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  • Partitura vinífera

    A relação entre Mozart, vinho e ópera: da taça à partitura

    Como Mozart influenciou o mundo do vinho – literal e simbolicamente

    por Arnaldo Grizzo

    mozart
    Wolfgang Amadeus Mozart teve sua vida e obra marcadas por uma intensa produção musical e pela convivência com os círculos mais altos da sociedade europeia do século XVIII

    São diversas as histórias e lendas ao redor da figura de Wolfgang Amadeus Mozart. Aos cinco anos, este prodígio nascido em Salzburgo, na Áustria, já havia composto um concerto. Aos sete, uma sinfonia. Aos 12, uma ópera. Até morrer precocemente, aos 35 anos, ele produziu mais de 650 obras.

    Durante anos, Mozart se aproveitou de seu status nas cortes. Favorito de monarcas, protegido por nobres, o jovem logo descobriu os prazeres da vida e isso refletiu em sua vida e obra. A beleza das mulheres e o sabor do vinho foram alguns motivos para suas composições. Em companhia ou sozinho, o músico desfrutava e degustava desses prazeres, às vezes desenfreadamente.

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    Sempre em torno das pessoas mais importantes de sua época, Mozart tinha acesso aos melhores vinhos do mundo. Na Áustria, foi apresentado aos especiais Grüner Veltliner e aos vinhos da uva local Blaufränkisch. Na Itália, teria conhecido bebidas à base da Marzemino – aliás, é com uma taça deste vinho na mão que o personagem de Don Giovanni morre na ópera de mesmo nome.

    Vinho e mulheres

    E é exatamente na ópera Don Giovanni, de 1787, que o músico vai consagrar uma ária à sua bebida predileta. A ária de Champagne, também conhecida como “Finch’ han del vino”, é cantada galhardamente por Don Giovanni. Para quem não se lembra do mote dessa ópera, ela é baseada na história de Don Juan, o lendário arrebatador de corações femininos.

    Nesse trecho em especial, Don Giovanni, já jurado de morte por maridos ciumentos, diz ao seu pajem que organize uma festança e convide todas as garotas que conseguir encontrar pela rua, pois, na manhã seguinte, ele quer ver sua lista de conquistas aumentada em uma dezena.

    LEIA TAMBÉM: A música pode influenciar na qualidade do vinho?

    Na continuação da trama – que é cômica, mas acaba tendo um fim trágico para o personagem principal –, o vinho está presente. Quando uma de suas ex-amantes tenta convencer Don Giovanni a mudar de vida, ele logo exclama: “Vivan le femmine, viva il buon vino! Sostegno e gloria d’umanità” (Vivam as mulheres e o bom vinho! Sustento e glória da humanidade).

    Numa das cenas finais, o personagem central está em casa aproveitando-se de um lauto jantar. O pajem serve uma taça de Marzemino ao seu senhor durante sua derradeira refeição. É com esse vinho na mão que Don Giovanni é tragado por uma estátua amaldiçoada (que tragicomicamente havia aceitado o convite jocoso do anfitrião para cear consigo naquela noite).

    Era o espírito do pai da moça que ele tentou seduzir no começo da história e que acabou assassinado por Don Giovanni. Sem conseguir fazer com que o galanteador se arrependa de seus atos, a estátua acaba por levá-lo ao inferno.

    LEIA TAMBÉM: Ryuichi Sakamoto, vencedor do Oscar, cria música para degustar Champagne

    Naquela época, era comum toda ópera (assim como toda peça de teatro) ter uma lição de moral e a desta foi: “A morte dos pérfidos é sempre igual à sua vida”. São tantas as vertentes de estudo da biografia de Mozart – alguns afirmando seu modo de vida libertino e ao mesmo tempo outros atestando o contrário – que de edificante em relação a ele só podemos mesmo citar, seguramente, sua vasta obra, na maioria das vezes alegre, bem-humorada e, por vezes, sarcástica e chula, mas nunca menos brilhante e vivaz como a fluidez dos bons vinhos.

    Mozart pode melhorar o vinho?

    Sabe-se que alguns vitivinicultores costumam colocar alto-falantes em meio às plantações e deixar as parreiras se desenvolvendo ao som de música clássica. Segundo eles, desse modo as plantas dão melhores frutos. Recentemente, contudo, um francês radicado na Áustria foi além e criou um sistema que faz com que a música seja tocada dentro dos tanques de fermentação para que o vinho possa “ouvir” as vibrações.

    Segundo ele, a música interfere no movimento e ação das leveduras e, consequentemente, no processo de fermentação, deixando a bebida mais rica em sabores e sedosa em boca. Para o inventor dessa novidade, que costuma deixar seus vinhos “ouvindo” Mozart e Haydn, não importa a música, mas, sim, as vibrações dela, e ele assegura que os vinhos que se desenvolveram dentro de uma “cultura musical” são melhores (ou pelo menos diferentes) dos que não “ouvem” nada.

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