Entre casarões e lagares

A Quinta da Pacheca é uma viagem às raízes dos vinhos do Douro e marco na história portuguesa


Quinta da Pacheca/divulgação
Desde o começo da legislação que definiu as denominações de origem portuguesas, a Quinta da Pacheca já se destacava na produção de vinhos de qualidade na região do Douro. A história desta quinta, no entanto, é bem anterior à sua produção de vinhos. No século XVIII, mais precisamente em 1738, surgiu a primeira referência ao nome Quinta da Pacheca, usado por sua antiga proprietária, Dona Mariana Pacheco Pereira. Os vinhedos daquela propriedade pertenciam, anteriormente, aos conventos de Salzeda e de São João de Tarouca.

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Em 1903, D. José Freire de Serpa Pimentel, que nutria grande paixão pelo vinho e produzia a bebida na Quinta do Vale do Abraão, decidiu adquirir a Quinta da Pacheca para expandir seus negócios. Logo no primeiro ano, a família Serpa Pimentel – que continua à frente da quinta – reconstituiu os vinhedos. As parreiras passaram a ser plantadas de maneira a se apoiarem nas estacas conforme crescessem, com corredores mais largos entre si. Assim havia mais espaço para a circulação e para os trabalhos.

Casarão principal: a varanda lembra o interior paulista

Outra curiosidade sobre os seus mais de 37 hectares de plantações é que eles são planos. Ao contrário do Douro, onde as terras são elevadas, com pequenos montes, toda a extensão da propriedade desponta em uma planície dentro dos demais morros ao redor. Além de facilitar o cultivo das uvas, que não precisam ser plantadas em terras de morro acima, isto propicia uma vista estonteante.

O visitante da Quinta sente um clima agradável e ameno. Todos os espaços são recheados por um verde incomparável. Árvores, gramados, arbustos e trepadeiras formam um revestimento às construções.

Logo na entrada, um portão simples, mas imponente, leva ao começo de um passeio pela tradição. Uma alameda de 400 metros é guarnecida por robustos Plátanos com 80 anos de idade. Plantados pelo seu fundador, cortejam a todos os visitantes. A trilha, em pedra, aponta em direção a um largo pátio, com o chão todo branco refletindo a luz solar.

fotos: Quinta da Pacheca/divulgação
Passagens guarnecidas por trepadeiras

Ali, depara-se com as alvas paredes de quatro casarões, muito preservadas. Suas vigas estruturais são em pedra original, o que confere um leve toque rústico ao lugar. O tom cinza contrasta com os demais. A menor das construções serve de escritório. No lado oposto, há um armazém que guarda os tonéis, onde os vinhos descansam, protegidos da luz solar e de temperaturas extremas. O espaço comporta toda a produção da Quinta. Estes dois casarões, erguidos em 1915, são os mais recentes.

A antiga cocheira transformou-se na boutique para os turistas, com vinhos de inúmeras safras. Uma reforma estrutural tornou o lugar grandioso e com um ar moderno. O casarão principal, defronte à alameda da entrada, é a construção mais imponente e bela. Sua varanda lembra o interior paulista, mas com um toque clássico. Todas as portas e as janelas têm seus contornos delineados por pedras naturalmente belas. A porta da entrada principal é decorada com pequenos vidrilhos, em alusão a um mosaico. A parte de baixo da edificação é guarnecida por arcos típicos da arquitetura local. O momento de passagem por eles nos faz entrar no passado histórico da Portugal de nossos sonhos. Dentro, a decoração é clássica e rústica, convivendo junto com o moderno dos detalhes que as novas gerações adaptaram ao espaço. A mistura destes elementos mostra como evoluir mantendo o devido respeito às tradições.

Detalhes da Quinta

Na parte de trás da propriedade está situado outro casarão. Nele estão oito lagares, feitos de madeira, como manda a tradição. Cada um tem capacidade para até 10 mil litros de mosto. Isto perfaz um total de 12.500 quilos para serem esmagados com o pé. A pisa é feita pelos homens que trabalham na propriedade.

As cenas que a Quinta da Pacheca nos exibe faz lembrar do passado e da cultura do vinho. Uma Portugal antiga e preservada desde os primórdios da produção da bebida vive latente pelos casarões da vinícola. Um brinde ao velho Reino Unido de Portugal e Algarves.

Alexandre Saconi

Publicado em 20 de Setembro de 2007 às 11:14


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Artigo publicado nesta revista