assinado em dezembro de 1703 por John Methuen, pai de Paul Methuen (que havia negociado os dois primeiros tratados daquele ano). Methuen tinha sido ministro plenipotenciário em Portugal entre 1691 e 1696 e havia estado envolvido em demoradas negociações com a coroa portuguesa para estabelecer um convênio de comércio e navegação. Diz-se que ele considerava os vinhos portugueses, em geral, de fraca qualidade, por privilegiar mais a quantidade, e que via a estrutura produtiva e o transporte para os centros exportadores como muito deficientes.
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Deve-se lembrar que vantagens tarifárias para os vinhos portugueses já existiam antes do Tratado de Methuen, mas o acordo deu uma garantia formal e permanente a essa situação, o que proporcionou maior segurança aos comerciantes e produtores. Isso fez com que houvesse uma aceleração da produção de vinhos para atender à demanda do mercado inglês. Assim, Portugal consolidou sua identidade vinícola, mas também se viu com sua economia singularmente voltada para a viticultura.

Embora o tratado favorecesse todos os vinhos portugueses, o Vinho do Porto foi o maior beneficiário. Os comerciantes ingleses estabelecidos em Viana do Castelo identificaram uma oportunidade, mas perceberam que os vinhos do Minho não agradavam ao paladar inglês. Voltaram então sua atenção para o Alto Douro, região que produzia vinhos mais robustos e encorpados. Devido às dificuldades geográficas, o transporte desses vinhos precisava ser feito pelo rio Douro até a cidade do Porto, de onde eram embarcados para a Inglaterra.
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Como consequência, os comerciantes de Viana do Castelo mudaram-se para o Porto no início do século XVIII. Os vinhos, embora produzidos no Alto Douro, acabaram adotando o nome da cidade de onde eram exportados, tornando-se conhecidos como “Vinho do Porto”, com os primeiros registros de exportação datando de 1678.
Inicialmente, para proteger o vinho durante as longas viagens marítimas, adicionava-se uma pequena quantidade de aguardente vínica antes do embarque. É importante notar que esta prática era diferente do atual processo de fortificação durante a fermentação, método que só seria universalmente adotado muito mais tarde. Essa técnica, que já era praticada em menor escala, ganhou força com a demanda britânica, moldando o Porto como o conhecemos. O Porto tinha “força”, “fragrância” e “cor” que se assemelhavam aos vinhos de Bordeaux e Jerez, bastante consumidos na Inglaterra.
Além disso, alguns fatores facilitaram o comércio com os ingleses, como os custos mais baixos a partir do Porto. Na época, a feitoria inglesa do Porto estava mais focada no comércio vinícola com a Inglaterra (enquanto Lisboa focava mais no comércio colonial com o Brasil) e já existiam várias firmas comerciais especializadas em Vinho no Porto no início do século XVIII (como Warre, Croft, Quarles Harris e Bearsley). E, ainda por cima, a maior oferta de vinhos do Douro se refletia em preços mais baixos.
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Para se ter uma ideia da presença dos vinhos portugueses no mercado inglês, na época do tratado, acredita-se que 90% do mercado era de vinhos ditos “peninsulares”, ou seja, portugueses ou espanhóis. Mas se antes os espanhóis dominavam, os portugueses passaram de menos de um quinto para mais da metade do mercado nas duas primeiras décadas do século XVIII e chegou a representar três quartos das importações britânicas a partir daí.
A produção de Vinho do Porto teve um grande impulso após o tratado, alavancado pelo aumento da demanda internacional e a expansão das vinícolas no Douro.

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O Tratado de Methuen também ajudou a abrir as portas para o estabelecimento de importantes casas de Vinho do Porto para famílias inglesas, que desempenharam um papel crucial nas contribuições do mercado internacional do vinho. Todavia, é de 1670 a primeira casa inglesa, a Warre & Co. Segundo recenseamentos históricos do Porto, de 1700 a 1715, havia cerca de 12 mercadores britânicos nos negócios do Vinho do Porto. Em 1750, contudo, já são 32. De 1700 a 1756, somaram-se 153 ingleses a operar no Porto.
Acredita-se que Bartholomew Bearsley, fundador da Taylor’s, tornou-se o primeiro comerciante de vinhos britânico a comprar terras no Douro em 1744. As casas inglesas foram fundamentais no desenvolvimento do transporte dos vinhos através do rio Douro, criaram redes de distribuição, desenvolveram a marca “Porto” e também passaram a quase monopolizar o comércio e a produção.
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Foi quando o governo português decidiu intervir. A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro surgiu em 1756 como resposta a diversos fatores e problemas que afetavam o setor vinícola do Porto na primeira metade do século XVIII. Primeiramente, houve uma desaceleração significativa no crescimento do setor entre 1742 e 1756. Depois, os ingleses dominavam o comércio de vinhos no Porto, mantendo volumes de vinho “sempre acima do dobro” dos manifestados pelos comerciantes nacionais. Isso criou uma dependência e desequilíbrio no setor.
Em 1754, houve uma “crise” resultante de um ano abundante (1753), quando os ingleses se recusaram a comprar as quantidades habituais, causando depreciação dos preços. Nesse meio tempo, houve grandes tensões entre grandes proprietários durienses e os comerciantes britânicos, especialmente em relação aos “toneis” (vinhos de pequena produção) que os ingleses compravam, em detrimentos aos vinhos das grandes quintas.
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A Companhia surgiu, portanto, como uma instituição pombalina que visava defender sobretudo os interesses dos grandes proprietários residentes no Porto, associados a alguns comerciantes nacionais concorrentes com os britânicos, buscando estabelecer um maior controle nacional sobre a produção e o comércio do Vinho do Porto.
Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, secretário de estado do Reino de D. José I, buscava reduzir a influência britânica na economia portuguesa. Ele foi o principal arquiteto da estrutura institucional da Companhia e assinou o alvará régio de 10 de setembro de 1756 que a instituiu, estabelecendo um sistema de demarcação das áreas produtoras (uma das primeiras regiões demarcadas do mundo) e criando regulamentações rígidas para controle de qualidade e preços.
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O Tratado de Methuen, que perdurou até 1836, teve implicações que foram muito além do setor vinícola. Para Portugal, o acordo teve consequências ambivalentes: enquanto impulsionou extraordinariamente o setor do vinho, também prejudicou o desenvolvimento da indústria têxtil local. Isso contribuiu para um déficit comercial crônico com a Inglaterra, que Portugal geralmente compensava com o ouro proveniente do Brasil. O tratado também aproximou ainda mais as duas nações politicamente, fortalecendo uma aliança que seria crucial durante as Guerras Napoleônicas, quando Portugal resistiu ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão. Esta decisão, embora tenha resultado na invasão francesa de 1807 e na fuga da família real para o Brasil, ajudou a manter os laços comerciais vitais com a Inglaterra.
Mas, enfim, suas consequências moldaram profundamente a história do vinho português, especialmente do Vinho do Porto, criando uma cadeia de eventos que culminou na primeira região demarcada do mundo, no estabelecimento de importantes casas comerciais que persistem até hoje e na consolidação de métodos de produção únicos.
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