Entre colinas e vinhedos em terraços, região eslovena preserva uma identidade marcada por história e tradição

por Arnaldo Grizzo
Quando os viajantes cruzam a fronteira entre o Friuli italiano e a Eslovênia, muitos nem percebem a mudança. As colinas ondulantes continuam, os ciprestes pontuam a paisagem, as vinhas desenham curvas nas encostas. Mas estão agora em Goriška Brda – conhecida simplesmente como Brda pelos locais –, uma região que alguns apelidaram de “Toscana Eslovena” pela beleza pastoral de suas aldeias de pedra, campos de lavanda e vinhedos em terraços.
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Este pequeno território de menos de 130 quilômetros quadrados tem uma longa história vitivinícola. Aqui, tradição e inovação convivem nas mesmas vinícolas que produzem desde espumantes delicados até o vinho laranja – especialidade local.
A Eslovênia produz vinho há 2.500 anos, antes mesmo de os romanos levarem a vinificação para França, Alemanha e Espanha. O país abriga a videira mais antiga do mundo ainda em produção, na cidade de Maribor, com mais de 400 anos, que ainda rende anualmente 50 quilos de uvas Žametovka, transformados em 15 a 35 litros de vinho.
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Em Brda, os romanos introduziram a Rebula – que chamavam de Helvola –, variedade que se tornaria o símbolo da região. O primeiro registro documental da Ribolla Gialla (nome italiano da mesma casta) data de 1336, num contrato de compra e venda na aldeia de Višnjevik. Já naquele tempo, o termo referia-se ao método usado para produzir os melhores vinhos brancos da região.
Durante séculos, Brda produziu vinhos consumidos discretamente na Europa Ocidental. Mas foi esta pequena região que liderou o esforço esloveno de conquistar o mercado internacional, e pontuar a Eslovênia – apesar de representar apenas 0,5% dos vinhedos europeus – como alguma uma referência.
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Como dito, Brda situa-se no extremo oeste do país, fazendo fronteira com a região italiana de Friuli-Venezia Giulia, mais especificamente com Collio – área com a qual partilha não apenas características geográficas, mas também tradições vitivinícolas. Algumas vinhas literalmente cruzam a fronteira entre os dois países, tornando difícil determinar onde termina a Itália e começa a Eslovênia.
Encravada entre o Mar Mediterrâneo e os Alpes Julianos, Brda beneficia-se de uma combinação climática do frescor alpino e as influências mediterrâneas. O vento frio Bora, vindo do Adriático, traz sutis notas salinas aos vinhos, enquanto o calor que desce das montanhas contribui para a maturação das uvas. O rio Soča também desempenha papel importante no microclima regional. A brisa constante ajuda a evitar fungos. Não por acaso, a maioria dos produtores de Brda opera com técnicas orgânicas e baixo uso de enxofre.
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A marca registrada dos vinhos da região é a mineralidade pronunciada, característica derivada de um tipo específico de solo chamado “opoka” – combinação peculiar de marga e flysch (rocha sedimentar) formada por camadas sobrepostas de argila, lama e areia. Este solo poroso, rico em minerais, força as raízes das videiras a penetrarem profundamente em busca de água e nutrientes, concentrando sabores e conferindo aos vinhos uma assinatura mineral. A opoka é tão característica da região que se tornou sinônimo da identidade vitivinícola de Brda.
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“Brda” significa simplesmente “colinas” em esloveno. E são exatamente essas colinas que definem a viticultura local. A maioria dos vinhedos é plantada em terraços. A inclinação acentuada das encostas não permite irrigação nem trabalho com máquinas, tornando a colheita manual praticamente obrigatória. Cria-se assim o que se chama de viticultura heroica e todo o trabalho geralmente acontece dentro de círculos familiares.
A casta principal de Brda é a Rebula (27% das vinhas), seguida por Merlot (20%), Chardonnay (16%) e Sauvignonasse ou Sauvignon Vert (12%). O portfólio completa-se com Pinot Grigio, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Pinot Bianco, Picolit, Verduzzo, Pinot Noir e Syrah.
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A diversidade varietal remonta a 1823, quando um arquiduque austríaco ordenou que “todas as variedades nobres de videira que existem” fossem plantadas em sua propriedade na região de Štajerska. Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc, Merlot, Chardonnay e as várias Pinots chegaram da Europa Ocidental e rapidamente se espalharam por toda a Eslovênia, encontrando em Brda terroir favorável.

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A variedade autóctone Rebula (conhecida na Itália como Ribolla Gialla) é a grande estrela de Brda. Cultivada na Eslovênia há 250 anos, representa um quarto da produção total da região e é considerada a uva branca mais importante do país. O vinho geralmente caracteriza-se por teor alcoólico moderado, acidez elevada e buquê delicado com toques de limão, anis e especiarias secas. Versátil, presta-se à produção de espumantes, vinhos laranjas, brancos secos simples e vinhos doces. O favorito local nesta última categoria é o “slamno vino” (vinho de palha), elaborado com uvas secas em esteiras de palha – técnica ancestral mediterrânea.
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Outra das grandes surpresas de Brda – e da Eslovênia em geral – é a produção de vinho laranja. Este estilo resulta de uvas brancas deixadas em contato com suas cascas durante o processo de fermentação. O contato prolongado confere à bebida uma tonalidade âmbar característica e pungência oxidativa que lembra Jerez, com notas de nozes e frutas secas.
O vinho laranja não é novidade: trata-se de técnica ancestral praticada há séculos na região fronteiriça entre Eslovênia e Itália. Mas foi revitalizado nas últimas décadas e hoje representa uma das categorias mais interessantes e procuradas da enologia natural. Brda, junto com o Friuli italiano, são os epicentros mundiais desta produção.
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Em 2016, a Eslovênia tornou-se o primeiro país do mundo declarado Destino Verde Global, atingindo 96% de conformidade com os critérios de sustentabilidade exigidos. Brda incorpora perfeitamente esta filosofia.
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A região é considerada um dos destinos mais sustentáveis do mundo. Os visitantes percebem isso ao pedalar pela extensa rede de ciclovias, apreciar céus noturnos sem poluição luminosa ou fazer piqueniques nos pomares. A maioria das propriedades são vinícolas boutique que empregam técnicas orgânicas, respeitam ciclos naturais e mantêm biodiversidade.
“Voda za obraz je kakor vino za dušo” – dizem os eslovenos. Água é tão boa para o rosto quanto vinho é para a alma. Em Brda, cercado por colinas verdejantes, aldeias de pedra e vinhedos que contam séculos de história, compreende-se plenamente o significado profundo desta expressão. Aqui, vinho é mais que bebida: é cultura, identidade, conexão com a terra e com aqueles que a cultivam há gerações.
A seguir, confira os vinhos de Goriška Brda avaliados por ADEGA:
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