Estol, Estol...

Alerta na feira de vinhos do Brasil

Por Christian Burgos Publicado em 18/05/2015, às 00h00

Na cabine de comando do avião, uma elegante voz feminina, mas com um angustiante tom de urgência repete insistente “estol, estol...” quando uma aeronave em voo está prestes a perder sustentação e entrar em queda livre. O aviso indica ao piloto que algo está errado e que uma série de ações devem ser realizadas imediatamente para impedir um desastre. Nesse momento, simplesmente aplicar potência na mesma direção não será capaz de reverter o curso dos eventos.

No que tange à Expovinis, as pessoas divergem sobre quando a voz feminina começou a dar o alerta. Um profissional com anos de mercado atesta que “tudo começou no ano da sauna”, referindo-se à fatídica edição realizada no edifício da Bienal em São Paulo, em 2007. Outros foram ouvindo o aviso em momentos diferentes e abandonando o avião. Players importantes como Qualimpor, Valduga, Domno, VCT, Viníssimo, Miolo, Devinum, Cantu, World Wine/La Pastina e muitos outros decidiram investir em outras ações para promover seus vinhos.

Muitos explicam que a Expovinis não conseguiu definir seu foco e que, uma feira para exibidores que já estão no mercado e outros procurando importadores; para o trade e para o público, tudo junto e misturado, não atende seus objetivos. Outros, como ADEGA, investiram até este ano por crer que, sendo a única feira de vinhos do Brasil, a presença era quase obrigatória, e esperando melhorias definitivas com os novos proprietários. Na mesma linha, alguns voltaram à feira neste ano atendendo a um pedido de voto de confiança.

Deve-se dizer ainda que também falamos com expositores que ficaram satisfeitos com o resultado do evento, gostaram da qualificação dos visitantes, sobretudo no dia reservado ao trade (neste dia, curiosamente, recebemos em nosso estande visitantes e expositores da feira de turismo que acontecia nos pavilhões vizinhos). Mas todos, sem exceção, assustaram-se com a grande diminuição do tamanho (de espaço físico) do evento e no número de visitantes (seguramente foi a menor nos 10 anos de ADEGA).

As perguntas que ficam no ar são quanto e até quando vale a pena investir e apostar numa exposição na feira. Entre os fatores positivos estavam justamente os protagonistas do evento, os vinhos. Os expositores apresentaram muitos lançamentos e pudemos conversar com produtores e garimpar excelentes exemplares que apontamos em primeira mão para vocês nas próximas páginas, cuidadosamente selecionados por nosso editor de vinhos, Eduardo Milan.

DESTAQUES EXPOVINIS 2015

ESPUMANTES

AD 90 pontos
AURORA PINTO BANDEIRA MÉTODO TRADICIONAL EXTRA BRUT
Aurora, Pinto Bandeira, Brasil (R$ 60). Desde 2002 a vinícola não elaborava espumantes pelo método tradicional. Blend de 50% Pinot Noir, 25% Chardonnay e 25% Riesling itálico. Chama a atenção pela cremosidade e frescor do conjunto, é tenso, vibrante e gostoso de beber, tem ótima acidez e final persistente, com agradáveis toques minerais e cítricos. Álcool 12%. EM

AD 90 pontos
CAMPOS DE CIMA BRUT 2012
Campos de Cima, Campanha Gaúcha, Brasil (R$ 48). Blend de Chardonnay e Pinot Noir, mostra um estilo de fruta tropical e de caroço mais madura, privilegiando volume de boca, cremosidade e textura, sempre num contexto mais vinoso, permeado por vibrante acidez. Complexo tanto no nariz quanto na boca, exibe frutos secos, notas tostadas e de especiarias doces. Álcool 13,5%. EM

AD 90 pontos
LÚCIA CANEI SALTON BRUT ROSÉ
Salton, Tuiuty, Brasil (R$ 150). 100% Pinot Noir, permaneceu 18 meses em contato com as leveduras. Impressiona pelo equilíbrio, cremosidade e limpeza do conjunto. Tem um estilo que alia frescor, delicadeza e leveza com intensidade, tudo envolto por frutas cítricas, vermelhas e notas florais. Tem final persistente, com toques tostados, de leveduras e de frutos secos. Álcool 11,5%. EM

BRANCOS

AD 90 pontos
CHÂTEAU REYNON SAUVIGNON BLANC 2012
Denis Dubourdieu, Bordeaux, França (Casa Flora R$ 76). Branco composto de 88% Sauvignon Blanc e 12% Sémillon, sem passagem por madeira, mas mantido em contato com as borras por 5/7 meses. Chama a atenção pela estrutura, untuosidade e ótimo volume de boca do conjunto, tudo num contexto de acidez, frescor, frutas cítricas e toques herbáceos. Álcool 13,5%. EM

AD 91 pontos
CORTES DE CIMA BRANCO 2013
Cortes de Cima, Alentejo, Portugal (Adega Alentejana R$ 120). Blend de 40% Alvarinho, 40% Viognier e 20% Sauvignon Blanc, com estágio de 40% do vinho em barricas de carvalho francês durante cinco meses. Frutas cítricas e de caroço envoltas por notas florais e herbáceas. Vertical, longo, esbanjando frescor, com ótima textura e final suculento e agradáveis toques salinos. Álcool 13%. EM

AD 89 pontos
D’ALTURE LOUNGE SAUVIGNON BLANC 2013
D’alture, São Joaquim, Brasil (R$ 45). De propriedade do boliviano Roberto Chávez vem mais esta agradável surpresa em termos de Sauvignon Blanc de São Joaquim. Fresco, vibrante, cheio de frutas cítricas e maracujá. Chama a atenção pela textura e intensidade do conjunto, tem final persistente com agradáveis toques minerais. Álcool 12,1%. EM

AD 93 pontos
NICOLAS POTEL PERNAND
VERGELESSES VIEILLES VIGNES 2007
Nicolas Potel, Borgonha, França (Premium R$ 185). Álcool 13%. Pernand Vergelesses está situada ao norte de Aloxe-Corton, em Côte de Beaune. Branco que impressiona pela complexidade aromática, com notas minerais, de frutos secos e de mel, que envolvem as frutas tropicais e de caroço maduras. Alia volume, cremosidade e frescor, mostrando ótima textura e final longo e salino. EM

AD 90 pontos
PERICÓ VIGNETO SAUVIGNON BLANC 2014
Vinícola Pericó, São Joaquim, Brasil (R$ 70). Prova da vocação de São Joaquim para a Sauvignon Blanc. Nesta safra, tem o frescor e a ótima qualidade de fruta já características deste vinho, mas com o acréscimo de mais volume de boca, mais tensão, ótima textura – talvez pelo contato de quase três meses com as borras finas – e profundidade. Álcool 13,4%. EM

AD 93 pontos
VINOGRADI FON VITOVSKA 2012
Vinogradi Fon, Carso, Eslovênia (Decanter R$ 276,60). Branco com alma e estrutura de tinto elaborado por Marko Fon exclusivamente a partir de uvas Vitovska, plantadas a menos de 5 quilômetros do mar. Complexo na boca e no nariz, é um misto de frutas cítricas, notas herbáceas e mineralidade. Impressiona pela cremosidade e persistência, tudo num contexto de muito frescor. Álcool 13%. EM

ROSÉS

AD 89 pontos
FAUSTO DE PIZZATO MERLOT ROSÉ 2015
Pizzato, Dois Lajeados, Brasil (R$ 38). Sempre consistente safra após safra, parece que em 2015 houve uma escolha por um perfil de mais tensão, acidez e frutas vermelhas mais frescas, o que é muito bem-vindo. Mas, sem perder o que sempre teve, estrutura, corpo e bom volume de boca. Versátil, pode ser servido com aperitivos, frutos do mar e carnes brancas em geral. Álcool 12%. EM

TINTOS

AD 89 pontos
AURORA PEQUENAS PARTILHAS TANNAT 2013
Aurora, Las Brujas, Uruguai (R$ 50). Fruto da parceria entre Aurora e a vinícola uruguaia Gimenez Mendez, este tinto faz parte da nova linha Pequenas Partilhas Notáveis América do Sul, que inclui ainda um Malbec argentino, um Carménère chileno e um Cabernet Franc brasileiro. Tinto de boa tipicidade, em que a madeira está bem integrada e a fruta negra suculenta prevalece em meio à gostosa acidez e taninos de ótima textura. Álcool 13,5%. EM

AD 90 pontos
CORDILHEIRA DE SANT’ANA RESERVA ESPECIAL CABERNET SAUVIGNON 2005
Cordilheira de Santana, Campanha Gaúcha, Brasil (R$ 72). Já conhecida por lançar seus vinhos com mais anos de garrafa, o que é ótimo, a vinícola acaba de lançar a versão 2005 deste tinto, que é, sem dúvida, um dos melhores Cabernet elaborados em solo brasileiro. Num estilo clássico, tem acidez refrescante, ótima textura e fruta suculenta. Limpo, correto e sem arestas, tem ainda uns bons 10 anos pela frente. Álcool 13%. EM

AD 91 pontos
FALERNIA NUMBER ONE 2009
Falernia, Elqui, Chile (Premium R$ 130). Blend de Cabernet Sauvignon, Carménère e Syrah. Apesar do estilo de fruta mais madura, tem acidez vibrante e taninos tensos que trazem sustentação e equilíbrio ao conjunto. Chama a atenção pelo gostoso toque salino que acompanha seu final suculento e persistente. Álcool 14%. EM

AD 95 pontos
FOJO 2000
Quinta do Fojo, Douro, Portugal (Job Total R$ 1.615,36). Apesar de mais de 10 anos de garrafa está ainda um bebê. Num estilo concentrado e de fruta mais madura sem ser em nenhum momento moderno, mas muito bem equilibrado por taninos de textura impressionante e notas de ervas maceradas e de eucalipto, que lhe trazem frescor, tensão e vibração. Elegante, fino, muito compacto e preciso, tudo dentro de um contexto de força e intensidade pouco comuns. Álcool 14%. EM

AD 90 pontos
LAVRADORES DE FEITORIA CHORINHO 2013
Lavradores de Feitoria, Douro, Portugal (Adega Alentejana R$ 70). Homenagem ao ritmo musical brasileiro, este tinto frutado e cheio de frescor é muito agradável e gostoso de beber. Tem ótima textura e final suculento, com toques herbáceos e salinos, parecendo menos complexo e profundo do que realmente é. Álcool 13%. EM

AD 92 pontos
LIMITED EDITION SYRAH 2013
Pérez Cruz, Maipo, Chile (Almeria R$ 90). De boa tipicidade, este tinto elaborado a partir de Syrah do Alto Maipo mostra aromas de carne e de especiarias picantes que envolvem as notas de amoras e ameixas. Chama a atenção pelo frescor e pela ótima textura de seus taninos. Tem final persistente, com toques minerais. Álcool 13,5%. EM

AD 89 pontos
PERICÓ BASALTINO PINOT NOIR 2013
Vinícola Pericó, São Joaquim, Brasil (R$ 85). Mostra claramente uma mudança para um estilo menos concentrado e potente, deixando aflorar a intensidade da Pinot. Seguramente a melhor versão de Basaltino já elaborada. Apesar de muito jovem, mostra madeira bem integrada e um perfil de fruta mais fresca, que traz vivacidade e tensão a todo conjunto.  Tem boa tipicidade e está muito gostoso de beber. Álcool 13,2%. EM

AD 92 pontos
PIANDACCOLI MAIOREM 2011
Piandaccoli, Toscana, Itália (Não disponível no Brasil). A vinícola está localizada no coração da zona de Chianti e somente usa variedades autóctones. Neste caso, o blend é de Sangiovese com Pugnitello, Foglia Tonda, Mamolo e Colorino. Limpo, suculento, cheio de cerejas e framboesas envoltas por notas florais, terrosas e especiadas. Tem taninos de ótima textura, acidez vibrante e final suculento e persistente, com toques minerais e de ameixas frescas. Álcool 13,5%. EM

AD 90 pontos
PIZZATO CONCENTUS GRAN RESERVA 2009
Pizzato, Vale dos Vinhedos, Brasil (R$ 80). Sem dúvida, uma das melhores versões de Concentus já elaborada. Mesmo estando tão jovem, a madeira está menos protagonista nesta safra, talvez bem sustentada pela fruta mais tensa e fresca, além dos taninos de grão finos e de ótima textura. Está redondo e compacto, porém com condições de ficar ainda melhor em mais alguns anos. Álcool 13,5%. EM

AD 90 pontos
QUINTA DA NEVE PINOT NOIR 2011
Quinta da Neve, São Joaquim, Brasil (R$ 120). Reconhecidamente um dos melhores Pinot elaborados no Brasil, parece que nesta safra começa a atingir um equilíbrio ainda melhor entre fruta mais fresca, madeira usada, estrutura, intensidade e frescor, o que é muito bem-vindo. Surpreende pela tipicidade e textura de taninos, num jogo balanceado entre sutileza e força. Álcool 12,5%. EM

AD 93 pontos
RIBEIRO SANTO VINHA DA NEVE TINTO 2011
Magnum Vinhos, Dão, Portugal (Winebrands R$ 380). Projeto do renomado enólogo Carlos Lucas no Dão, este tinto vem de um único vinhedo de solo predominante granítico, apontando para a Serra da Estrela. Apesar de jovem, esbanja frescor, aromas florais, ótima textura de taninos e profundidade. Impressiona pela finesse e precisão do conjunto. Álcool 14%. EM

AD 90 pontos
SALTON SEPTIMUM 2009
Salton, Tuiuty, Brasil (R$ 120). O nome é uma referência às sete castas que compõem este tinto fermentado e estagiado em barricas. Blend de Tannat, Ancellotta, Merlot, Cabernet Franc, Teroldego, Cabernet Sauvignon e Merlot. Muito bem feito em seu estilo concentrado, potente, em que a madeira tem papel importante, mas está bem balanceada pela fruta de ótima qualidade e por sua vibrante acidez. Álcool 13,5%. EM

AD 91 pontos
SANTA CAROLINA SPECIALTIES ROMANO 2013
Santa Carolina, Colchagua, Chile (Casa Flora – Não disponível). Uva quase extinta no mundo, Santa Carolina fez um resgate de cerca de 400 plantas num vinhedo de Colchagua, de onde vem este tinto. Num estilo mais vertical, mostra muito frescor, fruta de ótima qualidade, taninos de grãos finos e final suculento e agradável. No aspectos de fruta e textura, lembra um Cru de Beaujolais. Álcool 13%. EM

AD 94 pontos
SASSELLA ROCCE RISERVA 2001
Ar.Pe.Pe, Lombardia, Itália (Decanter R$ 436,80). Um dos melhores produtores de Valtelina, na Lombardia, região reconhecida por produzir alguns dos melhores Nebbiolo – lá chamada de Chiavennasca –  fora do Piemonte. O vinho passa 3/4 anos por grandes barris de castanheira, acácia e carvalho. Fresco, intenso, vibrante e cheio de nuances e camadas, que terminam com toques de ervas secas e tabaco. Elegante e sedoso. Álcool 12,5%. EM

AD 89 pontos
SUZIN PINOT NOIR 2014
Suzin, São Joaquim, Brasil (R$ 88). Parece que a busca por uma fruta mais fresca, menos estrutura, menos potência e mais tensão deu resultados nesse Pinot, que tem ótima tipicidade e um perfil de frutas vermelhas mais suculentas, mas mantendo as características de acidez, frescor e intensidade inerentes à cepa. Surpreendente, tendo em vista a primeira versão desse vinho, que caminhava em direção oposta. Álcool 12,5%. EM

AD 93 pontos
VALENCISO RESERVA 1998
Valenciso, Rioja, Espanha (Premium – Não disponível). Safra inaugural deste ótimo e consistente vinho riojano. O tempo de garrafa está lhe fazendo muito bem. Esbanja elegância e complexidade, tanto no nariz quanto na boca. Cheio de frescor, mostra ótima textura de taninos e final longo e persistente, com delicioso toque de cerejas ácidas. Álcool 13,5%. EM

DOCES

AD 93 pontos
CEREMONY 20 YEARS OLD TAWNY
Vallegre, Douro, Portugal (Adega Alentejana R$ 70). Pedro Sá, antes a cargo da Burmester, é o enólogo por trás deste projeto. Mostra um estilo mais austero tanto no nariz quanto na boca, tem aromas complexos de frutos secos, tâmaras, iodo, além de toques florais, especiados e de cascas de frutas cítricas. Porém, o que chama a atenção é sua acidez vibrante e o final longo e profundo, cheio de notas salinas. Diferente dos demais, mas muito bom mesmo. Álcool 19%.  EM

AD 95 pontos
DOMINGO SOARES
FRANCO MOSCATEL ROXO 20 ANOS
José Maria da Fonseca, Península de Setúbal, Portugal (Decanter R$ 632,80). Branco fortificado doce elaborado exclusivamente a partir de Moscatel Roxo. Vinho de meditação, que mostra perfeito equilíbrio entre acidez e doçura. Cítrico, intenso, ótimo volume, tem final longo, quase interminável, com toques de mel,  tâmaras, iodo e frutos secos. Delicioso. Álcool 18%. EM

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