Revista ADEGA

Vinhos do deserto

Vitivinicultores chilenos se aventuram e desbravam novas regiões ao norte do país

Eduardo Milan E Christian Burgos em 11 de Novembro de 2011 às 15:04

Foto: Photoxpress.com

O Chile conta com longa história no cultivo de uvas e produção de vinhos. As primeiras mudas de vinhas Vitis vinifera foram trazidas por conquistadores e missionários espanhóis no século XVI. Mais recentemente, no início dos anos 1980, a vitivinicultura do país iniciou um processo de "renascimento", com o aumento do número de vinícolas, a produção de vinhos de melhor qualidade e a sua consequente exportação, fixando o Chile como um dos maiores produtores e exportadores do planeta.

Fotos: Divulgação Vinhedos da De Martino em Elqui e Limarí


O tipo de extensão territorial do Chile - que é um país "comprido" - proporciona toda essa expansão, já que faz com que exista uma série de latitudes específicas, que se traduzem em regiões produtoras, cada qual com suas características. Normalmente, o mapa do vinho lá divide-se - do norte para o sul - em: Coquimbo, Aconcágua, Vale Central e a chamada Região Sul.

De fato, o vinho chileno é amplamente consumido, fato que leva a indústria daquele país a investir em novas tecnologias e novas regiões produtoras. Seguindo esse movimento, as fronteiras para a produção de vinhos de qualidade vêm extrapolando os limites definidos nas últimas décadas. Prova disso é o que vem acontecendo no norte do país. As regiões de Coquimbo e - ainda mais ao norte - do Atacama vêm sendo mais trabalhadas e exploradas por enólogos de peso. É possível afirmar, assim, que a fronteira setentrional da vitivinicultura chilena está se posicionando ainda mais ao norte do país.


D.O. COQUIMBO
A Denominação de Origem (D.O.) Coquimbo fica na Região Administrativa IV do Chile, que leva o mesmo nome. Três são as sub-regiões: Vale de Choapa, Vale de Limarí e Vale de Elqui. Coquimbo, na verdade, é originalmente conhecida pelo cultivo de uvas de mesa e de uvas para a produção de Pisco - destilado típico do país.

Vale de Choapa
Localizado no ponto mais estreito do Chile, no Vale de Choapa não há muita distinção entre os Andes e a Cordilheira da Costa. O vale subdivide- se em dois setores: Illapel e Salamanca. As vinhas são plantadas em solos rochosos e produzem uvas de alta qualidade em pouca quantidade. As principais cepas exploradas são Syrah e Cabernet Sauvignon.

Vale de Limarí
Ao norte do Choapa, o Vale de Limarí apresenta clima quente e seco. O solo contém elementos calcários e a nutrição das videiras comumente é feita por gotejamento. No entanto, a baixa altitude da Cordilheira da Costa permite que os ventos marítimos do Pacífico circulem ativamente pelo vale, do modo a refrigerá-lo. Isso, obviamente, exerce grande influência sobre as uvas. Assim, vinhos de Limarí têm se visto equilibrados, limpos, frescos e com notas minerais distintas. Destacam- -se aqueles produzidos a partir de Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay. Como exemplo, podem ser citados os esforços bem sucedidos das vinícolas De Martino, Maycas de Limarí, Santa Rita, Sútil, Tabalí e Tamaya.

Vale de Elqui
Mais ao norte do Chile, já no extremo sul do deserto do Atacama, o Vale de Elqui é tradicionalmente conhecido pela produção de uvas de mesa, mamão - entre outras frutas - e Pisco chileno. Todavia, como se vê em toda a D.O. Coquimbo, na região tem se explorado e cultivado cada vez mais uvas viníferas, desde a costa até os Andes. A maioria dos vinhedos é de altitude, cultivados a até 2 mil metros em relação ao nível do mar. A amplitude térmica é grande. Bons resultados têm sido obtidos especialmente com Syrah, ainda que existam também vinhedos de Cabernet Sauvignon, Carménère, Sauvignon Blanc, Merlot e Chardonnay.

A Viña Falernia foi a primeira vinícola chilena a explorar o potencial dos vinhos de Elqui. A partir de seus resultados, a região atraiu a atenção de enólogos do calibre de Alvaro Espinoza, coproprietário da GEO, e Marcelo Retamal, da De Martino, hoje grandes defensores e entusiastas da região e de seu potencial em produzir vinhos de alta qualidade, o que pode ser comprovado pelos bons resultados obtidos por vinhos do local em degustações mundo afora.

Fotos: Divulgação Felipe Toso, da Ventisquero, que está investindo em Huasco


REGIÃO DO ATACAMA

Até alguns anos atrás, o Vale de Elqui era a região vitivinícola mais setentrional do Chile. Entretanto, atualmente, ainda mais ao norte do país, na Região Administrativa III, já praticamente dentro do deserto, novos hectares vêm sendo explorados. É a região do Atacama, mais nova área de cultivo e produção vitivinícola do Chile.

Também situada em altitude elevada e apresentando clima muito seco e com grande amplitude térmica - quente durante o dia, frio durante a noite -, Atacama apresenta solo basicamente composto de areia e sal. Estima-se que lá existam atualmente 7 mil hectares de vinhedos cultivados. Assim como o que se vê a respeito da D.O. Coquimbo, a primeira fama do local vem da produção de Pisco - e obviamente uvas para sua destilação - e uvas de mesa.

A região Atacama divide-se em duas sub-regiões: Vale de Huasco e Vale de Copiapó.

Fotos: Divulgação

Vale de Huasco
O Vale de Huasco, conhecido como o "Jardim do Atacama", localiza-se a aproximadamente 160 km ao norte de Elqui. Apesar de apresentar clima muito árido e ensolarado, quase desértico, a região beneficia-se das brisas frias e da umidade que sopra das águas geladas do Pacífico, e os vinhedos, mesmo a 25 km do mar, são profundamente afetados por essa inexistência da Cordilheira da Costa, e que produz neblinas matinais como em Casablanca, mas com mais vento.

As condições são hostis. As vinhas têm que superar fatores tais como a salinidade e muitas rochas dos solos da região. Mas essas "dificuldades" parecem ser justamente o combustível para o trabalho de enólogos como Felipe Tosso - da Ventisquero - e Alejandro Galaz - da Ramirana, empresa do mesmo grupo. De acordo com Tosso, "plantar vinhas em Huasco é chegar ao limite". O solo é composto por pedras aluviais brancas e redondas com grande profundidade - o branco sendo resultado de sua formação por carbonato de cálcio.

Embora ainda em fase experimental, os resultados obtidos são encorajadores. Nas palavras de Galaz, o Sauvignon Blanc tem se apresentado bastante fresco e cítrico, com estilo entre o que se produz em Elqui e em Limarí. Por outro lado, o Syrah - feito a partir de vinhas muito jovens - se mostra fresco e estruturado, e apresenta notas salgadas. Ainda segundo o enólogo da Ramirana, o Pinot Noir 2011 é surpreendente e promissor, indicando que a cepa poderá ser uma grata surpresa nessa região.

 Aurélio Montes procura desbravar regiões ao norte do Chile, como Zapallar

VALE DE COPIAPÓ
O Vale de Copiapó é o ponto mais ao norte onde se explora a vitivinicultura no Chile. O enólogo Aurélio Montes, da Viña Montes, é um de seus desbravadores. Na verdade, a nova atividade vinícola em Copiapó é uma volta ao começo. Isso porque a história do vinho chileno data de 1551, quando a primeira colheita de uvas País foi feita por Francisco de Aguirre, justamente em Copiapó - cidade que se encontra num ponto equidistante entre a montanha e o mar.

Apesar do clima quase desértico, a fertilidade das terras do vale em direção aos Andes determina a produção de uvas de excelente qualidade para a produção de vinhos. Contudo, Aurélio Montes, ainda mais desbravador, confidenciou estar testando os novos limites norte do Chile, em seu caso, na região de Zapallar, 70 km ao norte de Viña del Mar, onde está sendo pioneiro na plantação de vinhedos de Sauvignon Blanc e Pinot Noir. Estamos presenciando o nascimento de novas regiões e novos vinhos e, pelo visto, o norte do Chile vai estar bem representado.


300 VIDEIRAS
Tivemos a oportunidade de degustar o Sauvignon Blanc de Huasco com Felipe Tosso em primeiríssima mão. Tratava-se de uma meia garrafa oriunda da terceira colheita desse vinhedo de apenas 300 videiras. A garrafa foi tirada diretamente do tanque e obviamente só tem a evoluir, mas estava surpreendente mesmo após um flight de cinco vinhos tintos. Aroma marcante de pera que se confirma na boca, que é fresca, cheia de vida e com mineralidade marcante. Um vinho longo e de retrogosto delicioso. Temos que torcer para que algumas das 300 garrafas que serão produzidas cheguem ao Brasil.


DOC

Artigo publicado nesta revista


Gran Reserva

Assine

Impressa
1 ano
Impressa
2 anos
Digital
1 ano
Digital
1 ano

Assine InnerImpressaImpressaDigitalDigital
1 ano2 anos1 ano1 ano
Edições12241224
Comprando Avulso você pagariaR$ 216,00R$ 432,00R$ 216,00R$ 432,00
Assine Agora porR$ 216,00R$ 432,00R$ 64,80R$ 100,00
Desconto
EconomizaR$ 151,20R$ 332,00
Parcelado sem juros no cartão de crédito 3x R$ 72,00 6x R$ 72,00
Assinando agora você GANHA também Guia ADEGA Guia ADEGA Vinhos do Brasil 2018/2019 + Poster "as cores do vinho"

Boletim Revista ADEGA

Receba no seu email grátis destaques de conteúdo e promoções exclusivas