A complexidade da Ferrari

Prédios extremamente diferentes entre si compõem o complexo vinícola da italiana Ferrari


Nova Ferrari tem estilo futurista, com fachada feita em metal e vidro

Giulio Ferrari, viticultor e enólogo pertencente a uma rica família italiana, tinha um sonho realmente ambicioso. Após retornar de um período de estudo de enologia na França, decidiu que conseguiria fazer em sua terra natal, Trento, no nordeste da Itália, um espumante segundo o método clássico francês, tão glorioso quanto o verdadeiro Champagne. Foi com esse sonho que, em 1902, com apenas 23 anos de idade, ele fundou a propriedade vitivinícola Ferrari.

Uma das sedes da Ferrari, a Tenuta Podernovo, na Toscana

O jovem sonhador perseguiu sua meta até os 70 anos, quando teve que vender sua propriedade por falta de herdeiros. A empresa foi transferida para a família Lunelli, que até hoje a conduz. No primeiro ano à frente da vinícola, os Lunelli conseguiram dobrar a produção, atingindo 17 mil garrafas. Só não produziram mais para respeitar a tradição mantida por Giulio de apenas produzir os espumantes com uvas trentinas.

Nos 17 anos seguintes, porém, os números de garrafas não paravam de subir, superando a marca de 100 mil por ano. Nesse momento, os Lunelli perceberam que a velha vinícola havia ficado pequena – as instalações precisavam, com urgência, ser trocadas. O local escolhido para sediar a nova propriedade foi Ravina, uma província às portas de Trento. A obra só ficou pronta em 1970.

A nova instalação, luminosa e imponente, foi construída para ser uma das maiores e mais belas da região. O resultado foi uma estrutura transparente, com uma fachada feita em metal e vidro e com lagos e esculturas em sua entrada. Um estilo realmente futurista. Além de bela, é espaçosa. Possui um espaço linear de 30 mil metros quadrados, onde repousam 15 milhões de garrafas de espumantes de estilos e safras variadas.

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Diversos estilos

Mas, a Ferrari não é formada por um único edifício. Vila Margon, Vila San Nicolò, Vila Gentilotti e Tenuta Podernovo são outros que fazem parte de seu complexo. Com isso, a arquitetura da Ferrari é formada por uma união de diversos estilos, que vão do barroco ao moderno, do clássico ao futurista. O motivo por trás da diversidade é simples – propriedades diferentes servem para produzir fermentados diferentes.

Sala de barricas da Tenuta Podernovo

A primeira delas, Vila Margon, está inserida em meio a campos, florestas e vinhedos. São 134 hectares, dos quais 20 deles preenchidos por vinhedos. É nesta paisagem bucólica que está inserido um majestoso casarão do século XVI, praticamente intacto. Ele é considerado pela própria família Lunelli como “uma bela miragem ou um castelo encantado”. Originalmente, ele era uma casa de veraneio que seguia o estilo da velha nobreza. Hoje, é um verdadeiro monumento trentino, uma mostra do estilo da aristocracia cosmopolita do velho Trento.

Locanda Margon, uma construção tipicamenete trentina

Além de beleza, a Vila Margon também guarda história. Já hospedou cardeais da igreja católica romana, e lendas dizem que o imperador Carlos V também já esteve em seus quartos. Os afrescos coloridos, que enfeitam tanto a parte externa quanto interna da propriedade, também remetem à história. Eles são a marca de uma época, mas também não deixam de olhar para o futuro. Muitos deles ilustram a preparação dos vinhedos, a poda, a colheita e o transporte das uvas. As paredes mostram o que aconteceria naquele local 400 anos depois de sua construção – hoje ele é a capital do império vitivinícola do grupo Ferrari.

Vila Margon e um detalhe de seus afrescos

Há ainda a Locanda Margon, uma construção tipicamente trentina. Nela, a enogastronomia está presente e se expressa em pratos diversos, sempre harmonizados com espumantes e vinhos Ferrari. É um espaço clássico e elegante, com uma decoração clara, límpida, para agradar os amantes da boa mesa.

Já a Vila Gentilotti é um dos poucos monumentos barrocos que ainda existem no Trentino. A construção, do século XVIII, é decorada por estátuas de Baco, Ceres e Saturno, divindades protetoras da agricultura. Ali estão 16 hectares de vinha que fornecem matéria-prima para os vinhos e espumantes Ferrari.

Na Villa San Nicolò, o espaço é um pouco menor, nove hectares. Por fim, ainda no complexo Ferrari, também está a Tenuta Podernovo, em Toscana, fora da região do Trento. Para homenagear sua localização, sua arquitetura obedece as características estilísticas da região.

Da redação

Publicado em 3 de Fevereiro de 2009 às 06:54


Enoarquitetura

Artigo publicado nesta revista