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"Talibã do vinho"

José Manuel Ortega Fournier vai contra o "imperialismo" do mundo do vinho na trilha de caminhos alternativos

Christian Burgos em 12 de Setembro de 2011 às 09:01

Fotos: Divulgação

A aparência é de um seguidor fundamentalista de alguma religião oriental. Contudo, por trás do negrume da barba espessa há um homem de grande energia e visão, em nada ligado a preceitos conservadores - a não ser quando relacionados ao respeito pelo que as gerações passadas fizeram com as vinhas e vinhos.

José Manuel Ortega Fournier, espanhol de nascimento, possui empreendimentos vitivinícolas em seu país natal, mas também na Argentina e no Chile, o que já dá mostras de sua ampla visão para os negócios globais. "É uma diversificação de riscos. Não só climáticos, mas também de política cambial e político. Hoje a operação na Argentina paga as contas da Espanha. Amanhã pode ser diferente", aponta sempre bem-humorado.

Em 2007, ADEGA entrevistou Fournier em uma de suas visitas ao Brasil (publicada na edição 37). Na ocasião, a barba ainda não era tão vasta e ele contava sobre sua opção de ter deixado a vida de alto executivo financeiro em 2004 para se dedicar aos projetos vitivinícolas, e "ganhar 10 vezes menos do que quando trabalhava no mercado financeiro", mas poder desfrutar da vida e "deixar para os filhos algo que tem uma história, reputação, credibilidade, que é mais importante do que deixar dinheiro".

Nesses anos que se passaram, seus vinhos se tornaram conhecidos e reconhecidos em todo o mundo e sua barba só fez crescer desde então. Mas sua dedicação aos seus projetos vitivinícolas e sua capacidade de trabalho é tão intensa que é como se ele ainda atuasse no frenético mundo financeiro. A cada dia ele parece estar em um país. Um dia na Argentina, outro no Brasil, na semana seguinte na China, depois Chile e assim por diante, em um ritmo digno de um grande executivo, sempre pronto para interagir com quem precisar, a qualquer hora do dia ou da noite. "Para mim não há outra solução. Não sou rico ou famoso, e custa muito levar isso adiante. Não tenho 100 anos no vinho. Tenho que ir ganhando espaço. Fico com o BlackBerry do lado da cama, mas vou colocar dentro do cérebro", ri.

Luna Garcia
José Manuel Ortega Fournier e sua esposa, Nadia. Projeto O.Fournier começou em 2000

Contra o "imperialismo"
O Projeto O.Fournier nasceu em 2000 na Argentina, com a primeira safra em 2001. Logo "voltou" à Espanha, com a aquisição de uma vinícola em Ribera del Duero em 2002, e, por fim, chegou ao Chile, no Vale de Maule, em 2007. Dentro da visão de Fournier, uma de suas preocupações é produzir grandes vinhos em cada um de seus empreendimentos, e sua filosofia vai contra as tendências. "Sempre escolhemos uma região com condições climáticas e de solo para o estilo de vinho que queremos fazer: elegante, com acidez, fresco. Uma vez escolhido o terroir, vemos quais variedades se dão bem nela. Se são variedades famosas, fantástico. Se não, não importa. Se estamos certos sobre a variedade, acabará ficando famoso. É questão de tempo", acredita.

#Q#

CAMINHO
Nos seis anos em que conheço José Manuel Ortega Fournier, ele percorreu um caminho longo e, da visão de "yuppie do mercado financeiro", parece que ficou apenas a grande capacidade de trabalho e a visão. Mas, quando perguntado se sua inconformidade com o establishment vinha da seca nas linhas de crédito para a construção de sua vinícola no Chile, ele retruca: "Acho que você está certo, mas sempre posso encontrar um investidor brasileiro para ser sócio no Chile", lembrando-me, novamente, que o homem de negócios continua atrás da barba.

Até compormos este perfil, encontramo-nos três vezes nos últimos três meses, uma vez no Chile, uma no Brasil e outra na Argentina no novo restaurante de sua esposa em Mendoza, o Nadia O.F. Nossos encontros foram sempre regados a vinhos de seus três projetos, que, por sua definição, têm o potencial dos grandes vinhos. Vinhos capazes de ultrapassar a barreira do tempo e sobreviver durante décadas.

E, por seguir essa linha, Fournier acaba trombando de frente com alguns produtores "Um problema é que as empresas são indústrias. Não há paixão, amor, proprietários comprometidos. Não tem gente com barba como eu, são todos muito elegantes, finos, aristocratas. Para eles, é business. Em algumas empresas, o gerente de exportações manda no enólogo, manda em todos", critica.

Carignan
"Para mim, o projeto no Chile é o mais especial, diferente, e único dos três. Sobretudo quando comparamos com a concorrência no país", diz Fournier, que admite ter encontrado o terroir de Maule quando já "estava jogando a toalha depois de três anos buscando um lugar". "Foi uma sugestão de Patricio Tapia. Um dia, ele disse uma frase que não esqueço: 'Se você quiser fazer vinhos de personalidade e distintos, vá ao Maule'. Desde então, sou defensor do Maule contra os 'inimigos corporativos'."

Mais do que defender o Maule, ele defende a Carignan. "Em 10 anos a Carignan será a princesa do Chile, destronando a Carménère", diz Fournier, sem medo de magoar. Por que tanta certeza? "Gosto de Carménère, mas não gosto dela como variedade nacional. As condições técnicas não se dão para que ela seja uma variedade nacional. E a Carignan tem um ciclo médio, que pode servir para zonas distintas; e fazer vinhos diferentes em cada uma delas. Por que Malbec e Tempranillo são variedades nacionais na Argentina e Espanha respectivamente? Porque são de ciclo médio e podem se dar bem em várias regiões."

Tradição
Pensando dessa forma e valorizando imensamente a sabedoria dos antigos, Fournier segue contra a corrente, especialmente no Novo Mundo. "No século XXI, temos a arrogância de achar que sabemos tudo, temos pouco respeito pelas gerações que vieram antes. Um vinhedo velho significa que alguém, durante 100 anos, ficou provando com variedades. E, se elas resistiram, é porque mereciam", afirma, justificando sua opção por buscar vinhedos antigos: "80 anos de Carignan, 120 de Cabernet Franc, 100 de Cabernet Sauvignon, e até a uva País de 80 anos". Mas a País poderia ser uma grande uva no Chile? "País é um Beaujolais. Ponto. Pode ter vinhos muito interessantes, frutados, frescos, fáceis, baratos, tchau. É impossível que se faça um vinho de alta gama com País. Há um limite", garante.

Apesar do estilo que a barba lhe confere e das críticas (bem-humoradas) às tendências mercadológicas do vinho, Fournier está mesmo longe de ser um fundamentalista, investindo na diferença ("Faz sentido diversificar e fazer vinhos de alta gama em diversos países"), sem deixar de lado, contudo, as tradições ("Sempre trabalhar com vinhedos velhos") para criar algo surpreendente ("Sempre vinhos distintos").


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