100ª Safra

Um país cheio de desafios e imigrantes, onde o vinho era trabalho, tradição e religião, abrigou a família Salton. Neste ano, ela cruza a ponte que liga 1910 a 2010 fazendo do Brasil sua centenária casa


Fotos: Divulgação

No centro de Bento Gonçalves, apontando para a Igreja Matriz, o casarão de portas abertas recebia os clientes do imigrante Antônio Domênico Salton, que servia os pratos de sua terra, Valmarino, norte da Itália. Nos fundos, havia um vinhedo, de onde saiam as uvas para o vinho que acompanhava a refeição.

Uma história quase igual a de outros imigrantes que aportaram no Brasil. Quase igual. Em 1910, sete dos 10 filhos de Domênico (Paulo, Ângelo, João, José, Cezar, Luiz e Antônio) oficializaram os negócios do pai, que havia se tornado um empório, e fundaram em 25 de agosto, a Paulo Salton & Irmãos. Cem anos depois, a vinícola é a maior produtora de espumantes do país e está entre as três maiores em vinhos.

"Tio Paulo administrava, tio Luiz transportava e tio José ia vender os produtos em São Paulo no Mercado da Cantareira. Salames, queijos, vinho e vermute feitos pelos Salton", conta Antônio Agostinho Salton, diretor superintendente da vinícola, nascido na casa do avô há pouco mais de 70 anos. Seu pai era Antônio Salton (apelidado de Nini), o mais novo dos filhos homens de Domênico. "Meu pai nasceu em 1901, foi um autodidata e era quem mais gostava de fazer vinhos, tendo começado aos 16 anos, com o conhecimento obtido através da amizade com um enólogo italiano e com o padre", explica Toninho.

Pouco depois do nascimento de seu filho, em 1940, Nini lançou o vinho Canônico, atendendo aos pedidos do padre. Presente no mercado até hoje, ele divide com o conhaque Presidente, de 1950, o lugar dos produtos mais antigos em linha. Foi nessa mesma década que a vinícola teve seu primeiro enólogo formado (em Mendoza) Orval Salton, e o primeiro maquinário importado para o engarrafamento.


Na Serra entre picos e vales
Wagner Ribeiro, diretor de vendas, está na empresa há 25 anos e conta que a vinícola teve muitos desafios em sua história: "A Salton manteve a essência, atravessando os picos e vales por onde caminhou. Não foi e não é fácil enfrentar o mercado fechado e, às vezes, preconceituoso". Diante do faturamento de R$ 209 milhões de 2009, o comentário de Wagner parece exagerado. Não é. "As crises se abateram sobre a Salton como acontece com todas as empresas em algum momento", afirma Daniel Salton, diretor presidente, que está na empresa há 30 anos.

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"Lembro de vir para uma reunião em 1986 pensando que poderia ser a última. A decisão naquele dia poderia ser a de encerrar os negócios", lembra Toninho Salton, na época um recém-chegado à empresa paterna. Fatores internos e externos contribuíram para o momento extremo, levando a vinícola a ter sérios problemas de caixa. "Mas uma empresa atinge sua máxima eficiência justamente à beira do colapso", diz Toninho, cujos conhecimentos financeiros de 20 anos de carreira em banco auxiliaram a empresa mais de uma vez. Daquela reunião saíram estratégias de recuperação e uma tomada de consciência que envolvia repensar a qualidade e as linhas de produtos.


"Lembro de vir para uma reunião em 1986 pensando que poderia ser a última. A decisão poderia ser encerrar o negócio", lembra Toninho

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Acima, os fundadores: Paulo, Ângelo, João, José, Cezar, Luiz e Antônio. Abaixo: Nini Salton


No vinho, a mudança
O conhaque era um produto forte, mas os vinhos deixavam a desejar. Para modificar essa realidade, em 1983, foi trazido o enólogo Lucindo Copat, neto de um dos fundadores da Vinícola Aurora. "Quando cheguei na Salton, eles não tinham um só tanque de aço inoxidável. Era a época dos vinhos brancos de estilo alemão, mas, sem os tanques, era impossível fazê-los", lembra Copat, hoje diretor técnico.

Sob sua orientação foram comprados equipamentos usados e novos padrões de produção implantados, que deram fôlego à empresa. "Fizemos o vinho branco que era moda, começamos a elevar o padrão dos espumantes e o mercado respondeu", diz Copat, que completa: "Mas a mudança radical foi em 1995, quando começamos o projeto que resultaria no Salton Talento, em 2002. Para chegar nisso, modificamos todas as linhas de vinhos e focamos na qualidade". Hoje são produzidos 29 vinhos finos, num total de 49 produtos que incluem suco e conhaque.

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No topo, a nova fachada da Salton e a Casa Salton com a Igreja ao fundo

Conhaque Presidente (de 1950) e vinho Canônico (de 1940) são os dois produtos mais antigos da linha da Salton

O crescimento dos últimos 20 anos coincidiu com a evolução do vinho brasileiro e com a concorrência interna e externa. Motivo que levou a Salton à modificação que faltava: a estrutura física. "Nossas instalações eram antiquadas e mudar era urgente. Precisávamos receber bem o turista, aumentar a produção e comprar equipamentos. Assim, na década de 1990, trouxemos para Tuiuty 18 tanques de 10 mil litros e fizemos um empréstimo para construir a nova sede, que ocupamos em 2004", diz Toninho. Agora, são 301 tanques e o número de visitantes chega a 56 mil ao ano.


Tristeza entre taças
O pai de Toninho, o fundador Nini, não conheceu a nova sede. Ele faleceu uma semana antes de completar 100 anos, em 2001. E como toda vinícola histórica que se preza tem um fantasma camarada, os funcionários contam que, em 2004, viam um senhor em cadeira de rodas circulando feliz pelo enorme jardim. Assim, a única tristeza capaz de alterar o ânimo do centenário foi a morte prematura do presidente Ângelo Salton Neto, em fevereiro de 2009, que colocou a empresa em alerta novamente.

Apesar de familiar, a Salton tem acionistas e teve que decidir rápido a sucessão inesperada. Daniel Salton assumiu a presidência e impôs metas: "Em nossa longa história, conseguimos manter e reforçar a marca, ter o respeito do consumidor traduzido em faturamento e fidelidade. Agora precisamos tratar a empresa como corporação. A próxima geração tem que estar profissionalizada para uma gestão familiar, sim, mas do século XXI".

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A geração em questão está entre sul e sudeste. Na sede paulistana, estão as filhas de Ângelo, Luciana e Stella. A primeira é gerente de marketing. "Cresci sabendo que, quando viesse trabalhar aqui, era para não sair mais. Meu pai deu a vida pela Salton e eu trabalho com a mesma dedicação, para que meus filhos sintam por mim o mesmo orgulho que sinto por meu pai e pela empresa", diz Luciana. Sua irmã Stella é a gerente administrativa com a tarefa de modernizar estrutura e operações da planta de São Paulo, onde é feito o conhaque. Um desafio para uma jovem de 26 anos vinda do mercado financeiro, que terá que explicar a funcionários contratados antes de ela nascer que aquilo que fazem há décadas será modificado.

Em Tuiuty, estão o enólogo Luciano Salton e Daniela Salton (neta de Nini), que passou boa parte de sua carreira de marketing trabalhando em São Paulo, mas voltou para o sul para assumir a coordenação de comunicação e marketing. No mesmo escritório, está Maurício Salton, diretor administrativo que, nas palavras do pai Daniel, desejou trabalhar na empresa desde guri. Ele chegou há pouco, preparado para o desafio: "O dinamismo do mercado exige constante atualização. Não podemos de forma alguma entrar na zona de conforto. Neste momento, ou investimos em crescimento sustentável ou veremos os esforços de anos e gerações sucumbirem diante da concorrência. Projetamos ser referência dentro do setor vinícola em cinco anos", afirma.


Em 2009, a empresa faturou R$ 209 milhões e vendeu 6 milhões de garrafas de espumante

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Acima, Daniel Salton, Toninho Salton e Lucindo Copat
E a nova geração: Stella, Maurício, Daniela e Luciana

A comemoração de agosto alcança muitas gerações da Salton. Celebra as 6 milhões de garrafas de espumante vendidas em 2009, a trajetória que une os sete fundadores e seus descendentes, a família estendida da Salton (acionistas e 350 funcionários), os viticultores que fornecem uvas e mais, os consumidores que a cada taça degustam um gole da história do vinho no Brasil.

Silvia Mascella Rosa

Publicado em 22 de Julho de 2010 às 14:07


Terroir Brasil

Artigo publicado nesta revista