Os rumos da vitivinicultura argentina

Alberto Arizu, da tradicionalíssima Bodega Luigi Bosca, presidente da Wines of Argentina, prevê os rumos dos vinhos argentinos

Christian Burgos Publicado em 02/10/2012, às 12h45 - Atualizado em 24/01/2019, às 17h17

A família Luigi Bosca provém de duas correntes migratórias: italianos (Bosca) e espanhóis (Arizu), que remontam ao começo da vitivinicultura na Argentina. O primeiro a se estabelecer em Mendoza foi Leôncio Arizu, no final dos anos 1800. Ele fundou sua vinícola em 1901. Atualmente, seu bisneto, Alberto Arizu, é presidente da Wines of Argentina.

Pela vivência adquirida e pelo cargo, Alberto é obrigado a enxergar o mundo do vinho - e principalmente a participação da Argentina nele -, como um todo, um emaranhado de conexões que reflete o posicionamento de cada vinho no mercado global. Ele analisa e compreende o vinho argentino desde a sua origem para poder visualizar possíveis caminhos futuros e, em sua posição de liderança, não teme opinar sobre os mais diversos temas, apontando os possíveis rumos para a vitivinicultura de seu país.

Como você defi ne a Argentina no cenário vitivinícola mundial?
A Argentina tem uma história muito antiga, as primeiras vinhas que se cultivaram na América do Sul foram onde estava o império Inca, na região do Peru, norte do Chile e da Argentina. Elas começaram com a vinda dos colonizado- res espanhóis, mas desde essa época até mais ou menos 1780, não houve uma organização dentro do que era o cultivo de vinhas na Argentina. E depois disso aparecem os primeiros registros do ordenamento da vitivinicultura argentina, que toma muito impulso a partir de 1850, quando houve uma importação massiva de vinhas europeias e se criou a primeira escola de agronomia, em 1853. A Argentina tem uma vasta extensão de terras, com mais de 230 mil hectares de cultivo, com muitas variedades, e é um lugar com altitudes e latitudes que refletem uma combinação extraordinária para cultivar muitas castas.

Pode-se dizer que o conceito de altitude foi introduzido no mundo do vinho pelos produtores de Mendoza?
Sim, a altitude tem um valor importante porque, dependendo dela, a temperatura diminui e deixa o processo de maturação mais longo. A altitude não afeta todos os vinhos da mesma forma, mas provoca uma maturação fenólica mais extensa, o que deixa os vinhos com uma riqueza corporal, de cor, aromática etc. Essa combinação de temperatura e altitude é importante, por exemplo, no calor do norte argentino, nas zonas de Salta, Catamarca, que se compensa com uma altura de mais de dois mil metros. Essa combinação é o que dá à Argentina essa riqueza territorial.

Como surge o Malbec no cenário argentino?
Começamos um estudo há quatro anos para tentar identificar qual foi a data em que a Malbec deu importância para a Argentina, em que começa um processo administrado e ordenado que hoje nos resultou numa variedade que é praticamente flagship da Argentina. Esse mo- mento está muito vinculado à criação da primeira escola de agronomia, que foi fundada por um grande presidente argentino chamado Domingo Faustino Sarmiento, que trouxe para a escola um botânico francês muito famoso, Michel Aimé Pouget. Ele criou a Quinta Nacional Agronômica em 1853, o que deu o pontapé para a vitivinicultura organizada da Argentina, onde foram feitos os primeiros estudos ampelográficos que descobriram a Malbec. Foi uma data muito importante. Então, dia 17 de abril se comemora o dia mundial do Malbec, em que Wines of Argentina faz um tributo a uma variedade que não é argentina, mas que conseguiu lá seu maior reconhecimento.

"Estamos fazendo um trabalho bem grande de caracterização de terroirs mendocinos para identificar aqueles em que há uma personalidade"

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Qual o retrato da vitivinicultura argentina?
Comecei muito jovem, e para mim era muito chocante tratar de Velho e de Novo Mundo. Nós temos o antigo mundo, composto por países tradicionais como França, Itália e Espanha, principalmente, e logo temos o Novo Mundo vitivinícola, com países como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina e Estados Unidos. Mas Argentina era o quarto maior país consumidor do mundo, e o quinto maior produtor. E quando você tira uma foto, o modelo da atividade vitivinícola da Argentina se mostra muito parecido com o da Espanha, com pequenos produtores que são donos de pequenos pedaços de terra. 60% da superfície cultivada na Argentina pertence a pequenos produtores. Isso não é ruim, é um formato que tem muita importância para a economia das províncias que estão aos pés dos Andes, que são pobres em recursos, pois têm desertos com alturas distintas, de difícil cultivo. Da indústria vitivinícola argentina hoje vivem mais de 100 mil pessoas de maneira direta e mais de 300 mil de forma indireta.

Como você mapeia a região de Mendoza?
Sim. Mendoza corresponde a 70% da produção nacional e existem cinco grandes regiões dentro dela. Há cinco oásis em Mendoza. O do norte são distritos que se limitam com San Juan. O oásis central, chamado Primeira Zona, é onde está Luján de Cuyo e Maipú, ficando ao redor do rio Mendoza, até o oeste mendocino, com algumas diferenças de terroir e de altura, que vão desde 780 até 1.200 metros de altitude. Depois há um oásis ao sul dessa zona, que é a região do Vale do Uco, muito extensa, com altitudes de vão desde os 900 até 1.300 metros. O oásis leste é um grande produtor de uvas de alto rendimento, tem muita produtividade e abraça distritos como Junin, Rivadavia e San Martin. E finalmente há o oásis do sul, na zona de San Rafael, quase limite com Neuquén. Estamos estabelecidos em Mendoza, e ao longo dos anos fomos nos fincando nessas terras. Na Primeira Zona, que é Luján de Cuyo, temos quatro vinhedos, em Maipú temos dois, e no Vale de Uco, temos um. Estamos fazendo um trabalho bem grande de caracterização de terroirs mendocinos para identificar aqueles em que há uma personalidade ou caráter distinto.

Esse é o caminho?
Esse é o caminho para a Argentina e para o Malbec. A Argentina ultimamente conseguiu identificar uma variedade que é praticamente única no mundo, porque temos 32 mil hectares de vinhedos. A França, em segundo, tem 5 mil. O potencial desenvolvido pelo Malbec argentino é enorme. Mas hoje, falar de Malbec argentino é excessivamente genérico, inclusive o Malbec de Mendoza, ou de Salta, ou de Neuquén, Río Negro. Hoje é preciso falar de Malbec de terroirs. Mendoza tem muitos terroirs. A Argentina teve uma divisão geográfica geopolítica. Hoje estamos analisando diferenças que vão além do geopolítico.

O sucesso do Malbec traz alguns problemas como, por exemplo, outras variedades que se desenvolvem bem são colocadas em segundo plano.
É um desafio. Isso é algo que conversamos internamente, em nossa própria família, e também dentro da indústria vinícola. Conseguimos, como poucos países no mundo, desenvolver e trabalhar uma variedade que hoje está absolutamente identificada conosco. Isso permitiu que nos mostrássemos para o mundo e tivéssemos uma categoria de vinhos reconhecida e diferenciada. Logicamente, colocando toda a nossa atenção no Malbec, o que fizemos não foi deixar as outras variedades de lado, mas mostrar que a nossa primeira opção era Malbec. Mas creio que isso é um desafio para os próximos anos. A especialização é um elemento que é muito exigido no mundo do vinho. O caminho do Malbec permitiu à Argentina mostrar que é um produtor de extraordinária qualidade. Agora o desafio é ir além do Malbec. Argentina tem características, condições e qualidade para poder produzir outros vinhos.

Como fazer isso?
O Malbec sempre vai ser um símbolo argentino. E devemos conservá-lo. Com ele, conseguiu-se uma estandardização de qualidade muito alta. Os Malbec partem de um patamar muito alto. Para fazer o mesmo com outras variedades vai ser difícil. Sempre vamos ser reconhecidos por nosso Malbec, mas isso não significa que não podemos ser reconhecidos também por outras variedades. Outra grande variedade argentina é o Cabernet Sauvignon. Temos um Cabernet Sauvignon muito característico. Mas é preciso fazer um trabalho de promoção.

O Malbec corre o risco de sofrer do mesmo mal do Shiraz australiano?
De alguma maneira, nesse momento há uma dificuldade enorme de produzir barato. Isso pelo menos afasta essa possibilidade. Mas quando era possível fazê-lo, a Argentina não tomou esse caminho, e acredito que a grande diferença entre nós e os australianos é que temos uma vitivinicultura muito atomizada. Na Austrália, há quatro grupos que dominam 80% do cenário vitivinícola nacional. Esses grupos têm um poder muito grande, que lhes permite impor uma característica aos vinhos. E na Argentina isso é impossível. O maior grupo tem apenas 15% do mercado. Por um lado isso é difícil. Nós vamos precisar de muito mais tempo do que precisou a Austrália ou o Chile para impor uma categoria ao mundo, por não ter um grande grupo, ou uma grande marca internacional. O caminho é muito maior. Mas no momento em que a Argentina poderia ter tomado o caminho da Austrália de estandardizar a qualidade ou baixar preços, fazer volume, não optou por isso, preferiu se aprofundar na qualidade e diferenciação.

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"No momento em que a Argentina poderia ter tomado o caminho de estandardizar a qualidade ou baixar preços, fazer volume, não optou por isso, preferiu se aprofundar na qualidade e diferenciação"

O mercado sempre passa por tendências. Como o Malbec pretende sobreviver a novas modas?
O importante é que sigamos sendo uma categoria que propõe inovação, identidade e caráter em seus vinhos. Esse é o ponto mais importante. Depois da diferenciação dos Malbec, em função dos terroirs, de novas variedades, acredito que a Argentina terá um futuro extraordinário para mostrar a capacidade de poder fazer blends, de poder mesclar. Temos uma diversidade territorial tão grande em questões climáticas e de solos que nos permite produzir diferentes variedades com personalidades distintas, que logo, na mescla, resultam em vinhos maravilhosos. Temos um enorme futuro por aí.

Qual o papel da consistência da qualidade?
O consumidor precisa entre oito e 10 anos para assumir uma marca como parte dele. Para eu conseguir que minha marca prospere 10 anos, a importância não está em fazer um grande vinho, mas sim em fazer bons vinhos todos os anos. Tem muito mais valor fazer bons vinhos todos os anos do que produzir 200 garrafas ótimas. Nos últimos anos, a questão não é apenas fazer um grande vinho, mas como destacá-lo num mar de grandes vinhos. Ninguém lança um vinho no mercado que não seja bom. É uma loucura, um suicídio. Mas não é só a qua- lidade que importa. É a qualidade e a mensa- gem. É mensagem com qualidade.

Vinhos avaliados

AD 91 pontos
Finca los nobles Cabernet Bouchet 2007
Bodega Luigi Bosca, Mendoza, Argentina (Decanter R$ 258). Bouchet era o nome usado para chamar a Cabernet Franc ancestral de Saint-Émilion, que após estudos ampelográficos foi constatada ser a mesma uva encontrada na Finca Los Nobles, da família Arizu, em Luján de Cuyo. Tinto elaborado a partir de 88% Cabernet Sauvignon e 12% Bouchet, com estágio de 24 meses em barricas novas de carvalho francês. Apresenta cor vermelho-rubi e de ameixas e cassis, bem como notas minerais, de especiarias picantes, além de toques tostados e de alcaçuz. No palato, é frutado, encorpado, suculento, equilibrado, tem ótima acidez, taninos muito finos e final bastante longo, tudo envolto por uma agradável nota de grafite que lhe dá textura e uma sensação de frescor e profundidade. Carnes de caça ensopadas são sugestões para acompanhá-lo. EM

AD 93 pontos
Ícono 2008
Bodega Luigi Bosca, Mendoza, Argentina (Decanter R$ 430). Tinto a partir de uvas 55% Malbec e 45% Cabernet Sauvignon advindas de vinhedos em pé-franco de mais de 90 anos, com estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Apresenta intensa cor vermelho-rubi de reflexos violáceos e aromas de cerejas, ameixas e cassis, bem como notas florais e de especiarias doces, além de toques herbáceos, tostados e minerais. Em boca, é frutado, estruturado, equilibrado, suculento, muito bem construído no sentido de ser acessível quando jovem, mas com grande capacidade de envelhecimento. Longo, profundo e elegante, tem taninos muito finos e final remetendo a café e chocolate. Ideal na companhia de carnes vermelhas mais gordurosas. EM