Como nasceu o Don Melchor

Em 1987, nasce o primeiro vinho ícone do Chile, em homenagem ao homem que criou a maior empresa de vinhos do país, uma das maiores do mundo

Arnaldo Grizzo Publicado em 03/05/2011, às 12h14 - Atualizado em 18/09/2025, às 09h00

A trajetória do rótulo que se tornou ícone da vitivinicultura chilena

 

Don Melchor talvez seja o primeiro nome lembrado por muitos enófilos quando perguntados sobre qual o principal vinho do Chile. E, realmente, este rótulo tornou-se um dos principais símbolos do vinho chileno, representando o que de melhor é produzido por lá com a casta que, muito antes da recente febre da Carménère, sempre foi o pilar de sustentação da vitivinicultura do país, a Cabernet Sauvignon.

No entanto, o nome Don Melchor remete a muito mais que somente um rótulo, pois assim era chamado o fundador da maior vinícola do Chile, atualmente um dos maiores empreendimentos vitivinícolas do mundo, a Viña Concha y Toro. Don Melchor Concha y Toro, filho de Melchor de Santiago Concha y Cerda, nasceu em 1834.

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Na época, sua família já era uma das mais importantes do Chile, com muita influência política e econômica. Tanto que o fundador da vinícola, além de possuir negócios em diversas áreas e vários países, chegou a ser membro do congresso chileno durante bom tempo.

Don Melchor era um homem de caráter e com convicções fortes. Ele chegou a lutar por leis que protegessem a instituição familiar e, por mais que tivesse ávido espírito empreendedor devido a seu lado empresarial, foi figura fundamental na criação de fundações para proteger desamparados. Enfim, era uma pessoa de muita fibra moral.

Em 1834, quando Don Melchor Concha y Toro nasceu, sua família já era uma das mais importantes do Chile, com muita influência política e econômica. Assim, o fundador da vinícola, além de possuir negócios em diversas áreas e vários países, chegou a ser membro do congresso chileno durante longo tempo

Do início ao ícone

Em 1883, este visionário resolve trazer vinhedos franceses de Bordeaux para a região de Pirque, onde sua esposa, Emiliana Subercaseaux, havia herdado terras. Era o começo da história de Concha y Toro. As terras ficavam no sopé da Cordilheira dos Andes. Junto com os vinhedos veio um enólogo francês para cuidar dos vinhos.

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O sucesso foi rápido, tanto que em 1933, Concha y Toro já tinha ações vendidas em bolsa. Mais tarde, durante os anos de 1950, a empresa foi se expandindo e comprando novos vinhedos. Em 1963, nasce o Casillero del Diablo, vinho que logo se transformou no maior sucesso de vendas da vinícola e é um dos mais vendidos no mundo atualmente.

Anos antes, contudo, em 1957, Eduardo Guilisasti Tagle se juntou à Concha y Toro. Foi ele que iniciou a modernização da vinícola, focando na qualidade e nos mercados externos. Foi durante o período em que Don Eduardo esteve à frente da empresa que nasceu o rótulo Don Melchor, que veio para ser o grande ícone da vinícola.

Na época, ele acreditava que o Cabernet Sauvignon plantado em Puente Alto, no vale do Alto Maipo, tinha grande potencial. Assim, Tagle pediu ao filho, Rafael, e ao enólogo Goetz Von Gersdorff, que fossem à França visitar o “pai da enologia moderna”, Emile Peynaud para lhe apresentar os vinhos provenientes desta zona.

Diz-se que Peynaud gostou e reconheceu o valor do Cabernet de Puente Alto, mas não aceitou coordenar o projeto de Don Melchor pois já estava muito idoso para isso e indicou seu assistente Jacques Boissenot para assumir. A primeira colheita ocorreu em 1987.

Blend varietal

O aclamado vinhedo de Puente Alto (com seu clima mediterrâneo – dias quentes e noites frias devido ao vento que sopra dos Andes, com grande oscilação térmica) possui 114 hectares e fica 650 metros acima do nível do mar, logo no pé da Cordilheira, em um solo pedregoso pobre, que surge do material que o rio Maipo vai depositando durante os anos.

A idade média das vinhas de Cabernet Sauvignon é de 20 anos. Há ainda 7 hectares de Cabernet Franc que é integrado ao vinho nos anos em que o enólogo, atualmente Enrique Tirado – um dos maiores entendedores do terroir chileno –, acredita que é necessário.

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Com o passar do tempo, a equipe de Concha y Toro detectou seis parcelas diferentes de Cabernet Sauvignon neste vinhedo e as trata de maneira independente uma da outra, respeitando as características de cada uma. Então, cada parcela é vinificada separadamente e é feito um “blend” de Cabernet para compor o vinho final.

Com as parcelas estudadas separadamente, a colheita é extremamente seletiva, assim como o processo de seleção de uvas para a vinificação é apuradíssimo. Depois do blend, os vinhos repousam de 12 a 14 meses em barricas de carvalho francesas, dois terços novas e um terço de primeiro uso. Depois disso fica ainda mais um ano em garrafa.

Don Melchor costuma ser um vinho altamente consistente desde sua primeira safra e mais especialmente após Enrique Tirado ter assumido a frente do projeto.

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