As vinhas da história

Farroupilha e o Vale Trentino contam uma importante parte da história do vinho no Brasil

Sílvia Mascella Rosa em 22 de Janeiro de 2013 às 08:27

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A unificação da Itália, em 1870, depois de longos anos de disputas internas e externas, deixou a parte norte do país (principalmente o antigo império Lombardo-veneziano, que havia sido governado pela Áustria) mergulhada numa forte crise econômica, que fez com que milhares de famílias se lançassem ao mar em busca de países onde pudessem ter uma esperança de futuro.

Enquanto isso, no Brasil, o processo que poria fim à escravidão já era irreversível e os donos de terras buscavam alternativas à mão-de-obra escrava, e isso abriria os portos do país para imigrantes alemães, italianos e, já no século XX, japoneses.

No livro "Presença do Vinho no Brasil", Carlos Cabral conta que - para atrair mão-de-obra imigrante - as autoridades brasileiras enviaram ao sul do país os oficiais do serviço cartográfico do exército, entre os anos de 1870 e 1875, para dividir terras da união em lotes e linhas demarcatórias a serem entregues aos colonos, algumas delas existentes até hoje. Da mesma forma, foram sendo criados núcleos e colônias que viriam a se tornar importantes cidades da Serra Gaúcha.

UM LOTE E UM PROPÓSITO
O lote rural 59, em Farroupilha (antiga Nova Milano) foi vendido pelo governo por um valor simbólico a uma família de imigrantes da região italiana do Trentino Alto Adige, a família de Antonio Perini. "Até hoje acredito que essa foi a única reforma agrária que deu certo", comenta Benildo Perini, bisneto do imigrante e proprietário do lote 59, onde está instalada sua vinícola. Sua família sempre cultivou uvas em vários lugares da Serra e Benildo, no começo, entregava-as para a Cooperativa Vinícola Forqueta, a primeira cooperativa brasileira, fundada em 1929. Foi só no começo da década de 1970 que Benildo Perini começou a fazer seus próprios vinhos, e não parou mais de crescer: "As famílias de nossos ancestrais trabalharam duro nesta terra, e a antiga Nova Milano era um centro importante, pois era aqui que estava instalado o local oficial que recebia os imigrantes recém-chegados", explica.

Fabiano Basso e Marcos Vian, que afirma ser "possível fazer bons tintos de Cabernet e Merlot por exemplo, mais leves e jovens, que podem dividir a fatia de mercado com os moscatéis" na região

A pequena cidade de Farroupilha está praticamente no meio do caminho entre Caxias do Sul e Bento Gonçalves, dois importantes destinos dos mais de 80 mil imigrantes que o Rio Grande do Sul recebeu no final do século XIX, e por aquela região as fronteiras se confundem e os vinhedos ultrapassam divisas. Caxias do Sul ganhou, com o tempo, poderio econômico devido à agricultura e uma indústria que rapidamente se desenvolveu. O mesmo aconteceu com sua vizinha ao norte, a cidade de Flores da Cunha, que até hoje é a maior produtora de uvas do estado gaúcho.

Bento Gonçalves e Farroupilha tornaram-se, então, importantes zonas rurais, cujo escoamento de bens passava necessariamente por Caxias do Sul, pela linha férrea. Para os tantos imigrantes era a chance de, finalmente, ter seu pedaço de terra, alimentar a família, plantar, produzir e comercializar, reescrevendo suas histórias.

Indicação Geográfica Farroupilha será baseada na Moscato, a principal estrela de seu terroir


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O OUTRO VALE DE VINHEDOS
Ainda escondidos do movimento dos turistas, o Vale Trentino e os distritos de Vila Jansen e Monte Bérico descortinam um panorama de colinas cobertas de vinhedos como raramente se vê no Brasil. De profunda beleza e grande extensão, os vinhedos do município de Farroupilha fazem parte de uma "outra" história do vinho brasileiro que permaneceu - por décadas - ligada aos vinhos feitos com uvas americanas, mas que há alguns anos começou a apostar nos vinhos finos e numa uva em particular, a variedade Moscato, que se tornou uma espécie de bandeira para a região. Fazer um passeio de carro pelas estradas da linha Jacinto no verão, por exemplo, é deparar-se com uma paisagem verde de tirar o fôlego, tanto que aquela parte do município ficou conhecida como "Vale da Moscato".

O especialista em zoneamento vitivinícola e pesquisador da Embrapa, Jorge Tonietto, é uma das pessoas mais envolvidas nos estudos que levarão ao pedido de reconhecimento da Indicação Geográfica de Farroupilha ainda no primeiro semestre de 2013: "O destaque e diferencial dessa IG será o fato de ela estar focada exclusivamente nos vinhos com base nas uvas Moscato. A região está se estruturando para ser referência não apenas no carro-chefe - o Moscatel espumante -, mas também nos frisantes e nos vinhos tranquilos, buscando produtos com características da região onde a variedade Moscato Branco se desenvolve muito bem", explica.

De acordo com Tonietto, essa variedade de uva branca é muito bem adaptada à condição de clima dessa região da Serra Gaúcha, que é também relativamente úmida e caracterizada pelo risco de geadas tardias primaveris. "A Moscato Branco tem brotação tardia, o que permite que ela, em muitos casos, fuja da geada. E também temos na região o clone Moscato R2, que é bastante qualitativo e aromático e que, quando cortado com o Moscato Branco, amplia as percepções sensoriais dos moscatéis", revela o pesquisador.

VARIEDADE "QUASE" ORIGINAL
A região é caracterizada por vales e pequenas áreas de planalto, com altitude média entre 600 e 800 metros acima do nível do mar. A temperatura tende à baixa e o solo é um pouco mais fértil do que em zonas mais próximas, o que também é adequado para plantas de alta produtividade, como as videiras da Moscato.

O enólogo e produtor da região, João Carlos Taffarel, conta que a variedade Moscato Branco apesar de reputadamente ter vindo da Itália, não foi encontrada no banco genético (banco de geoplasma) nem da Itália e nem da França. Como também trabalha na Embrapa, o enólogo explica que o crescente sucesso dessa cepa fez com que fossem obtidos recursos para uma profunda pesquisa genética para tentar identificar sua origem. "Até bem pouco tempo, menos de uma década, a Moscato não tinha muito valor de mercado, mas isso mudou e assim conseguimos pesquisar mais. E conhecendo melhor a variedade somos capazes de produzir com qualidade superior e entregar ao mercado produtos diferenciados", conclui Taffarel, sócio da Vitivinícola Cave Antiga, que fica no distrito de Monte Bérico.

O município de Farroupilha é responsável por quase 45% da produção de uvas Moscato Branco de todo o estado do Rio Grande do Sul. Em 2012, segundo dados do Ibravin, foram colhidas e processadas 5,9 milhões de quilos da variedade. Para o presidente da AFAVIN (Associação Farroupilhense de Produtores), o enólogo Tiago Tonini, o trabalho que vem sendo feito sobre a linha de vinhos brancos aromáticos vai valorizar toda a região: "O mercado interno e externo para os vinhos da uva Moscato está crescendo muito, mas esse crescimento não pode ser apenas em volume. Os produtores precisam se preocupar com a qualidade, e as pesquisas para a obtenção da Indicação Geográfica auxiliam a região a crescer sem se perder no caminho. Isso sem contar que uma vez obtida, a IG aporta peso e força para toda a região", explica.

Ao ganhar maior visibilidade, um dos desafios que alguns produtores terão que enfrentar para aumentar a qualidade de suas uvas (e isso irá incluir uma difícil mudança de mentalidade histórica) é o de transformar seus parreirais do sistema de condução de latada para os que permitam maior aeração da planta (como o de espaldeira ou o "Y", por exemplo), pois mesmo que os clones da Moscato suportem bem o sistema de plantio em latada e a alta produtividade (ainda extremamente popular no município), produtores de todo o mundo que buscam fazer vinhos de alta qualidade - e consequentemente competitivos no mercado - baixam a produtividade de suas plantas.

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Variedade de microclimas do Vale Trentino favorece diversas castas


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APOSTANDO NOS TINTOS
No nordeste do município, mais precisamente no segundo distrito de Farroupilha, fica a Basso Vinhos e Espumantes. Fundada por quatro irmãos em 1974, a família vem de uma longa tradição vitivinícola, uma vez que Vitório Basso, bisavô dos fundadores, veio de Vicenza (Itália) trazendo consigo mudas de videiras, que plantou no distrito vizinho de Mato Perso (que pertence a Flores da Cunha). A nova geração é quem administra a empresa, que cresceu a ponto de ser a sétima colocada no ranking brasileiro em volume de comercialização. "Somos uma empresa enxuta, com custo de produção sustentável e que trabalha com um olho nos vinhos e vinhedos e outro muito atento no mercado e na distribuição, pois sabemos que são os canais de venda que dão sustentação para o negócio", afirma Fabiano Basso, diretor da vinícola.

Como tantas outras vinícolas da região, as uvas americanas foram as que primeiro trouxeram os consumidores para os vinhos da empresa, mas aos poucos a proporção de vinhos de uvas de mesa e de viníferas vem se invertendo, tanto que hoje dois terços dos rótulos da companhia são de vinhos finos. O enólogo Marcos Vian, gerente industrial da Basso, confirma a fama das uvas Moscato por aquelas terras, mas afirma que há mais a se buscar por lá: "Os vinhos da Moscato são leves e aromáticos e essa uva tem regularidade de produção independentemente da safra, o que ajuda a fazer vinhos com bons preços e atingir mais consumidores. Mas a Serra Gaúcha não é só isso, é possível fazer bons tintos de Cabernet e Merlot por exemplo, mais leves e jovens, que podem dividir essa fatia de mercado com os moscatéis", revela.

Esse pensamento é compartilhado também no outro extremo do município, na Vinícola Perini, na região de Santos Anjos, coração do Vale Trentino. Embora os moscatéis da empresa já tenham prestígio, de alguns anos para cá os tintos vêm se sobressaindo, especialmente os da variedade Marselan, um cruzamento das uvas Cabernet Sauvignon e Grenache, que vem se adaptando bem a algumas pequenas regiões do sul do país. "Aqui na nossa microrregião a Marselan alcança um excelente nível de maturação, praticamente o melhor entre as tintas, então seria um absurdo não aproveitá-la", afirma Benildo Perini.

86 pontos
MONTE PASCHOAL DEDICATO TANNAT 2011

Irmãos Basso, Farroupilha, Brasil (R$ 48). Rubi escuro, aroma denso com presença de madeira jovem, cacau e fruta negra. Tem taninos macios e corpo leve, com delicada fruta e final limpo. 12% de álcool. SMR

88 pontos
MONTE PASCHOAL MOSCATEL 2012

Irmãos Basso, Farroupilha, Brasil (R$ 25). O enólogo da empresa chama a coloração deste Moscatel de "cores inoxidáveis". Com certeza seu brilho e tonalidade prata esverdeada podem ser definidos assim. Os aromas são típicos da variedade, com frutas brancas doces e floral de jasmim e rosas. Mas é na boca que sua jovialidade e frescor se mostram ainda melhor, com bom volume e persistência, tem final fresco, quase seco e muito saboroso com leve nuance mineral. SMR

89 pontos
PERINI QUATRO 2008

Vinícola Perini, Farroupilha, Brasil (R$ 80). A combinação de três uvas muito populares na Serra Gaúcha (Cabernet Sauvignon, Merlot e Ancellotta) e da Tannat, vigorosa na Campanha, resulta num vinho intenso e muito equilibrado. Os aromas são frutados, com maior peso na ameixa e no figo seco e com notas de evolução de couro e cacau. Encorpado e intenso, tem taninos marcados, mas amaciados, longo final e muita elegância. Tem 12% de álcool. SMR

88 pontos
PERINI MOSCATEL
Vinícola Perini, Farroupilha, Brasil (R$ 25). O município de Farroupilha é o maior produtor brasileiro de uvas Moscato (são diversas as variedades) e a Perini se dá muito bem com a variedade R2, que resulta em vinhos com forte carga aromática como este (frutas amarelas doces, toque de mel e floral), mas sem perder acidez, o que permite que o vinho - feito no método Asti de fermentação única - mantenha seu frescor e seja agradável de beber com sobremesas variadas, sem enjoar. SMR

86 pontos
TONINI MOSCATO SECO

Vinícola Tonini, Farroupilha, Brasil (R$ 12). A combinação das variedades Moscato Branco e R2 resulta num vinho amarelo claro, muito brilhante e com aromas atraentes que tendem ao floral. A acidez é bem marcada e o sabor é delicado e de permanência média. Simples e correto, é um excelente aperitivo para dias quentes e pode acompanhar muito bem entradas leves, saladas sem vinagre e canapés. Tem 11% de álcool. SMR

No belo Vale Trentino, região que fica na divisa dos municípios de Farroupilha e Caxias do Sul, o clima subtropical úmido se espalha pelas colinas do vale criando vários microclimas, que favorecem o cultivo de muitas variedades de uvas. Não é de se estranhar, então, que nessa região estejam localizadas boa parte da vinícolas do município, muitas delas nascidas das cantinas artesanais dos primeiros imigrantes. Um passeio pelas estradas de terra revela casas centenárias, de pedra e madeira, com as cantinas no porão e os vinhedos à porta, como era costume há mais de um século. Parreiras em sistema de condução em latada convivem pacificamente com as videiras de viníferas, conduzidas em espaldeira ou em "Y". "As tradições estão presentes aqui, mesmo com a evolução qualitativa e com o crescimento das cidades ao redor (a própria Farroupilha é um polo de metalurgia, calçadista e de malharia do estado) e por isso fico feliz em ver meus filhos no negócio da família, trabalhando sério e amando o vinho com o mesmo ardor que eu tenho e que meus ancestrais tiveram", finaliza Benildo Perini.

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Para Benildo Perini, a Marselan é a casta que alcança o melhor nível de maturação entre as tintas no Vale Trentino


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