Saúde

A fórmula da vida

O consumo moderado de álcool aumenta a longevidade, aponta o mais longo estudo já feito sobre o tema


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"Eu bebo sim. Estou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo. Tem gente que já está com o pé na cova. Não bebeu e isso prova que a bebida não faz mal". Esta famosa letra de samba sempre foi cantada com o humor típico carioca. Contudo, no começo de setembro, pesquisadores das universidades do Texas Austin e de Stanford divulgaram os resultados de um estudo que finalmente mostra a relação direta entre o consumo de álcool e a longevidade. Durante 20 anos, os cientistas monitoraram 1,824 pessoas entre 55 e 65 anos, e, basicamente, chegaram à conclusão que os mais antigos e sábios sempre pregaram: "uma taça de vinho por dia faz você viver mais".

"As conclusões do trabalho não são nenhuma novidade para o meio científico. Há cerca de 80 anos publicam-se artigos científicos que mostram que o hábito de ingerir bebidas alcoólicas (sobretudo o vinho) moderadamente aumenta a longevidade", afirma o médico e estudioso Jairo Monson de Souza Filho.

Estudo mostrou que grupo de abstêmios
é o que apresenta menor longevidade

A nova pesquisa, porém, aponta dados que podem deixar muitos incrédulos e diz que os abstêmios (que não consomem absolutamente nada de álcool) são o grupo com maior taxa de mortalidade, na faixa de 69%, maior mesmo que aquelas pessoas que bebem pesadamente (cerca de 42 gramas de álcool por dia, o equivalente a duas doses de uísque), cuja taxa é de 60%. Por fim, quem vive mais (e por que não dizer também: melhor) são as pessoas que consomem álcool moderadamente - o que significa de 14 a 42 gramas, ou seja de uma a quatro taças de vinho por dia -, que apresentaram um percentual de mortalidade de 41%, melhor até do que quem bebe um pouco menos de uma taça de vinho por dia (ou 14 gramas de álcool), que apresentou 46% de mortalidade.

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Qual a novidade então?
Segundo o médico Jairo Monson, a crítica que se fazia aos primeiros estudos era a seguinte: a maior sobrevida das pessoas que tinham o hábito de ingerir bebidas alcoólicas poderia ser por outra causa que não o álcool. Questionava-se se seria a dieta, ou outros hábitos de vida, ou qualquer outra coisa. Foram feitos então estudos que corrigiam esses fatores de confusão. O mais conhecido e reconhecido deles foi um publicado por Morten Gronbaek em 1994. "As conclusões não mudaram. Reforçou- se a convicção de que o álcool favoreceria a longevidade", atesta.

O que torna esse novo estudo relevante, além do longo tempo de duração, é que sua metodologia, diferentemente de pesquisas anteriores, buscou excluir a influência de qualquer fator externo, como doenças crônicas preexistentes e questões psicológicas até mesmo no grupo dos abstêmios. "Alguns cientistas levantaram a possibilidade da confusão estar no grupo dos abstêmios. Argumentava-se que algumas das pessoas desse grupo eram abstêmias por serem doentes ou já terem contra-indicação ao álcool e, por isso, morriam mais. O grande mérito deste novo estudo é corrigir os fatores de confusão também no grupo dos abstêmios. Por isso ele, no presente momento, é definitivo e tão importante", garante o médico.

Então, retirados todos esses fatores externos, comprovou-se que o álcool influencia diretamente na longevidade, pois o ingrediente comum em todas as bebidas, com exceção do vinho, era o álcool.

O que se pode questionar?
Para Jairo Monson, a pesquisa pode ser questionada nos seguintes aspectos de sua metodologia:
1. As informações quanto à quantidade ingerida de álcool foram obtidas por entrevista. As pessoas tendem a informar um consumo menor que o real. Dificilmente alguém diz que bebe mais do que realmente bebe.
2. Consideram que bebedor moderado é o que ingere de 14 a 42 gramas de álcool por dia. Essa classificação de moderado não é consenso entre os pesquisadores.
3. A definição de quantidade de álcool por bebida é imprecisa e pode dar diferenças significativas. Para uma taça de vinho ter realmente 14 gramas de álcool (como eles definem neste estudo), ela terá que ter 134 ml se o vinho for de 13%. Ou 145 ml se o vinho for de 12%. E assim também as outras bebidas. "Esses preciosismos técnicos não mudam as conclusões. Por isso, são filigranas", garante o especialista.

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Vinho bom
Durante anos e anos pesquisadores de todo o mundo vêm conduzindo estudos sobre os efeitos do álcool no organismo. Milhares de pesquisas já mostraram os efeitos benéficos do consumo moderado de álcool para a prevenção de doenças coronárias, diminuição de colesterol, entre outros tantos fatores, incluindo ação antioxidante, ou seja, o dito efeito "rejuvenescedor".

No entanto, outros tantos estudos evidenciam que o consumo exagerado traz mais malefícios do que coisas boas, especialmente em relação ao aumento da taxa de câncer, por exemplo. Mas outras tantas pesquisas revelam ainda algo muito interessante para os enófilos: o vinho é a bebida alcoólica que apresenta o "melhor desempenho" em termos de benefícios e a única que certamente apresenta benefícios, obviamente que não devido somente ao álcool, mas aos diversos polifenóis (especialmente o resveratrol) presentes.

Grande quantidade de pesquisas encontraram
sempre os mesmos resultados

"Os estudos com maior nível de evidência científica são os randomizados e controlados. Isso é praticamente impossível fazer com bebidas alcoólicas, porque envolvem muitos fatores de confusão (individuais, comportamentais). Sem contar os aspectos religiosos e éticos. Nesse caso, precisamos considerar a grande quantidade de estudos feitos em diferentes épocas, por diferentes pesquisadores e, por vezes, com metodologias diferentes, sempre encontrando o mesmo resultado: a ingesta moderada de bebidas alcoólicas (sobretudo o vinho) aumenta a expectativa de vida tanto de homens como mulheres", conclui Jairo Monson.

BENEFÍCIOS DO CONSUMO MODERADO DE VINHO PARA A SAÚDE:

Diminui a incidência de doenças coronárias - combate o colesterol LDL (que obstrui as artérias), reduz risco de infarto do miocárdio e AVCs
Ação antioxidante - retarda o envelhecimento dos órgãos, inclusive da pele
Protege contra demência - estudos relacionam o consumo prudente com a diminuição da incidência do mal de Alzheimer
Ação antiviral e bactericida - aumenta a resistência contra infecções
Diminui a incidência de problemas gastrointestinais - protege contra úlceras, cálculos biliares, auxilia na digestão
Menor chance de cálculos renais - devido à ação diurética
Aumento da sensibilidade à insulina - pode ajudar na diabetes tipo 2
Melhora da densidade óssea - reduz a chance de osteoporose
Destrói células de gordura - pode servir como parte de uma dieta de emagrecimento
Reduz a incidência de câncer - estudos mostram efeitos preventivos e até mesmo inibidores durante o tratamento de diversos tipos, como de próstata, pulmão, ovário, do aparelho digestivo e outros tantos

Arnaldo Grizzo

Publicado em 8 de Novembro de 2010 às 13:25


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Artigo publicado nesta revista