Digno de professor Pardal

Testamos o Coravin por seis meses

Veja como ele pode mudar a sua forma de degustar vinhos

Da redação em 20 de Junho de 2016 às 10:29

Às vezes, compramos algo com um misto de ceticismo e esperança. Afinal, seria tão bom se fosse verdade o que diz a propaganda. Foi com esse pensamento que, um dia, comprei a power balance, a “pulseira do equilíbrio”. Tinha visto o tenista Bruno Soares usando em quadra e acabei me convencendo a comprar uma para experimentar. Quando encontrei o tenista pessoalmente, já com o adereço no pulso, perguntei: “Por que está usando? Você acredita que funciona?”. E ouvi esta resposta: “Não acredito que faça diferença ao equilíbrio, mas, como estou numa fase de boas vitórias, continuo usando”. Como nunca estive em uma fase de vitórias no tênis, aposentei a minha.

Com essa mesma sensação, comprei um Coravin. Se você ainda não ouviu falar, é um equipamento para tirar o vinho da garrafa e, ao mesmo tempo, injetar um gás inerte para manter a conservação – tudo sem tirar a rolha. Inventado por Greg Lambrecht, pesquisador de equipamentos médicos formado no MIT, o aparelho introduz uma agulha fina através da rolha e injeta argônio dentro da garrafa. O gás entra e faz o vinho sair pela mesma agulha. Depois, retiramos a agulha e a incrível propriedade da cortiça de se recompor sela novamente a garrafa com o argônio dentro, evitando a entrada de ar.

A decisão de comprar veio após alguns meses de dúvida. Durante o International Tasting (evento realizado por ADEGA no último fim de semana de outubro de 2015 em que foram degustadas cinco safras de cinco grandes vinhos), comentei sobre o Coravin com a sommelière Gabriela Monteleone. Ela disse que havia testado o equipamento no DOM e gostado do resultado. Era o impulso que precisava para comprar o Coravin Model Two Plus em novembro de 2015 numa viagem aos Estados Unidos, pelo valor de US$ 349,95 mais taxas. Comprei também um conjunto extra de cápsulas de argônio, afinal, não sabia quanto duraria uma cápsula e não voltaria aos Estados Unidos até fevereiro.

 

A primeira prova

Cheguei de viagem e partimos para o trabalho. Era um artefato um pouco estranho, mas muito fácil de usar – sobretudo depois de assistir a um vídeo no site do Coravin. Testei com um vinho do dia a dia que tomei ao longo de três dias. Depois disso, senti-me confortável para, no fim de semana seguinte, abrir (não, não posso mais falar abrir) uma daquelas garrafas que ficam na adega esperando um momento mais especial. No caso, foi um Château Clerc Milon 2004, que degustei com grande alegria em dois fins de semana. Com isso, em dezembro, já tinha uma gaveta em uma das minhas adegas dedicada a tintos e brancos que fui degustando aos poucos e não mais com a pressa de consumir antes de o vinho se alterar.

 

Segunda prova

O ceticismo inicial abriu espaço ao entusiasmo de conversar sobre o Coravin e mostrá-lo a amigos, com mesma felicidade que temos ao apresentar um vinho especial que descobrimos. Mas, antes de atestar a eficiência do Coravin nas páginas de ADEGA, decidimos colocá-lo à prova numa degustação com a equipe da revista – evento que aconteceu em abril no nosso “QG de degustações”, o restaurante Praça São Lourenço, em São Paulo.

Naquela noite, após a degustação de trabalho, abrimos garrafas “abertas” (desculpe-me, mas “perfuradas” é muito feio) em dezembro, janeiro, fevereiro e março. Eram cinco vinhos de minha adega, alguns que comprei, outros que ganhei de presente de amigos:


BRANCOS
- Bonterra The Roost Single Vineyard Chardonnay 2012, Mendocino County, Califórnia, Estados Unidos – aberto em dezembro de 2015;

- Quinta da Romaneira Verdelho 2007 Douro DOC, Douro, Portugal – aberto em janeiro de 2016;

- N 2 Blanc de Valandraud 2009, Bordeaux, França – aberto em março de 2016.

 

TINTOS

- Château Le Puy 2004, Bordeaux, França – aberto em fevereiro de 2016;

- Xisto 2012 Douro DOC, Douro, Portugal – aberto em março de 2016.

 

Para mim, alguns vinhos se transformaram mais que outros desde a primeira vez que havia degustado, mas todos continuavam deliciosos. Alguns pareciam ter passado por uma aeração no decanter, enquanto outros precisavam ainda de tempo em taça para abrir. Todos esperávamos que os brancos, orgânicos ou biodinâmicos, pudessem ser afetados, mas não foi o que aconteceu. Parece, sim, que, quando a quantidade na garrafa se aproxima de um quarto do volume, a transformação é mais intensa, mas precisamos fazer testes com algumas garrafas do mesmo vinho e com esse objetivo em mente para tirar uma conclusão definitiva. Certo é que o Coravin funciona, e muito bem.

 

No restaurante

Alguns restaurantes na Europa e nos Estados Unidos já têm sua “Carta Coravin” com vinhos mais especiais vendidos em taça. No Brasil, a Vinheria Percussi, que sempre se destaca quando o assunto é o trato ao vinho, também aderiu à novidade. Jonas Soares, maître e autoridade do serviço de vinhos da casa, ressalta que “o vinho fica ainda melhor com o tempo em garrafa”. Perguntado quanto tempo durou o vinho que ficou mais tempo em garrafa, ele disse não poder responder, pois as garrafas são consumidas, em média, dois meses após serem abertas. “O que ficou mais tempo aberto foi um Brunello Altesino 2007, que foi consumido em três meses”, diz, contudo. Ele também comprovou a eficiência em vinhos menos estruturados, como um Pinot Noir da Casa Marín, que foi consumido em dois meses. Um fato muito positivo é que o preço da taça na “Carta Coravin” da Vinheria Percussi equivale exatamente à sua fração da garrafa, sem qualquer sobrepreço, pois, segundo Soares, “sabemos que vamos vender todas as taças e não teremos perdas”.

 

Facilidades em casa

Assim como o Silvio Santos recomendando o Netflix, minha relação com o Coravin é de consumidor. Recentemente comprei mais cápsulas e um jogo de agulhas diferentes para vinhos antigos que ainda não tive coragem de experimentar.

Posso dizer que o Coravin mudou minha experiência de consumo de vinho. Como gastei cerca de US$ 10 (nos Estados Unidos) por cápsula, e uma cápsula tem durado, em média, três garrafas, o custo para manter vivas três garrafas de vinhos especiais por, no mínimo, quatro meses, é uma pechincha. Vale ressaltar que, à medida que a garrafa vai esvaziando, gastamos mais gás para extrair a bebida.

Passei a beber menos e melhor. Como não me sinto na obrigação de consumir a garrafa inteira no fim de semana, acabo selecionando vinhos na adega que, de outra forma, não pegaria. Minha esposa quer um branco e eu um tinto? Sem problemas. Acabei formando uma gaveta com vinhos diferentes e já degustados, e cada amigo meu pode experimentar uma garrafa diferente. Tirei um pouquinho de um Barolo e ainda não estava pronto. Voltou para a adega.

Antes de ir ao restaurante, tiro uma prova do vinho que vou levar e tenho certeza de não chegar com um bouchonée na mão. Assim também não preciso levar uma segunda garrafa por precaução. Comecei a consumir mais Vinho do Porto. Como tomo menos vinho na refeição, passei a encerrar com uma taça daqueles Tawnies antigos – que, aliás, não se abrem com Coravin. Use o Coravin exclusivamente em rolhas de cortiça e em garrafas que não têm pressão interna, como espumantes.

Hoje, depois das taças e da adega climatizada, o Coravin é o assessório mais importante (e usado) em minha casa, e nos sentimos confortáveis em compartilhar essa descoberta com você ao dizer que o Coravin está testado e aprovado.


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