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Qual o estilo do espumante brasileiro?

Conversamos com enólogos que atuam no país para descobrir se o espumante brasileiro tem estilo próprio


Não é novidade que o Brasil vem produzindo vinhos de qualidade internacional de maneira geral. Não é tarefa difícil provar tintos e brancos de qualidade feitos aqui. Entretanto, ainda é pelos espumantes que nos destacamos mais, cabendo ressaltar que, mesmo assim, a qualidade é ainda heterogênea.

De fato, é isso que constatamos em nossas frequentes visitas a regiões produtoras, degustações de novos rótulos lançados – tanto por grandes vinícolas, quanto por novos pequenos produtores. Que vários espumantes brasileiros têm qualidade, não há o que se discutir. Todavia, o espumante brasileiro tem ou deve ter um estilo próprio? Qual seria esse estilo? Ter um estilo marcado é positivo? ADEGA esmiuçou o assunto, não exatamente para obter respostas taxativas, mas para levantar dados que sirvam como alimento à discussão e ao debate.

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Abarcar um continente

Antes de mais nada, o Brasil tem proporções continentais. Assim, geografia e clima são também bastante diversificados, permitindo que haja cultivo de uvas em uma série de regiões que apresentam diferentes condições de clima, solo, temperaturas etc. A vitivinicultura, que se iniciou no Rio Grande do Sul, hoje está presente também em outras áreas do território. Não é só no Sul do país, mas também no Planalto Catarinense e o no Vale do São Francisco, no Nordeste, que atualmente se produz espumantes. Há, inclusive, novos experimentos começando a surgir também no Sudeste. Obviamente, esse mosaico de condições se reflete no espumante produzido.

Ouvidos por ADEGA, Juliano Perin, enólogo da Chandon e atual presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Luciano Vian, da Don Giovanni, Alejandro Cardoso, da Décima e da Estrelas do Brasil, e Miguel Almeida, da Miolo, concordam que, por conta dessa multiplicidade de fatores, não existe um único estilo de espumante brasileiro.

A legislação que trata do assunto limita-se a normatizar expressamente a classificação dos espumantes nacionais conforme seu teor de açúcares totais (de nature a doce). Fora desse aspecto – e exceto pelas disposições especiais da DO Vale dos Vinhedos e das IPs Pinto Bandeira e Altos Montes – no Brasil pode-se produzir espumantes, teoricamente, a partir de quaisquer cepas e mediante o método de elaboração – tradicional ou Charmat – escolhido pelo enólogo, de acordo com critérios próprios. “Cada decisão tomada pelo produtor e/ou pelo enólogo muda a história natural de qualquer vinho, surgindo, logicamente, um estilo diferente”, afirma Miguel Almeida. De fato, Juliano Perin pontua que são vários os fatores que podem influenciar o estilo como: a variedade da uva, o processo de vinificação, a opção ou não pela fermentação malolática, o uso de vinhos de outras safras na composição do vinho-base e o tempo de contato com as leveduras, por exemplo.

Diferenças entre regiões e processos dificulta definir um estilo único

Todo esse cenário – diversidade de terroirs e inexistência de “amarras” para vinificar – confere grande liberdade e, certamente, permite que vinícolas e enólogos façam experimentações e explorem tanto seus vinhedos quanto suas cantinas de forma ampla, de modo a produzirem espumantes conforme os idealizam.

Mas, mesmo assim, existe um fio condutor ligando a produção nacional de espumantes: a regularidade na qualidade, ano a ano, aliado ao foco dos produtores em atender diferentes perfis de consumidor. E, alguns tipos principais podem ser identificados: espumantes de perfil mais jovem, leve, fresco e limpo, e espumantes de perfil mais clássico, mais maduros, complexos, volumosos e longevos, além dos espumantes moscatel.

Características comuns

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Juliano Perin resume bem, afirmando que “uma característica comum aos espumantes nacionais é que a maioria possui um agradável frescor em boca”. Semelhante é o pensamento de Luciano Vian, que sustenta que, de forma macro, o espumante brasileiro tem uma característica marcante, que é a fineza e a elegância com que se apresentam, limpos no aroma, com notas aromáticas bem definidas e boca com grande cremosidade. “Esse seria o estilo mais presente em nossos espumantes. Por outro lado, não temos normas quanto às variedades usadas e nem quanto ao tempo mínimo de cada processo, isso acaba gerando múltiplos estilos, que muitas vezes atendem um determinado grupo de consumidores”, afirma. Alejandro Cardoso completa ao dizer: “O que determina esses estilos é a que mercado ou a que consumidor queremos chegar, assim temos a possibilidade de ter um espumante para cada momento. Isso é um luxo!”

Essa liberdade é exaltada por Miguel Almeida, que pensa ser importantíssimo os consumidores brasileiros continuarem a acreditar e a valorizar esse vinho e todos os outros vinhos brasileiros. “Quanto ao estilo reconhecível, julgo mais importante para os produtores e/ou enólogos a manutenção da percepção inconsciente da qualidade do espumante nacional por parte dos brasileiros. Mais do que uma moda volátil, jovem ou complexo, os dois ou mais espumantes têm de ser bons!”, alega.

Porém, essa mesma liberdade é positiva até quando o espumante brasileiro mantiver parâmetros de identidade, podendo ser reconhecido pelo consumidor. Como bem assinalou Vian: “Precisamos marcar e sermos reconhecidos por um estilo de produto. Isso naturalmente vai conduzir os produtores a buscarem esse estilo. Por muitos anos permanecemos tentando ‘imitar’ produtos de outras regiões ou países, sendo que a matéria-prima, a uva, é produzida aqui. Hoje os espumantes estão trilhando seu próprio estilo, que está alicerçado sobre o terroir-país, que é exclusivo do Brasil, e nosso estilo, mesmo que com as disparidades, que tem agradado consumidores nacionais e internacionais. Temos nosso estilo de produto; precisamos padronizar o processo, para que cada vez mais produtos tenham esse padrão de estilo”.

Perin completa: “Mais do que ter um estilo de espumante definido, acredito que seja interessante trabalharmos para consolidar cada vez mais a marca ‘espumante brasileiro’, zelando sempre pela sua qualidade. Assim, acho que a marca será cada vez mais reconhecida e fortalecida, o que, em última instância, busca-se incessantemente”.

Assim, mesmo dentro da possibilidade de multiplicidade de tipos e estilos, seguindo o exemplo do que aconteceu em famosas regiões produtoras mundo afora, é provável que essa liberdade atual leve o Brasil a definir as melhores cepas para cada uma das regiões produtoras, o que, de certa forma, já foi feito na DO Vale dos Vinhedos, por exemplo.

A busca por um padrão superior de qualidade vem trazendo a necessidade de se ressaltar características verdadeiramente comuns e reconhecíveis na boca e no nariz que irão possibilitar dizer, com o passar dos anos, que esse ou aquele espumante – independentemente se for de perfil mais jovem, clássico ou maduro – é ou não do Brasil, ou melhor, de determinada região do país. Coisas que só o tempo dirá.

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Eduardo Milan

Publicado em 1 de Maio de 2019 às 18:00


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Artigo publicado nesta revista