Mundovino - Expovinis 2012

Sem crise

Diante do dilema da salvaguarda, Expovinis 2012 prometia ser palco de disputas, mas, no fim, mostrou que, como sempre, só serve de plataforma para o vinho, seja ele nacional ou importado


Paulo Dutra
Difícil dizer se houve momento de mais tensão no mercado do vinho no Brasil em alguma das 15 edições anteriores da Expovinis do que nesta. Sim, já houve o baque da substituição tributária, do selo fiscal, mas agora, a questão das salvaguardas parece que extrapolou qualquer barreira e a discussão ameaçava chegar às "vias de fato" durante a maior feira de vinhos da América Latina, que ocorreu de 24 a 26 de abril no pavilhão azul do Expo Center Norte, em São Paulo.

O campo para o debate parecia mesmo ideal: uma feira repleta de produtores nacionais, mas também recheada de estrangeiros que ainda buscam um lugar ao sol em terras brasileiras, o que é fácil verificar pelo tamanho dos estandes da França, Itália, Portugal, Espanha e Argentina, só para citar os maiores. Diante disso, houve, sim, quem aproveitou o momento de tensão e quis marcar sua posição no debate político, com protestos silenciosos ou não.



Expovinis 2012 teve mais de 400 expositores, que abriram cerca de 60 mil garrafas degustadas por mais de 19 mil pessoas


No entanto, na Expovinis 2012, a cultura do vinho provou-se cada vez maior e acima de questões pontuais. A frequência foi intensa, nos moldes dos anos anteriores, ou seja, um reflexo de que o mercado está mesmo se desenvolvendo.

Mesmo no primeiro dia, voltado somente ao trade, os corredores estavam tomados com pessoas sedentas por provar todas as novidades que eram apresentadas, independemente da origem. E assim foram os dias seguintes também.

Propósitos
Se alguns importadores nem sempre montam um estande na Expovinis, preferindo, às vezes, criar suas próprias feiras e eventos, os produtores em seus portfólios nem sempre se contentam com isso e fazem um pouco de marketing também na feira, pois sabem a visibilidade que ela traz. Ainda assim, muitos importadores aproveitam o ensejo para reunir um pouco do que há de melhor em seus catálogos e apresentar, como, por exemplo, Adega Alentejana - com diversos grandes nomes de Portugal; Cantu - com novidades da Ventisquero e outros produtores; Hannover - agora com catálogo expandido; Ravin - que trouxe gente de peso como Valdivieso e seu clássico Caballo Loco; Vinissimo - que colocou diversos produtores para apresentar seus próprios vinhos; entre outros como Vinho Sul, Épice, Barrinhas, Obra Prima e também importadores menos conhecidos como Prima Vinhos, Mar & Mar, Divina Botella, Union Cargo etc.

Pelo lado do Brasil, o Ibravin montou um vasto estande, reunindo produtores menores. Assim como também fez a Acavitis (veja mais detalhes no box). Mas a Expovinis tem muito mais do que produtores nacionais e importadores, há ainda aqueles que estão de olho em nosso mercado e buscam um caminho de entrada. Assim, os estandes da França, Itália, Portugal, Espanha, Argentina e Chile são sempre pratos cheios para provar novidades. Na França, por exemplo, pôde-se provar as mais variadas regiões vitivinícolas, desde Châteauneuf-du-Pape até Beaujolais. Em Portugal, as coisas novas passavam por Beira Interior, CVR Lisboa, Alentejo, Douro, Madeira etc.

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Argentina e Chile, com seus promotores, proporcionaram degustações dirigidas e comentadas por especialistas, oferecendo não somente novidades, mas também diversos produtores que já estão presentes no mercado nacional. A gigante Concha y Toro, de seu lado, montou mais uma vez um grande estande, que esteve abarrotado diariamente, dando a todos a oportunidade de provar sua vastíssima linha de produtos.

Mais do que rixas
Quem foi à Expovinis com ânimos à flor da pele, esperando por engajamentos políticos, certamente encontrou um pouco do que procurava, mas, quem foi com o espírito da descoberta, como manda a cultura do vinho, deu-se ainda melhor, pois encontrou lá muito mais gente disposta a discutir as maravilhas da bebida, todas as suas nuances e o que ela traz de bom, do que quem queria decantar um assunto corrosivo. No fim, o vinho sempre está acima de qualquer discussão.

O Brasil na Expovinis
Mesmo com a polêmica do pedido das salvaguardas rondando o ar, a participação das vinícolas brasileiras na 16a edição da Expovinis foi significativa e, segundo vários produtores presentes, os negócios potenciais aconteceram em bom número: "Estamos participando pela primeira vez, com nossos vinhos do Vale dos Vinhedos, e estamos muito satisfeitos com o interesse das pessoas e com o movimento", contou o enólogo André Larentis, da vinícola que leva seu sobrenome.

Do Rio Grande do Sul, 29 vinícolas participaram, enquanto de Santa Catarina vieram 13 empresas, quase todas reunidas nos estandes coletivos do Ibravin e da Acavitis, respectivamente. As empresas que se apresentaram em estandes individuais foram o Grupo Miolo, o Grupo Valduga (com um estande Valduga e um da Domno), a Salton, a Pizzato e a Aurora (esta última voltou a participar da feira neste ano, com um movimentado espaço) e, de Santa Catarina, a Pericó, que inaugurou seu primeiro estande individual, e que, mais do que vinhos, trouxe inúmeras novidades da inventiva cabeça do visionário Wandér Weege. Uma de suas últimas invenções, por exemplo, é um decanter-taça ou taça-decanter, que já mandou até patentear.

Como já é tradicional, as vinícolas guardam suas novidades para apresentar na feira e, em 2012, elas foram muitas, desde produtos recém- -lançados em linhas já existentes até empresas que estão chegando agora ao mercado, como é o caso da catarinense Hiragami, que trouxe suas primeiras safras de Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon e um espumante Rosé, bem como a Monte Agudo que também trouxe como novidade um espumante rosé.

Vinícolas tradicionais, sempre presentes na feira, como a Cordilheira de Sant'anna, trouxeram safras novas de seus vinhos já conhecidos, como o Gewürztraminer 2011, feito pela enóloga e proprietária Rosana Wagner. Perto dela, a Guatambu (na feira pelo terceiro ano consecutivo) apresentava três novos vinhos, também da Campanha. Já a Perini contou com vários lançamentos, como a linha de varietais Arbo e dois tintos e um branco da nova linha Fração Única, de vinhedos selecionados na região de Farroupilha.

Como sempre, feira serviu para os principais produtores mostrarem seus lançamentos ao mercado

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Entre as grandes, a Aurora trouxe seu primeiro Chardonnay com passagem em madeira, feito exclusivamente de um parreiral em Pinto Bandeira, além da nova safra do tinto Pinot Noir. Na Valduga, o maior lançamento foi o tinto "Raízes", que inicia a linha de vinhos que começa ser feita com uvas da Campanha Gaúcha, enquanto a Salton lançou o projeto Gerações, que a cada safra irá homenagear com um vinho um importante personagem da história da empresa. Neste ano, é um espumante Brut que homenageia Domenico Salton, o primeiro da família a chegar ao Brasil.

Também da Campanha Gaúcha vêm os mais significativos lançamentos do Grupo Miolo, entre eles um branco da uva Alvarinho (da Seival Estate) e um tinto da uva Tannat (da Almadén), feito a partir de vinhas com mais de 35 anos, cultivadas na divisa com o Uruguai. A parceria da Miolo com o narrador Galvão Bueno rendeu dois novos vinhos para a linha Bellavista Estate. Galvão Bueno falou com ADEGA entre goles de Sauvignon Blanc:

Quais são suas novidades para esta Expovinis?
Desta vez estamos lançando dois varietais para uma nova linha, a Bellavista Estate, que terá outro rótulo mais adiante, mas resolvemos começar com um Sauvignon Blanc e um Pinot Noir. Meu objetivo é que a minha linha de vinhos tenha sete rótulos, até agora são quatro. Para os próximos anos, estamos desenvolvendo um varietal super premium, que deverá se chamar 1836, em homenagem à revolução Farroupilha, e um tinto de Cabernet Sauvignon para a nova linha Bellavista.

Você escolhe pessoalmente os tipos de uvas que quer utilizar?
Eu sou metido e todo mundo sabe, e tenho a audácia de ir provar (e às vezes reprovar) com o Adriano (Miolo). Até este Sauvignon Blanc chegar aonde eu queria não foi fácil. Não queria um vinho ao estilo do Loire, queria um vinho ao estilo da Nova Zelândia. Meu desejo era fazer um vinho para surpreender, não para ser mais um. Em duas palavras: surpreendente e agressivo. Mas isso não quer dizer que não saiba das limitações dos vinhedos novos, então, eu que sonhava com um corte ao estilo de Bordeaux para meu vinho super premium, acabei me rendendo à elegância e (aqui vale o que penso para as outras linhas) à surpresa que foi a Petit Verdot. Assim, escutando os conselhos do Adriano, esse deverá ser meu vinho top.

BOAS NOVIDADES BRASILEIRAS NA EXPOVINIS

Aurora Pinto Bandeira Chardonnay 2011
Com este vinho a Aurora tem seu primeiro rótulo de terroir único, uma vez que as uvas vêm exclusivamente da propriedade da empresa no distrito de Pinto Bandeira. Elegante, sóbrio e ainda assim muito fresco e untuoso, é um grande lançamento, para beber agora e para guardar por uns dois anos.

Casa Valduga Gran Raízes Corte 2009
Primeiro rótulo da Valduga vindo dos vinhedos da Campanha, este é ainda um pré-lançamento, pois o vinho deverá chegar ao mercado apenas em julho deste ano. As uvas Cabernet Sauvignon, Franc e Tannat passaram um ano em barricas de carvalho e resultaram num tinto austero, de aromas intensos e paladar potente, embora com certa delicadeza. Vinho com personalidade diferenciada e uma feliz novidade no portfólio da Valduga.

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Perini Fração Única Merlot 2010
Pronto para beber, mostra a evolução do terroir específico da empresa em Farroupilha,objetivo dessa nova linha. Linda cor rubi vivaz, aroma de ameixa seca, pouca madeira para não comprometer a fruta e pimenta negra no final de boca, fácil e agradável.

Salton Gerações Brut
Homenageando o primeiro imigrante da família, Antonio Domenico Salton, o espumante Brut de corte (partes iguais de Chardonnay e Pinot Noir) e método clássicos tem garrafas limitadas e não deverá ser feito novamente, dando lugar a outro vinho e outro homenageado. Assim, vale a pena provar sua cremosidade e deliciosa acidez, com bons aromas de torrefação e sabor intenso.

Santa Augusta Espumante Demi Sec 2011
Santa Augusta Espumante Demi Sec 2011 Equilibrado e saboroso, é um corte de Cabernet Sauvignon (54%), Merlot (16%) e Chardonnay (30%) vindo das terras frias e altas do Vale do Contestado. Tem bom perlage e agradável aroma de frutas brancas doces. Sua acidez, mesmo sendo meio seco, o deixa muito agradável.

VINHOS AVALIADOS NA EXPOVINIS

Antoine Moueix Bordeaux 2009 - R$ 95 - 89 pontos
Bellavista Estate Sauv. Blanc 2012 - R$ 51 - 89 pontos
BenMarco Cabernet Sauvignon 2009 - R$ 75 - 89 pontos
Cave Pericó Brut 2010 - R$ 35 - 87 pontos
Château de la Mallevieille 2009 - R$ 45 - 87 pontos
Cono Sur 20 Barrels Sauv. Blanc 2009 - R$ 95 - 89 pontos
Cordillera Carignan 2008 - R$ 90 - 90 pontos
Isla Negra High Tide Carménère 2011 - R$ 39 - 86 pontos
Monte Agudo Cab.Sauv. Merlot 2008 - R$ 35 - 86 pontos
Ortigão Brut - R$ 58 - 87 pontos
Ponto Nero Brut - R$ 36 - 87 pontos
Quinta do Seival Alvarinho 2011 - R$ 54 - 88 pontos
Santa Augusta Brut - R$ 34 - 87 pontos
Ser Piero Chardonnay 2010 - R$ 59 - 88 pontos
Suzin Zelindo 2008 - R$ 90 - 90 pontos
Torii Cabernet Sauvignon 2008 - R$ 87 - 88 pontos
Tupu de Santa Cruz Ed.Limitada 2008 - R$ 139 - 89 pontos
YRNM Pantelleria Bianco DOC 2009 - R$ 165 - 89 pontos

BOAS NOVIDADES ESTRANGEIRAS NA EXPOVINIS

90 pontos
LES MARCOTTES 2010
Domaine Pierre Chauvin, Loire, França (Sem importador). Este Colheita Tardia produzido exclusivamente com uvas Chenin Blanc na região do Vale do Loire sofre a muito especial a influência de botrytis cinerea. É um vinho de cor amarelo dourado, intenso e muito rico, com deliciosos aromas de frutas amarelas maduras como damasco, pêssego, abacaxi. Também tem a elegância de notas delicadas de mel e frutas secas, muito fino. Na boca, reflete a elegância decorrente do equilíbrio entre o dulçor e a acidez. Com textura cremosa e boa profundidade encantam no paladar e é perfeito para harmonizar com queijos azuis. JTR

88 pontos
RAPOSEIRA SUPER RESERVA BLANC DE BLANCS BRUTO 2008
Caves da Raposeira, Lamego, Portugal (Sem importador). O prestígio dos vinhos da região de Lamego remonta ao século XVI e foi definitivamente consagrado com a produção dos espumantes Raposeira, empresa fundada há mais de 100 anos. A Raposeira conquistou uma posição sólida graças à qualidade dos espumantes. Elaborado apenas com uvas brancas e fermentado pelo método tradicional, este espumante apresenta cor amarelo-palha, com rico e fino perlage. Os aromas de mel, frutos secos, tangerina e panificação se integram perfeitamente e convidam para um gole. Na boca, tem uma ótima estrutura e persistência. VS

88 pontos
FOSS MARAI PROSECCO SUPERIORE EXTRA DRY
Foss Marai, Valdobbiadene, Itália (Union Cargo). Finalmente começam a chegar ao Brasil em maior número os espumantes Prosecco Superiore, da DOCG formada por produtores das comunas de Conegliano e Valdobbiadene. Este exemplar Extra Dry tem coloração amarelo claro e deliciosos aromas frutados com traço doce. Na boca, é fresco e não tão leve, com final de boca que lembra o limão siciliano, seco e perfumado. SMR

Da redação

Publicado em 15 de Maio de 2012 às 14:42


Mundovino

Artigo publicado nesta revista

O sabor da terra

Revista ADEGA 79 · Maio/2012 · O sabor da terra

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