Velho Novo Mundo na África

Vinhos da África do Sul possuem muita história e atualmente tentam resgatar o prestígio que tiveram séculos atrás


Foto: Hendrick Holler

Se considerarmos o "Velho Mundo" como sendo o continente europeu, os rótulos da África do Sul são "novos". Entretanto, embora não seja exatamente de conhecimento geral, fato é que os vinhos sul-africanos não são tão "novos" assim. A relação da vitivinicultura com o país mais meridional da África é longeva, pois a região tem produzido vinhos há mais de 350 anos, quase há tanto tempo quanto algumas zonas europeias.

Localizado no extremo sul do continente africano, o país historicamente serviu de posto de abastecimento para os navios europeus que dobravam o Cabo da Boa Esperança em direção às Índias. Com isso, nos idos de 1655, holandeses teriam levado as primeiras mudas viníferas até o local. O médico holandês, Jan van Riebeeck, é tido como o pai da vitivinicultura local. Aos 33 anos, ele imigrou para a África do Sul para tratar e reduzir os riscos de escorbuto dos navegadores que se aventuravam na longa viagem da Europa até o Oriente. Riebeeck teria sido o responsável pela vinda e cultivo das tais mudas. Dados indicam que a primeira safra de vinhos sul-africanos foi produzida em 1659. Um dos maiores impulsos à atividade ocorreu por volta de 1688, com a chegada de protestantes franceses à Cidade do Cabo, fugindo de perseguições religiosas. Esse grupo tinha conhecimento e experiência na produção de vinhos, e acabou por colocar em prática em seu "novo lar".

Todavia, o grande marco da indústria vitivinícola sul-africana se deu a partir do surgimento do "Vin de Constance". Um vinho de sobremesa, elaborado principalmente a partir de uvas Muscat, distinguido por apresentar aromas doces de marmelada, pêssegos maduros, nectarina e toques de crême brûlée, que se tornou muito prestigioso nos séculos XVIII e XIX e apreciado por personalidades como Napoleão Bonaparte, o rei Luís Felipe da França, além de toda a realeza britânica.

Com o passar do tempo, o que se viu foi uma ampla expansão de vinhedos pelo país, acompanhada por um aumento da produção de vinhos. Entretanto, esse crescimento se deu de forma desordenada, fazendo com que o produto final perdesse qualidade. Por isso, em 1918, apoiados pelo governo, os produtores sul-africanos fundaram a KWV - Kooperatiwe Winjnbouwers Vereniging (ou Associação Cooperativa de Produtores de Vinho), que passou a regular toda a atividade, selecionando cepas, impondo cotas de produção e fixando os preços. Toda a produção excedente aos parâmetros determinados era destinada à destilação ou à produção de fortificados. O que foi inicialmente benéfico para a indústria, acabou, com o passar dos anos, por limitar a liberdade e a criatividade dos produtores, afetando o progresso da própria vitivinicultura.

Foto: Anna Lusty

Somado a esse "entrave burocrático", a reação do mundo ao regime do Apartheid, - que determinou uma espécie de boicote comercial aos produtos da África do Sul - gerou um período de obscuridade na atividade vitivinícola sul-africana.

O cenário começou a mudar a partir de 1991, com o fim do Apartheid e as consequentes reformas políticas. Além disso, em 1997, a KWV foi privatizada e atualmente os produtores trabalham de forma mais livre e animada. Pode-se afirmar, assim, que, dona de um passado brilhante, a vitivinicultura sul-africana tem vivido nas últimas décadas uma fase de significante renascimento.

Clima e solo

Em geral, o clima na África do Sul pode ser considerado mediterrâneo. Na verdade, ao contrário do que indicaria a latitude do país (entre os paralelos 22o e 35o), as temperaturas não são uniformemente quentes. Isso porque a região sofre forte influência da Corrente de Benguela, que vem da Antártica e refresca toda a área. Além disso, o chamado "Cape Doctor", corrente de ventos frios vindos do sudeste - bastante comum no verão -, baixa as temperaturas do interior do país, reduzindo também a umidade e o risco de incidência de fungos nas videiras.

As áreas vinhedos estendem-se pelos Cabos Ocidental e Setentrional, por aproximadamente 700 quilômetros de Norte a Sul e 500 quilômetros na faixa entre os oceanos Atlântico e Índico. Dessa forma, as composições do solo variam tanto quanto as paisagens locais. No distrito de Stellenbosch, há mais de 50 tipos de solo. Nas áreas próximas a encostas, predominam os graníticos. Mais no interior, ao redor de Robertson, verificam-se os calcários, semelhantes aos de Côte D'Or, na Borgonha.

Variedades

As cepas brancas sempre predominaram sobre as tintas em matéria de cultivo na África do Sul. Em 1996, essa supremacia era de impressionantes 80%. Entretanto, impulsionado pela demanda do mercado internacional, aumentou-se o plantio de uvas tintas, de modo que em 2009 estas já somavam 44% dos vinhedos cultivados.

A Cabernet Sauvignon é a principal variedade tinta; é a mais plantada, dá origem tanto a varietais quanto a elegantes blends de estilo bordalês, quando combinada a Merlot. Além disso, destaca-se a Syrah. Mas, a uva emblemática da África do Sul é certamente a Pinotage. Cruzamento de Pinot Noir e Cinsault, foi desenvolvida no próprio país e raramente é encontrada em outro lugar do mundo.

Indústria do vinho sul-africano começou a renascer depois do Apartheid

Foto: Klein Constantia

Dentre as brancas, o maior destaque cabe à Chenin Blanc. Embora venha perdendo espaço nas áreas de replantio, ainda hoje é a cepa mais cultivada no país - incluindo tintas e brancas. Também muito cultivada é a Colombard, embora grande parte de seus frutos se destine à produção de Brandy. A partir da Chardonnay, nas áreas mais frias, tem-se obtido rótulos de alta qualidade. Além dessas, encontram-se bastante Sauvignon Blanc e Muscat de Alexandria. Esta última se mostra capaz de produzir ótimos vinhos de sobremesa, dentre eles os renovados Vin de Constance.

A viticultura sul-africana evoluiu bastante nas últimas décadas graças à tecnologia aplicada especialmente na formação das mudas de Vitis vinífera. De fato, a indústria do país se utiliza de modernos sistemas de clonagem, produzindo cepas férteis, livres de contaminações e bastante resistentes a pragas. Tanto é que a África do Sul tem sido um dos maiores fornecedores de mudas para outros países do mundo.

Chenin Blanc é a uva mais cultivada

Foto: Hendrick Holler

Wine laws

Os vinhos da África do Sul submetem-se a uma legislação específica que prevê uma série de denominações de origem. O chamado "Wine of Origin Scheme" - WO - foi criado em 1973. Os vinhos que obtêm uma classificação WO devem ostentar o selo correspondente em seus rótulos. Para obter a classificação, o vinho deve ser submetido a um painel de degustação e atender aos seguintes critérios:

  • 100% das uvas utilizadas devem vir da área correspondente à denominação específica;
  • 85% das uvas devem vir da safra estampada no rótulo;
  • Para ser considerado varietal, 85% das uvas devem ser da cepa determinada.

As wine laws sul-africanas reconhecem quatro tipos de denominações: Geographical Unit, Region, District e Ward. Essas classificações variam de acordo com o tamanho e características da área e não de acordo com qualquer parâmetro de hierarquia. Nem todos os Districts são parte de uma Region, assim como nem todos os Wards são parte de um District, por exemplo. Além dessas, a legislação prevê a categoria Estate Wines.

Geographical Unit é a mais abrangente das denominações e permite que sejam produzidos blends a partir de uvas advindas de diferentes regiões e distritos. Por esse motivo, é largamente utilizada por produtores até mesmo para seus rótulos de categoria premium. Atualmente, a Geographical Unit de maior importância é Western Cape, 90% dos vinhos sul-africanos.

Regions são grandes áreas que tendem a apresentar características geológicas predominantes. Em Western Cape estão cinco Regions: Coastal Region, Breede River Valley, Olifants River, Klein Karoo e Boberg (esta última apenas para vinhos fortificados).

Districts tratam-se de áreas menores, cujas características ambientais exercem influência sobre o estilo dos vinhos nelas produzidos. Por fim, os Wards compreendem áreas com solo e geografia similares, que determinem a obtenção de um estilo de vinho bem distinto.

Para obter a denominação Estate Wine, um vinho deve ser produzido a partir de uvas de um mesmo vinhedo, localizado em uma área geográfica específica. Ademais, deve ser vinificado e engarrafado no local.

PINOTAGE

Impossível falar sobre os vinhos da África do Sul sem mencionar a uva emblemática do país. De fato, a Pinotage pode ser considerada a contribuição sul-africana para a história da Vitis vinífera. No intuito de adaptar a Pinot Noir ao terroir do país, por volta de 1925, Abraham I. Pernold, professor da Universidade de Stellenbosch, realizou um cruzamento entre Pinot Noir e Cinsault - lá comumente chamada de Hermitage, daí o nome Pinotage. A ideia era obter uma variedade híbrida que apresentasse o poder da Pinot Noir e a rusticidade da Cinsault.

De forma geral, os vinhos produzidos a partir de Pinotage são ricos, persistentes, bastante tintos, apresentam aromas exóticos e, por vezes, rústicos, além de taninos marcantes, que costumam ser domados com um período de envelhecimento em boa madeira. Ainda hoje a Pinotage é pouco cultivada fora da África do Sul. Brasil, Califórnia, Nova Zelândia e Zimbábue tem pequenas áreas de vinhedos da uva.

Os vinhos degustados

ADEGA pôde constatar a qualidade dos vinhos sul-africanos em uma degustação especial de oito rótulos de alguns do melhores produtores do país em matéria que você acompanha nas próximas páginas.

Eduardo Milan

Publicado em 15 de Maio de 2013 às 11:33


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Artigo publicado nesta revista