A teoria da simplicidade

Do biodinamismo fervoroso à fama repentina, o Château Le Puy se tornou um fenômeno mundial, mas não abandonou seus preceitos

Guilherme Velloso em 18 de Fevereiro de 2013 às 12:56

Clara Asarian/Estúdio Gastronômico

Na manhã de 11 de março de 2009, o escritório do Château Le Puy, pequena vinícola familiar na região de Bordeaux, foi inundado por um inusitado volume de pedidos, vindos principalmente do Japão. Além do número surpreendente, todos os pedidos eram para um vinho específico: o Château Le Puy, principal vinho da vinícola, da safra 2003. Esse vinho é um corte de Merlot, Cabernet Sauvignon e Carménère - com larga predominância da primeira, que, em geral, contribui com 85% do total.

Embora sua qualidade fosse reconhecida por críticos e consumidores bem informados, o Château Le Puy é um "Bordeaux Côtes de Francs", portanto não integra a elite das denominações da chamada "Margem Direita" do Gironde, como Saint-Émilion e Pomerol, com as quais compartilha praticamente o mesmo tipo de terroir. E, na época, nem de longe desfrutava da mesma fama, prestígio, muito menos preço, de muitos vinhos dessas duas regiões, nas quais figuram, entre os mais conhecidos, o Cheval Blanc (Saint-Émilion) e o lendário Petrus (Pomerol). O mistério era ainda maior porque 2003 não foi uma safra particularmente bem sucedida. Naquele ano, os vinhedos de toda a Europa foram afetados por uma onda de calor sem precedentes, o que significou, em muitos casos, vinhos sem a acidez ideal e com sinais de maturação excessiva das uvas, ou seja, menos elegantes.

Le Puy virou uma febre na Ásia depois de ser a estrela do mangá "As gotas de Deus"

Intrigado, Jean-Pierre Amoreau, proprietário do Le Puy, entrou em contato com o distribuidor de seus vinhos no Japão e logo ficou sabendo a razão do que estava acontecendo. Na noite da véspera, um dos canais de televisão japoneses transmitira um programa de uma série baseada num "mangá" (espécie de história em quadrinhos) que se tornara muito popular no Japão. O mangá conta a história de dois irmãos, filhos de um famoso crítico de vinhos japonês. Ao morrer, o pai determina em testamento que a extraordinária adega que acumulara em vida seria herdada pelo filho que conseguisse identificar, a partir de dicas propostas sob a forma de enigmas, 12 vinhos que ele compara aos 12 apóstolos de Cristo. Para completar a tarefa, teriam ainda que identificar um 13º vinho, o melhor de todos os provados por ele, e por isso mesmo definido como "As gotas de Deus", título do mangá e da série televisiva que originou.

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Os lavradores precisam estar de bom humor na hora da colheita, pois "nós emitimos energia, e ela passa para os grãos", garante Amoreau

O vinho revelado ao final do programa transmitido na véspera (disponível no Youtube), que ressaltou sua excepcional qualidade mesmo num ano muito difícil, fora justamente o Le Puy 2003.
A repercussão do programa foi imediata. Além das sucessivas ordens de compra que chegavam, naquele mesmo dia dois jovens japoneses se deslocaram de Paris até a pequena Saint Cibard, distante poucos quilômetros de Saint-Émilion, onde fica o Château, para comprar algumas garrafas do vinho.

Mais surpreendente, porém, foi a reação dos proprietários do Le Puy. Diante de um volume de pedidos que absorveria todos os estoques disponíveis na vinícola e em seus distribuidores em outros países (mais de 80% da produção é exportada), e que permitiria elevar substancialmente o preço de 15,50 euros, pelo qual o vinho vinha sendo comercializado, Jean-Pierre e o filho - e enólogo -, Pascal, decidiram simplesmente suspender a venda daquela safra, orientação transmitida também a seus principais distribuidores. Decidiram também que o estoque remanescente na vinícola, de aproximadamente 1.200 garrafas, seria vendido em pequenos lotes a serem liberados a cada 10 anos. Com isso, pretendiam conter a especulação e, como declarou Jean-Pierre na ocasião, "manter o vinho acessível a clientes que nos ajudaram a ganhar a vida nos últimos 50 anos". Só abriram exceção para eventuais vendas individuais, que não excedessem uma ou duas garrafas, na própria vinícola. Foi o que permitiu que os dois jovens japoneses que tinham vindo de Paris não voltassem de mãos vazias, pois cada um pode comprar a sua. Fora isso, a única providência foi aumentar o preço de catálogo da safra 2003 para 18 euros, um modesto incremento de pouco mais de 10%, ainda mais considerando que, logo depois do programa ir ao ar, o vinho chegou a ser vendido por até 1.000 euros a garrafa.

Clara Asarian/Estúdio Gastronômico/divulgação
Jean-Pierre Amoreau Mesmo com o sucesso repentino, Le Puy Jean-Pierre Amoreau decidiu não subir o preço de seu vinho


Uma filosofia
A reação da família Amoreau revela um pouco da filosofia que orienta o trabalho do Le Puy. A produção de vinhos na propriedade teve início em 1610 (o Château em si foi em boa parte reconstruído no século XIX pelo bisavô de Jean-Pierre, Barthélemy). E sempre esteve em mãos da família, hoje em sua 15ª geração. O comando sempre passa de pai para filho homem. Em que pese essa diretriz arcaica, dois dos vinhos produzidos atualmente homenageiam mulheres da família. O primeiro é o único vinho branco da casa, o Marie-Cécile (100% Sémillon); o outro é o raro - e caro - Marie-Elisa, um vinho doce produzido em minúsculas quantidades nos anos em que parte das uvas Sémillon é atacada pela chamada "podridão nobre". Não existe participação de enólogos externos na elaboração dos vinhos, como hoje é quase regra em muitas vinícolas bordalesas. "É o nosso savoir-faire acumulado geração após geração", observa Jean-Pierre, e resume: "Cada vinho que produzimos é a expressão de nossa família no copo".

Fiel aos preceitos biodinâmicos, proprietário do Château diz que seu vinho é a expressão de sua família, atualmente na 15ª geração

Desse "saber fazer" acumulado ao longo de mais de 400 anos de experiência transmitida diretamente de pai para filho resultou o uso de certas práticas de vinificação tradicionais (como a do "chapéu" submerso, para obter maior extração do mosto) e, principalmente, nos últimos 20 anos, a opção pela viticultura orgânica e biodinâmica.

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O cultivo da vinha e a produção de vinho no Le Puy são quase um livro-texto de tudo o que é recomendado por esse misto de filosofia e prática agrícola. Prova disso é que o Le Puy ostenta todas as certificações oficiais necessárias para um produtor ser considerado biodinâmico. No campo, isso obviamente significa que não é usado qualquer tipo de produto químico (herbicidas, pesticidas etc.) para combater doenças e pragas, mas apenas preparados naturais aprovados pelas regras da biodinâmica. Só é permitido pedir ajuda à própria natureza, como fez o Le Puy cultivando uma variedade específica de cogumelo que ajuda a combater certos parasitas. Significa também selecionar, manualmente, apenas cachos de uva maduros e integralmente sãos no momento da colheita ainda no parreiral. Segundo Jean-Pierre Amoreau, isso é feito para que os grãos sobremaduros não toquem os com maturação perfeita e não transmitam sua "energia" para eles. "Se você fizer isso numa mesa de triagem, é tarde demais", garante. Fora isso, ele diz que os lavradores precisam estar de bom humor na hora da colheita, pois "nós emitimos energia, e ela passa para os grãos".

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"A levedura é a expressão do terroir, por isso, precisa ser do próprio local", afirma Jean-Pierre Amoreau

Filho "bastardo"
Na adega, o cuidado em interferir o mínimo no processo de produção do vinho e não alterá-lo de forma artificial é ainda maior. Um bom exemplo é a questão das leveduras. Como qualquer vinícola que segue os cânones da biodinâmica, o Le Puy não usa leveduras artificiais, apenas as naturais. "A levedura é a expressão do terroir, por isso, precisa ser do próprio local", explica Jean-Pierre, que faz uma comparação bem humorada ao falar sobre o uso de leveduras selecionadas: "Um homem e uma mulher querem ter um filho e, para isso, usam o esperma do vizinho. Eles vão ter um filho. Ele pode até ser um bom garoto. Mas não será deles. Com o vinho, é o mesmo. Não se pode falar de terroir dessa maneira".

Com se sabe, a maioria das leveduras morre ao final do próprio processo de fermentação. Uma pequena porcentagem sobrevive, mas normalmente, morrem após a adição de SO2 (dióxido de enxofre ou anidrido sulfuroso) para proteger o vinho. Embora a adição de SO2, dentro de certos limites, seja autorizada pela biodinâmica, essa prática não é adotada em dois vinhos do Le Puy: o Barthélemy, o tinto top da vinícola, e o branco Marie-Cécile. São vinhos de produção pequena. A do Barthélemy, por exemplo, é de aproximadamente 10% da do Château Le Puy (também conhecido por "Emilien"), que oscila entre 140 e 180 mil garrafas, dependendo da safra. A do Marie-Cécile normalmente não chega a três mil garrafas por ano. A explicação de Jean-Pierre é que essas leveduras sobreviventes, que ele chama de "alcoólicas", começam a se multiplicar novamente e a absorver oxigênio, criando uma proteção natural para o vinho, garantindo assim sua conservação e longevidade. O Barthélemy 2000, provado pela equipe de ADEGA em companhia do próprio Jean-Pierre, comprova sua afirmação. Embora já delicioso e ótimo no copo, é um vinho de cor rubi claro, ainda jovem e com muitos anos de vida pela frente (veja quadro com comentários sobre os vinhos degustados na ocasião ao fim do texto).

Além dos citados, o Le Puy produz mais dois vinhos. Um é o tinto Blaise-Albert, uma espécie de "corte dos cortes", já que é produzido, somente em anos especiais e em quantidades minúsculas (apenas 400 garrafas numeradas), com as melhores parcelas dos melhores millésimes. A exclusividade fica evidente no fato de ele ser vendido unicamente em garrafas artesanais sopradas à boca de 1 litro, por ser conservado em barricas por 11 anos e ter-se que entrar numa lista para poder adquirir um. O outro vinho, Rose-Marie, como o nome sugere, é um rosé, que pode ser feito com qualquer das três uvas tintas cultivadas na propriedade.

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AOC PARTICULAR
Há alguns anos, Jean-Pierre Amoreau, proprietário do Château, encomendou um estudo geológico que identificou um pequeno lote de 5,6 hectares, dentro dos cerca de 50 que a propriedade possui, com uma composição distinta de calcário, e é neste lote que poderá ser aplicada a singular AOC Le Puy. "Fazemos vinhos muito diferentes de nossos vizinhos na Côte de Francs", defende Amoreau, que entrou com o pedido no INAO em agosto de 2011 e espera ter resposta afirmativa até 2014. "Será a primeira denominação de um único Château em Bordeaux", conta o proprietário.

Vinhos aromatizados?
Outro exemplo do cuidado em preservar ao máximo o trabalho da natureza é o uso do carvalho. No Le Puy, os vinhos amadurecem 24 meses tanto em foudres com capacidade para 5 mil litros como nas clássicas barricas bordalesas de 225 litros (mais nas primeiras do que nas últimas). Em ambos os casos, nunca se emprega carvalho novo, apenas usado (de 3 a 15 anos), para não aportar aromas da madeira ao vinho. "O gosto da madeira não é gosto do vinho", defende Jean-Pierre, que vai além: "Os vinhos que vão em barricas novas são 'aromatizados'".

Atividades corriqueiras na produção de vinhos como a batonnage (como o próprio termo francês descreve, trata-se de "misturar" de tempos em tempos o mosto fermentado, com o auxílio de algum tipo de bastão) são feitas de acordo com um preciso calendário lunar. Antes do engarrafamento, os vinhos não passam por nenhum processo de filtragem ou "colagem", práticas que objetivam eliminar eventuais resíduos da fermentação e deixá-lo mais "limpo". O engarrafamento também segue o ciclo lunar e só ocorre a meio caminho do quarto minguante. "O mundo é criado por um mix de energias cósmicas. Dizemos que é a lua porque a vemos. Mas essa energia vem de todos os planetas e está sempre mudando", aponta o vinhateiro.

Château Le Puy não usa madeira nova, pois "o gosto da madeira não é o gosto do vinho", segundo seu proprietário

Clara Asarian/Estúdio Gastronômico
Clara Asarian/Estúdio Gastronômico

Sem frescuras
Todos esses cuidados mostram que a frase impressa em cada rótulo do Le Puy ("Expression Originale du Terroir", em português "Expressão Original do Terroir") é muito mais do que um desses apelos de marketing tão comuns nos produtos (vinho inclusive) vendidos atualmente. É a pura expressão da verdade. O próprio Jean-Pierre faz questão de desmistificar o excesso de sofisticação com que o vinho é, muitas vezes, tratado atualmente. Segundo ele, a primeira função do vinho é "aplacar a sede". A segunda é "ser agradável ao paladar". Só depois entraria o aspecto intelectual, a sofisticação. E mais uma vez ele faz uma comparação brincalhona: "Quando se está no meio do ato sexual com sua parceira, está chegando ao clímax, você não para e fica teorizando o porquê daquilo estar bom, ou se a posição está adequada... É fato, primeiro degustamos, depois falamos". Aí, segundo ele, é preciso beber verdadeiramente o vinho para compreender suas qualidades e condena o ato de bochechar e cuspir, que muitos adotam nas degustações. "O ato de bochechar e cuspir está associado ao que faz o vinhateiro quando está provando suas barricas. Mas ele faz isso porque prova muitas e, além disso, com isso, só está procurando defeitos. Então, quando se cospe o vinho, você só identifica os defeitos; para identificar as qualidades, é preciso bebê-lo". E conclui: "Se você cospe, não vai saber se o vinho é bom ou ruim". Pior ainda. Pelo menos no caso do Château Le Puy o ato equivaleria a cometer um sacrilégio. Afinal, seria o mesmo que cuspir "gotas de Deus".

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OS MISTÉRIOS DA "CRISTALIZAÇÃO SENSÍVEL"
Técnica curiosa francesa permite "fotografar" a aura do vinho

Além de todo o arsenal disponível na biodinâmica, o Château Le Puy também recorre a ferramentas pouco comuns para avaliar suas práticas e seus vinhos. A mais curiosa talvez seja a "cristalização sensível" ou "morfocristalização". Como a francesa Margarethe Chapelle explica em seu site (www.oenocristal.com), a cristalização sensível é uma técnica de investigação adaptada por ela de pesquisas científicas desenvolvidas na Alemanha. Chapelle garante que, após 21 anos de experiência, a técnica possibilita traçar "um perfil preciso do vinho, da vinha e do solo". De forma simplificada, pode-se dizer que a cristalização sensível seria uma espécie de "fotografia" da aura (alma?) do vinho, ou seja, de suas qualidades e eventuais defeitos, identificados tanto no vinho em si como nas práticas agrícolas que lhe deram origem. No site do Le Puy (www.chateau-le-puy.com), é possível encontrar um exemplo concreto: a fotografia da cristalização sensível feita no Barthélemy 2009. A análise que a acompanha identifica um vinho com "densidade, força e muita energia bem distribuída".

Também revela que a colheita foi feita "no ponto da maturação completa das uvas" e que o vinho foi produzido "sem qualquer tipo de contaminação química", em ambiente "não agressivo" à parcela do vinhedo que o gerou. Por último, dá uma preciosa dica aos apreciadores desse vinho em particular: a de que ele "precisa tempo" para se abrir totalmente, sugerindo "no mínimo 24 horas para se apreciar todo o seu potencial". Os críticos que se cuidem!

DEGUSTAÇÃO VERTICAL CHÂTEAU LE PUY

ADEGA teve o privilégio de participar de uma degustação exclusiva de oito safras de Château Le Puy, conduzida por Jean-Pierre Amoreau, proprietário da vinícola, que está nas mãos de sua família desde 1610.

O Château Le Puy é elaborado a partir de Merlot (sempre com mais de 80% da mescla) e o resto de Cabernet Sauvignon e Carménère, com um primeiro estágio de 12 meses em grandes barris de 5.000 litros e, em seguida, é transferido para barricas usadas de carvalho francês, onde permanece por mais 12 meses antes de ser engarrafado. Sem dúvida, o destaque da degustação foi a safra 1955, o que serviu para provar que vinhos naturais podem sim se manter em perfeito estado por décadas. De fato, todos os vinhos estavam ótimos, uns mais exuberantes que outros, mas com certeza todos excelentes vinhos, acima de tudo elegantes e, porque não, delicados. Uma delicadeza que esconde intensidade, potência e profundidade ímpares.

AD 92 pontos
CHÂTEAU LE PUY 2006
Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine R$ 210). Apresenta linda cor vermelho-rubi de reflexos atijolados. Safra mais nova à disposição, mostra toda sua juventude nos aromas mais fechados e austeros, que depois de um tempo na taça passaram a mostrar frutas vermelhas maduras e secas, bem como notas herbáceas, defumadas, de couro, além de cativante sous bois. No palato, confirma a austeridade do nariz, exibindo taninos firmes, ótima acidez e final persistente, lembrando notas terrosas e de ervas secas. Um vinho mais longo que cheio que guarda uma potência e intensidade únicas, mas envolta por um ar refinado e elegante. EM

AD 91 pontos
CHÂTEAU LE PUY 2004
Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine R$ 210). Apresenta cor vermelho-rubi de reflexos atijolados, mas mostra notas mais pronunciadas de frutas vermelhas frescas e maduras que na safra 2006, além de toques herbáceos, terrosos, florais e de tabaco. Em boca, exibe o estilo austero, profundo e sutil da casa, mas de modo mais alegre, frutado e, porque não, mais acessível agora, em sua juventude. Tudo permeado por taninos firmes, ótima acidez e final longo e persistente. EM

AD 93 pontos
CHÂTEAU LE PUY 2000

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Apresenta cor vermelho-rubi de reflexos acastanhados. Consegue unir a qualidade e exuberância dos aromas encontrados no 2004, mas de forma mais classuda e cativante, com a austeridade, a intensidade e a profundidade encontradas no 2006. Ou seja, como se fosse uma feliz mistura dos aromas do 2004, com a estrutura de boca do 2006. Apesar de 13 anos, ainda está jovem e tudo indica com longos anos pela frente. EM

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AD 93 pontos
CHÂTEAU LE PUY 1996

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Apresenta cor vermelho-rubi de reflexos acastanhados. Aqui é possível perceber os sinais positivos do tempo em garrafa, isso em termos aromáticos, pois em boca não dá nenhuma pista de seus 17 anos. Os aromas já apresentam notas terciárias, permeadas por notas florais e herbáceas que foram aparecendo com o tempo na taça, além um caráter mineral, quase ferroso, que lhe confere um curioso e agradável frescor. No palato, tem acidez exuberante e taninos macios, sem perder a firmeza que lhe dá profundidade, tudo envolto num ar de sutil elegância. Uma delícia. EM

AD 90 pontos
CHÂTEAU LE PUY 1976

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Apresenta leve cor vermelho-rubi de reflexos âmbar, mais opaca e menos brilhante. Nessa prova, na certa, foi o que mais indicava os sinais do tempo e, porque não, um certo cansaço. Aromas também mais terciários, mostrando algo de sous bois, bem como notas minerais, herbáceas, florais, defumadas e de couro. Tudo de um jeito mais sutil, delicado. No palato, está melhor que no nariz, mostrando austeridade e frutas maduras, quase passadas, envoltas por taninos delicados, boa acidez e final longo e profundo. Um atleta que já foi profissional, mas continua atleta... EM

AD 92 pontos
CHÂTEAU LE PUY 1970

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Vermelhorubi brilhante com mais tons de âmbar. Está mais vivo que o 1976. Traz nos aromas um leve toque oxidativo que transmite austeridade, além de notas de frutas passadas e folhas úmidas. Em boca, está mais vibrante que no nariz, tem boa acidez, taninos ainda firmes, mantendo a estrutura e a profundidade encontradas no 1976. Muito longo. Não tem a fruta encontrada no 2006, 2000 e 1996, porém tem o mesmo esqueleto, a mesma consistência de estilo.

AD 94 pontos
CHÂTEAU LE PUY 1958

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Apresenta leve cor vermelho-rubi com predominância de âmbar. Tem a mesma vivacidade do 1970, porém ainda mostrando notas, mesmo que discretas, de frutas vermelhas frescas, além de toques florais e herbáceos. No palato, está muito melhor que no nariz, com taninos finos, porém marcantes, boa acidez e final delicioso, longo e licoroso. Tudo num contexto de elegância e sutileza, sem comprometer intensidade, potência e estrutura. Impressiona pela vitalidade e, porque não dizer, jovialidade. EM

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AD 96 pontos
CHÂTEAU LE PUY 1955

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Apresenta leve cor vermelho-rubi acastanhada de reflexos âmbar. No nariz está, de modo impressionante, mais vivo e limpo que o 1976, 70 e 58. Além dos aromas de frutas vermelhas passadas e das notas florais, defumadas, minerais e de sous bois, apresenta um toque oxidativo agradável e algo que faz lembrar marrom-glacé. Em boca, também esbanja vitalidade, tem taninos finos, mas ainda marcantes, acidez exuberante e fruta, muita fruta, mas num estilo mais maduro, quase passado, licoroso, delicioso. Tudo num contexto de elegância, finesse, intensidade e profundidade. Memorável. EM

AD 94 pontos
BARTHÉLEMY 2000

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). O Barthélemy é elaborado sob os mesmos preceitos naturais do Château Le Puy, porém com uvas de um único vinhedo chamado "Les Rocs" e sem adição de sulfitos antes do engarrafamento. Apresenta aromas de frutas vermelhas mais maduras, bem como notas herbáceas, florais e minerais lembrando talco, além de toques animais como de carne crua e de sangue. Em boca, é mais encorpado, cheio, com uma pureza de fruta impressionante, mas sempre mantendo a estrutura tânica e a ótima acidez, que lhe trazem intensidade, profundidade e frescor. Um clássico moderno. EM

AD 92 pontos
MARIE-ELISA 2001

Château Le Puy, Bordeaux, França (World Wine, fora de catálogo). Branco doce elaborado exclusivamente a partir de uvas Sémillon botritizadas. Apresenta linda cor amarelodourada de reflexos âmbar e aromas complexos de frutas brancas e cítricas em compota, bem como notas florais, de cera de abelha e de casca de laranja, além de toques tostados lembrando cocada queimada. No palato, exibe excelente equilíbrio entre acidez e doçura, tornando-o agradável de beber e nada enjoativo. Tudo permeado por um corpo untuoso, quase oleoso, que lhe confere mais intensidade e profundidade. EM


Grands Châteaux

Artigo publicado nesta revista

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