Escola do vinho

Vinhos dos vulcões

O que há de especial nos vinhos elaborados a partir de uvas cultivadas em solos de origem vulcânica?


Vulcão

Solos de origem vulcânica são ricos em nutrientes

Na antiguidade, para todo fenômeno natural incompreendido, o homem buscava explicações sobrenaturais. Assim nasceram os deuses. Na mitologia, Hefesto (ou Vulcano) era o senhor dos vulcões, patrono dos ferreiros, e sempre é retratado em sua forja. Foi dela que Prometeu roubou o fogo e deu aos mortais, assim como de lá também saiu Pandora, a primeira mulher do mundo.

No entanto, não é somente na mitologia que as intervenções de Hefesto dão origem a algumas maravilhas. É fascinante pensar que após um dos eventos naturais mais traumáticos de um ecossistema, como a erupção de um vulcão, vai haver condições ideais para o cultivo de uvas com potencial de produzir vinhos de qualidade ótima e excepcional. Mas, é isso o que acontece.

Antes, quando se discutia sobre locais aptos para a o plantio de vinhedos, falava-se principalmente do clima, da exposição solar, da altitude etc. Porém, nos últimos anos, o solo vem adquirindo tanta ou mais importância, sendo sempre um dos pontos citados por enólogos em suas apresentações para explicar os motivos da escolha do local de plantio e também o porquê da qualidade ou do estilo de determinado rótulo.

 

Solo negro

Os muito escuros – quase negros – solos de origem vulcânica são ricos em nutrientes como magnésio, cálcio, sódio, ferro e potássio, vindos não dos depósitos de lava em si, mas sim da ação da água que “passa” por esses depósitos, irrigando a terra e carregando todos esses compostos para o solo e infiltrando-os. Além disso, a porosidade das rochas vulcânicas faz com que elas consigam estocar muita água (estudos indicam que essas rochas chegam a reter até 100% de seu peso em água), que é liberada gradual e constantemente para a terra, garantindo ótima irrigação natural até em épocas de seca. Assim, as raízes das plantas se mantêm sempre ativas e bem nutridas. As vinhas, suas uvas (que normalmente apresentam bastante concentração) e, consequentemente os vinhos, acabam sendo influenciados.

De fato, a conjunção de todos esses fatores produz vinhos, geralmente, com elevada sensação de frescor, de mineralidade, além de costumarem evoluir muito bem em garrafa, características comumente encontradas independentemente do estilo, do local ou da cepa utilizada.

 

Regiões vitivinícolas influenciadas

Etna

Etna, na Sicília

A Itália tem algumas das regiões de solos vulcânicos mais tradicionais, entre elas, a Campania, o Friuli, o Vêneto, mais especificamente na área de Soave, além do Etna, na Sicília, e de Pantelleria. Enquanto na Espanha, as mais afamadas estão em Tenerife e nas ilhas Canárias. Já em Portugal, podemos citar a ilha da Madeira e, na Grécia, a ilha de Santorini. Na França, a Alsácia é um ótimo exemplo dessa influência, assim como Baden na Alemanha. Cruzando o Atlântico, podemos apontar a costa oeste dos Estados Unidos, com o Napa, na Califórnia, o vale de Walla Walla, no estado de Washington e Willamette Valley, no Oregon. Por fim, no sul do Chile, a zona de Traiguén, na Província de Malleco.

Eduardo Milan

Publicado em 6 de Outubro de 2018 às 11:00


Notícias vulcões Sicília Canárias Santorini Madeira

Artigo publicado nesta revista